A latinha da coca-cola

A igreja de Jesus Cristo sempre viveu a tensão entre suas faces orgânica e organizacional. Parece que nos últimos anos essa tensão se agravou. Especialmente no segmento evangélico de tradição reformada, a crítica à “igreja instituição” está na moda, e não são poucos os que se vangloriam de ter “rompido com a instituição”. Outro dia alguém me classificou de “institucionalizado”, e me senti praticamente xingado. Decidi dar mais atenção à dimensão institucional da igreja corpo vivo de Cristo. Jamais imaginei que fosse levantar minha voz para defender a bandeira institucional, e é bem provável que no início eu estivesse movido pelo instinto de sobrevivência ou auto-justificação, mas ao final achei que meus argumentos faziam sentido. Hoje já não me incomodo quando alguém diz que sou “institucionalizado”.

Essa conversa de “ser desinstitucionalizado” na melhor das hipóteses reflete ignorância. Na pior, má fé. Considere a chamada “igreja primitiva”, geralmente idealizada como modelo “desinstitucionalizado” a ser reproduzido, e perceba que o desenvolvimento natural da igreja exigiu organização (Atos 6.1-7), nomeação de liderança e acomodação hierárquica (Atos 14.21-23), estabelecimento de normas, costumes e critérios éticos entre as igrejas (Atos 5.1-11), definição de um credo mínimo (Romanos 11.33-36; Filipenses 2.5-11; 1Timóteo 1.17; 3.16), assembléias presbiteriais (Atos 15); ação estratégica para a expansão (Atos 13.1-3; 11.19-21), sistema de arrecadação, gestão e distribuição de recursos financeiros (2Corintios 8,9); ordem e direção litúrgica para os encontros coletivos (1Coríntios 14.26-40), dentre outras características que hoje são consideradas um gesso que impede a boa manifestação do corpo orgânico da igreja.

A tão celebrada “igreja primitiva” era institucionalizada. Caso você participe de um “movimento” que tenha: (1) liderança identificada; (2) hierarquia definida; (3) rotina de atividades; (4) agenda de serviços; (5) voluntários coordenados; (6) demandas coletivas; e (7) necessidade de arrecadação financeira, então você não participa de um movimento, você é institucionalizado.

Os que se consideram “desinstitucionalizados” geralmente são aqueles que romperam com uma instituição e se comprometeram com outra. A diferença é que algumas instituições têm centenas de anos de história enquanto outras nasceram ontem, e quase sempre baseadas em uma personalidade tipo “guru” ou “messias reformador” que levará a igreja de volta às origens. Reconheço que por serem mais novas, as instituições emergentes podem ser mais leves, ágeis e eficazes. Mas não significa que não sejam instituições. E também não significa que sejam menos perniciosas e enfermas que as instituições centenárias.

Jesus advertiu que o vinho carece de odre, e que há odres mais adequados que outros. A questão, portanto, não é ser ou não ser institucionalizado, mas o tipo de instituição que pretende acomodar o vinho novo do Evangelho de Jesus Cristo, nosso Senhor.

Imaginar a possibilidade de uma igreja que seja apenas organismo espiritual sem qualquer dimensão de instituição social é o mesmo que considerar a possibilidade de chegar no balcão da padaria e pedir um refrigerante dizendo: “Sem garrafa, por favor”.

O conflito entre as dimensões orgânica e organizacional da igreja começou cedo. Tão logo Jesus foi levado aos céus. No contexto da comunhão e da oração (organismo) Pedro se levanta para promover a eleição do substituto de Judas (organização). Mas Deus não se fez de rogado, mandou do céu algo como um vento impetuoso e deixou claro que a necessidade humana de controle que tende a se perpetuar através de sistemas institucionais jamais conteria a dinâmica vital do povo batizado com o Espírito Santo, pois “o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Coríntios 3.18).

