Vejo a Caras quando vou cortar o cabelo. Nem sei porque faço isso. Simplesmente faço. É meio automático, entro e vou procurando a edição mais nova na pilha de revistas. Outro dia, entre uma foto e outra me ocorreu de analisar a fauna social. Foi meio de repente. A idéia me chegou como para ser usada numa legenda de foto. Imaginei uma colagem de todas aquelas fotos da revista, tipo um painel, com a legenda: a fauna social. Logo em seguida começou a descer um texto, como se eu estivesse sendo vítima de um download involuntário. Sem muita elaboração comecei a classificar as personagens em categorias de acordo com três critérios: berço, grana e consciência. Dali em diante não parei mais de pensar na coisa e deu nisso que você está lendo.
Abri uma gaveta para “os que são”, isto é, os que têm berço, grana e consciência. São raríssimos. Quase não aparecem. Não fazem questão de aparecer, e inclusive tenho a impressão que se escondem. Na verdade, os que são não precisam aparecer. Não ganham nada aparecendo, e de fato só têm a perder com a exposição pública. Aparecem pela simples razão de serem inescondíveis. Quem é, não consegue passar despercebido. Cedo ou tarde é flagrado por um clik geral;mente intruso ou indiscreto. Esse pessoal é descolado, desencanado, simples sem ser simplório, chic sem ser esnobe, elegante, mas sem ostentação, rico sem afetação, culto sem ser pernóstico (perdoe a lista de pleonasmos).
Coloquei “os que pensam que são” em outra gaveta, a dos que têm berço e grana, mas não têm consciência. São vazios. Respeitados pelo dinheiro ou pelo sobrenome, se ficarem pobres (o que é difícil) serão descartados. Vivem rodeados de amigos de ocasião, alguns puxa sacos, um sem número de chupins e não poucos interessados em alguma migalha eventual. Estão na roda, mas são motivo de piada, e não desconfiam que posam de ridículos.
Na gaveta ao lado coloquei “os que morrem de vontade de ser”, os que ganharam dinheiro para entrar na roda dos que são, mas não têm berço nem consciência, e por isso nunca serão. Porque estão na mesma roda, pensam que são, mas não são, ou melhor, são. São patéticos.
Arrumei também uma gaveta para “os que já foram”, o pessoal que têm berço, mas perdeu a grana e não tem consciência, se é que um dia teve. Vive do sobrenome, dos contatos e das velhas amizades. Alguns razoavelmente conscientes da situação, estão se virando como podem, outros ainda desfilam com o nariz empinado e não se dão conta de que “o rei está nu”.
Há uma gaveta para “os que um dia serão”, mas ainda estão por aí e a gente não sabe deles porque ainda não são nem ficam querendo ser ou mostrar que são, pois senão jamais seriam. Perto deles fica uma gaveta especial, que reservei para os que nunca serão: os pobres, que geralmente trabalham para o resto da turma, muitos dos quais, inclusive com muita consciência, mas pela falta da grana nunca serão considerados entre os que são.
Encontrei um pessoal que não quis gaveta. São “os que não estão nem aí para essa coisa de ser ou não ser”, que também estão circulando, geralmente sem ser notados e sem a menor preocupação em se fazer notar. Alguns destes são, outros jamais serão. Têm em comum o fato de não estarem preocupados com o que os outros pensam que são, pois eles mesmos sabem quem são, e isso lhes basta. Alguns têm berço e grana, outros só têm a grana ou ainda só berço, e alguns poucos não têm berço nem grana. Mas todos têm consciência.
Fiquei imaginando o que passa na cabeça dessa gente toda. Quem são os mais felizes. Ou infelizes. Os que são, são, e os que não estão nem aí para essa coisa de ser ou não ser, na verdade são. Ou não se preocupam com a felicidade ou sabem que ser feliz é ter consciência, inclusive a consciência de não ser feliz, afinal, o que é mesmo essa tal felicidade?, perguntam sem esperar a resposta, pois querem mesmo uma vida digna. Os que já foram talvez se lembrem do tempo em que foram e provavelmente guardam magoas dos culpados pelo fato de não serem mais, ou amargam a culpa por se sentirem responsáveis por não serem. Imagino que alguns que já foram devem se sentir aliviados pelo fato de não serem mais, estarem fora da prisão, mas duvido que existam, pois se pensassem assim ainda seriam, e se consideravam o ser uma prisão é porque não eram.
A respeito dos que pensam que são, os patéticos, imagino coisas contraditórias. Às vezes acho que no fundo sabem que não são, e devem sofrer um bocado, mas sem perder a pose, e então merecem sofrer mesmo. Mas para falar a verdade, acho que os que pensam que são não pensam, ou não pensam em nada além de pensar que são, e nesse caso se parecem com um cachorro bobo alegre que a gente não precisa nem ter pena, pois são felizes porque pensam que são. O que a gente precisa é ficar por perto para o dia em que descobrirem que não são. Aí sim, talvez sofram e comecem a pensar, e pensar em outra coisa além de pensar que são, o que, aliás, é inevitável, terão que pensar também que de fato nunca foram.
Eu não queria estar na pele dos que morrem de vontade de ser. São réus de crimes inafiançáveis: sabem que não são, tanto é que morrem de vontade de ser, e justamente porque não são mas morrem de vontade de ser, desperdiçam o que são gastando o que têm e o que não têm tentando ser. Ganhariam mais se assumissem o que são, isto é, que não são o que morrem de vontade de ser, e assim poderiam desfrutar o que de fato são, e quem sabe um dia até poderiam vir a ser, mas aí teriam vindo a ser baseados no que são e não no que morriam de vontade de ser.