Essas reflexões me levaram a considerar os dez pecados que um líder institucional não pode cometer. São eles:

1°   Enclausurar Deus nas paredes de sua instituição

2°   Limitar as manifestação do Reino de Deus aos horizontes de sua instituição

3°   Condicionar a relação com Deus à relação com sua instituição

4°   Exigir da igreja povo de Deus sacrifícios em nome de sua instituição

5°   Restringir a atuação ministerial dos cristãos ao engajamento em sua instituição

6°   Confundir a instituição com o corpo vivo de Cristo

7°   Pretender gerir o corpo vivo de Cristo com a lógica da gestão isntitucional – se preferir, basta “pretender gerir o corpo vivo de Cristo”

8°   Priorizar as relações funcionais em detrimento das relações pessoais

9°   Colocar o corpo vivo de Cristo à serviço da instituição

10°   Tentar perenizar a instituição

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23 Comentários

  • 16/12/2010 às 11:52

    Só uma palavra para definir o texto:

    Excelente!!!

  • Moisés Lourenço
    16/12/2010 às 12:08

    Bom dia, Ed.

    Se possível, leia este texto:

    http://www.pavablog.com/2010/11/28/sobre-maria-rita-e-o-dilema-caminho-da-graca-e-cristianismo-light/

    Abraços

  • 16/12/2010 às 12:23

    Ed René Kivitz, “bundão” de Deus…você é muito querido e ouvido. A lista de 10 pecados é pertinente e desimbecilizante. Obrigado. Bjo.

  • Ivone Brandão Melo Dorresteijn
    16/12/2010 às 12:31

    Muito bom este artigo/reflexão. Abs.

  • Diogo Bochio
    16/12/2010 às 12:46

    FANTÁSTICO!!!! Esse é um assunto “tricky” sobre o qual inúmeros livros poderiam ser escritos sem nunca abordar o assunto exaustivamente. Curti muito seu ponto de vista, suas alfinetadas… em suma, curti muito! =)

  • 16/12/2010 às 12:52

    Excelente!
    Ósculos e amplexos!

  • Levi
    16/12/2010 às 13:23

    Prezado Pr. Ed,

    Gostei muito de sua reflexão.

    Discordo, porém, em partes,com sua conclusão que diz: “Essa conversa de “ser desinstitucionalizado” na melhor das hipóteses reflete ignorância. Na pior, má fé”. Desculpe, mas achei uma generalização desnecessária. Sua frase nos induz a acreditar que só existem essas duas possibilidades. Se não for um, é outro. Não creio que seja assim.

    De fato, existem pessoas que utilizam este “rótulo” (se podemos chamar assim) quase como uma máscara para tocar uma “vida desvairada”. Uma camuflagem para as cobranças internas e externas. Criam um cristianismo vago; são os novos evangélicos (ou cristãos) não-praticantes, se é que isso pode existir.

    Por outro lado, conheço, pessoalmente, aqui no Ceará, algumas pessoas que, acredito, são de fato desinstitucionalizadas. Para sustentar meu ponto de vista, recorro aos 7 pontos citados por você. Não existe uma liderança identificada, mas um revezamento de obrigações; Não existe uma hierarquia definida, todos são tratados da mesma forma e utilizam seus dons conforme Deus os deu; e, por último, não há necessidade de arrecadação financeira, todos os seus membros possuem suas receitas advindas de outros meios, sendo assim, todos, totalmente voluntários ao serviço. Os outros pontos são concordantes. Acrescentaria ainda outro ponto importante a esses: a única bandeira levantada é a da igreja do Senhor. Não são ligados a nenhuma outra nomenclatura, e quando necessário discutir doutrina, conversam de uma forma bem aberta e consciente. Consideram que a vida vale muito mais. Você não concorda? :)

    Sou defensor de ambas as formas. Defendo a instituição, se devidamente fincada nos alicerces divinos. Defendo “movimento” (se assim você deseja chamar), se possuir o mesmo propósito.

    Muitos se “desligam” da instituição por se sentirem magoados por seus líderes ou pelas doutrinas (mal) “impostas”. Mas é preciso entender que nenhum “movimento” é hospital de refugiados da instituição.Ele não deve se apresentar assim, porque possui a mesma capacidade de machucar um membro. Ou não são ambos formados por seres humanos egoístas e egocêntricos?

    Abraços…

  • Felipe Ferreira
    16/12/2010 às 13:30

    este assunto é muito delicado, pq muitas pessoas acreditam q a instituição é a igreja, quando na verdade, as pessoas q fazem a instituição é quem são(ou deveria ser).
    Não me importo com a instituição, desde q pratiquem a palavra, como a igreja primitiva, sem brigas de constituições, o q é muito raro isso nos dias de hj, na verdade ainda ñ vi nenhuma q vivesse dessa forma.

  • 16/12/2010 às 13:42

    Com todo o respeito de quem o admira muito, pastor, suas palavras sobre o Natal proferidas no ultimo encontro dia 14, 20hs, faltou lembrar da presença absolutamente necessária dos animais presentes no estábulo. Eles aqueceram as pessoas presentes, inclusive o bebezinho, lembra? O jumentinho carregou Maria e deve ter permanecido por ali, lembra? Os astrólogos, provavelmente, viajavam de camelo, lembra? Esse antropocentrismo velado dos cristãos tem criado uma serie de problemas para vocês mesmos! Percebe? Inclusive estas disfunções todas, porque, todo aquele que se enxerga fora da cadeia alimentar é disfuncional por definição, somos mamíferos, lembra? Quantas vezes vocês decidiram que outros humanos eram menos humanos que vocês só por não cultuarem o mesmo deus que vocês? Lembra? Instituição é do gosto romano de ser. Lembra?
    O senhor é uma das pessoas mais inteligentes de que tive notícia recentemente e com este seu texto pude ter certeza. Deus o abençoe muito!

  • Wander
    16/12/2010 às 18:54

    Querido Pr. Ed,
    Esse texto marca uma ruptura de opiniões frente ao “movimento dos desigrejados”. Interesante ler, entender seu posicionamento, e perceber sua defesa frente a necessidade de um organismo e uma organização. Oremos para que as lideranças saibam lidar com isso, aliás o grande problema está aí.
    A crise nas instituições tem feito membros saírem, e se desinstitucionalizarem, pois estão “FERIDOS EM NOME DE DEUS”. Entendo, que pode haver uma 3ª via: “OS NÃO-ALINHADOS”, os institucionalizados decepcionados e disposto a mudar e se sacrificar por isso!
    Eu estou aí!
    Graça e paz!
    Wander

  • 16/12/2010 às 19:31

    Pastor Ed, boa tarde.
    Sou frequentador da Ibab e gostaria de agradecer por esse fantástico texto, que ajudou a iluminar meu caminho, um tanto quanto nebuloso desde que saí de uma igreja neopentecostal há cerca de 3 anos.
    Que Deus continue usando a sua pessoa para ensinar, exortar, consolar e abençoar muitas pessoas.
    Ovidio.

  • Marcelo Madeira
    17/12/2010 às 1:37

    Quer dizer que em razão da instituição não ter condição de conter a dinâmica vital do povo batizado com o Espírito Santo(“o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade”), podemos nos institucionalizar à vontade?
    Acho complicado pensarmos assim…Aliás, os milhares que já foram machucados é que o digam. Enfim, pra mim a grande questão não é institucionalizar ou não, mas, é o grande risco que corremos de controlar, dominar. E penso que é muito difícil praticar os 7 pontos [(1) liderança identificada; (2) hierarquia definida; (3) rotina de atividades; (4) agenda de serviços; (5) voluntários coordenados; (6) demandas coletivas; e (7) necessidade de arrecadação financeira], sem cair nesse controle e domínio.
    Abs!

  • Thiago
    17/12/2010 às 13:13

    Gostei muito do texto. Tenho usado muito os seus “óculos” para compreender o evangelho. Tenho gostado !

    Abraço

  • Wagner
    17/12/2010 às 13:18

    Pastor Ed, parabenizo-o pela ótima e esclarecedora reflexão.

    Agora, fico impressionado com os comentários ecléticos que leio aqui.

  • Fábio Cardoso de Carvalho
    19/12/2010 às 1:17

    muito bom, pr Ed, como sempre!

    também sugiro uma ótima reflexão sobre o assunto do Igor Miguel (twitter: @igorpensar): Resturacionismo discernido – http://pensarigor.blogspot.com/2010/11/restauracionismo-e-negacao-da-tradicao.html (tem um comentário meu lá no final….)

    Forte abraço

    Fábio (twitter: @fabioccarvalho)

  • Wagner Mignella
    25/12/2010 às 15:31

    Legal!!!!
    Separou “instituição” de “organizar historicamente a Igreja”. Por isso não pôde citar, Convenção Batista Brasileira como Clero Papal.

  • Viviane Monteiro Guizelini
    03/01/2011 às 13:15

    Olá Pr. Ed,

    Essa reflexão, e os comentários que se seguiram, me fez lembrar do livro “Apocalípticos e integrados”. Será uma dicotomia? Gostei do texto e dos comentários. Deus abençoe.

  • Pr.Elion de Almeida
    06/01/2011 às 19:36

    Boa tarde Pr. Ed.
    Acabo de ler esse texto e quero agradecer a Deus pela sua maneira de escrever. Tenho ouvido de algumas pessoas que, muito próximas de mim, de que não precisam mais da igreja. Que a igreja só atrapalha e trava a ação do Espírito Santo. Sou defensor da igreja de Cristo e dói meu coração alguns dizerem que não precisam dela. Acho isso uma aberração. Esse texto foi esclarecedor e quero fazê-lo conhecido.
    Que o Senhor da Igreja continue te abençoando.
    Abraços
    Pr. Elion (Igreja Batista em Jardim Atuba-Pinhais/PR)

  • 12/02/2011 às 23:53

    Olá,
    Acredito que este seu texto está contradizendo um outro de sua autoria que li no PavaBlog( http://pavablog.blogspot.com/2010/04/as-marcas-da-institucionalizacao-da.html ), a não ser que tenham colocado o seu nome nele… (?)

    Graça e paz

  • Raoni
    19/04/2011 às 15:54

    Ed, então você discorda do Paulo Brabo? Ah, existe mais um problema que a instituição causa: o “frequento a igreja tal…” que uma pessoa escreveu aqui em cima. Igreja = local onde se frequenta, pra essa pessoa.

  • Marcos Sá
    11/05/2011 às 9:01

    Parabéns, vc aprendeu a defender o seu lado e chutar os outros. Isso os Institucionalizados fazem a tempos. Separam o corpo por comportamento. Tudo bem então, se eu não me enquadrar nas normas dessa “igreja” eu posso ir pra outra.
    Entenda, a institucionalização é necessaria para organizar ações coletivas, porém não pode ser o fim. E a DENOMINAÇÃO é quem deve ser combatida, pois ela separa o corpo.

  • Elias Augusto
    21/09/2011 às 12:43

    Liderar sempre foi um grande sonho do homem e a instituição, da poder de um sobre o outro.

    Sou um desses fora da tal sagrada instituição. Fui crido em um lar evangélico e batizado na igreja batista, não me frustrei com nada a não ser com a falta da verdade ou melhor com a inexistência do evangelho de Jesus na casa de Deus rs.

    Fico pensando que toda essa fabrica de medo e culpa deve ter sim seu papel na historia da humanidade, porém por ter recebido a liberdade em Cristo escolhi não ser parte dela.

    Me identifiquei com o evangelho maltrapilho
    da graça e do amor.

    Essa minha experiência é uma regra para todos, acredito que não, mas para mim foi libertadora.

    ACEITAR,, essa para mim é a chave do evangelho de Cristo, porém é mais fácil classificar as pessoas por categorias tipo: da igreja, fora da igreja, ímpio, crente.

    Onde fica >>> Porque Deus amou o mundo de tal maneira … espera ai seria fácil demais e como ficaria todo meu esforço na busca da minha moral absoluta e minha competência nas atividades da igreja, não o amor de Deus não é para todos e sim para um grupo de sortudos que escolheram Deus.

    Porém para mim ficou simples assim, pois só assim encontrei abrigo, consolo, saúde e paz.

    Só assim consegui ser livre do pecado que me dominava corpo e alma e hoje posso dizer, Pela graça sou salvo.

    Verdade absoluta, não apenas a verdade que me salvou.

    Paz.

  • 19/01/2012 às 10:58

    Caro Pr. Ed,

    Entendi a posição do irmão, embora não concorde com tudo. Pois também estamos criando uma comunidade de salvos que se reunem em volta de uma mesa aqui em Goiânia, Goiás.
    O final de seu artigo criou uma certa contradição com o que o irmão disse acima, pois é impossível que uma igreja institucionalizada não cometa pelo menos um ou todos dos dez pecados listados.
    Deus tem movido e removido um povo para fora das placas e dos templos, colocando-os nas casas para viverem uma comunhão autêntica, intensa e viva.
    A propósito, escrevi um artigo em meu blog sobre isso, quem quiser basta acessar:
    http://vozdoqueclamananet.blogspot.com/2012/01/que-tipo-de-igreja-estamos-construindo.html

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