Fico a considerar que felizes mesmo são os que sabem que são, pois para esses já não importa se são ou não são, só importa o que sabem que são. E viva Hamlet. Ou Shakespeare, sei lá, eis a questão!
Ah, já ia me esquecendo de sublinhar que o texto é sobre a fauna social e não sobre a fauna humana. Em relação à fauna humana não existe classificação do tipo ser ou não ser. Na fauna humana todo mundo é. Inclusive aqueles que não acreditam que são.












17 Comentários
Adorei. Mesmo. Merece um artigo na Caras.Muito boa visão do meio. Aptidão que poderia ser melhor explorada nos teus videos diários.
Simples, conexo, auto-explicativo. Resumindo, o texto é uma excelente leitura da tessitura social. Gostei muito do último parágrafo:
“Na fauna humana todo mundo é. Inclusive aqueles que não acreditam que são.”
Parabéns, pr. Ed, pela grande conduçãod e Deus em sua vida. Deus te abençôe e à sua família, e à sua igreja, e à toda igreja de nosso Senhor Jesus Cristo!
Sempre tive esse mesmo pensamento ao “ler/olhar” essas revistas. E, ao ler o que escreveu, só confirmo o que sempre achei… A necessidade de aparecer… Sem ser… Sem ter… Sem saber!
Sem palavras… texto excelente.
Simplesmente brilhante! Deus seja louvado.
Gostaria de ler um texto seu sobre esse mesmo assunto, e sobre essas mesmas condições sociais no ambiente eclesiástico.
Quais seriam as categorias no lugar de berço, grana e consciência?
Se é que este texto ja não serve.
Amo seu estilo de escrever,esse jogo de palavras é coisa de gênio. Perfeita leitura das pessoas e do meio em que vivem. Vc é culto mas simples, inteligente mas acessível e isso o faz admirável. Parabéns pela sensatez!! Abração
Dete Reis
Seus textos e Mensagens têm edificado demais minha vida!!
Glória a Deus pela sua!
Texto excelente que nos leva à reflexão …
No meio social,ser, pensar ser, parecer ser, querer ser, ter consciência ou viver a inconsciência disso tudo, anestesiado ou acordado, anomizado ou engajado, realmente dá para fazer uma boa análise e dividir em gavetas em que os personagens mudam de nome mas mantem os comportamentos. Seu texto mostrou muito bem as variações desse balaio social. Achei muito bom! Na existência, Eu sou, mesmo, só Deus.
Quanto à Caras, também acho o máximo da literatura automática para momentos cabeleireiro, espera no dentista ou no consultório médico.
Parabéns pela lucidez.
Lendo…a sua análise e não a revista, penso que:
É sem dúvida um espaço publicitário – travestido como imprensa – repleto de pessoas com modelitos desprezíveis, não por causa de origem pobre ou melhorada, também mas por causa da ignorância nobre.
Gente que busca fazer, da ignorância original, uma conversão da expressão em uma sapiência superior.
É, igualmente falso, que a suposição da impolidez educacional não lhes faz falta.
Fica claro que com uma intimidade com as coisas da cultura e com as conquistas da civilização, esse pessoal poderia e deveria reconhecer alguns valores inegociáveis – mas nã é o que tanto flutua nas páginas exageradas de cores, que não suporta uma redação com um mínimo de valores.
Com quinze minutos de leitura dessa revista é fácil notar gente oferecendo-se, como de fato o fosse, capazes de viver uma vida espiritual superiormente interessante, pautada por ´´livros“, cinema e música, como se a construção da figura pública pudesse ocultar a artificialidade. O marketing faz dessa gente o que é possível, segundo a sua mística: gente com tipagem de “intelectuais orgânicos”, que não podem ombrear com maioria dos brasileiros sérios. É uma tribo de gente que não mobiliza ninguém com um mínimo de inteligente e que apenas buscam reunir virtudes (do ponto de vista deles) para sustentar um projeto de influência e poder.
Uma das nossas terefas deveria ser dissecar mitologias e não alimentar mitos. Daí a repugna, que também sinto, não só aos que se submetem, mas também aos que produzem esse tipo de produto´´ social“ chamado, sei lá…essa revista….
O fino do seu pensamento: Os que já foram talvez se lembrem do tempo em que foram e provavelmente guardam magoas dos culpados pelo fato de não serem mais, ou amargam a culpa por se sentirem responsáveis por não serem.
Valeu mesmo.
ABS
acho que nunca houve um tempo em que as pessoas tivessem tanta necessidade de aparecer, de se mostrar e de ver o que os outros estão mostrando. Postam tudo, até a alma no face e no twitter. colam adesivos nos carros pra mostrar a quem pertecem…
precisa tudo isto? ou será reflexo de uma sociedade solitária que mal sabe pra onde está indo?
Bela reflexão! Que sejamos Nele o que realmente fomos chamados a ser. Sua Imagem e Semelhança! Grande abraço pastor!
Especialmente reflexivo!
Deus abençõe !
Pensar é divino.O mundo precisa dessa
ação.
Amei o jogo de palavras. há uma seriedade muito grande nele e daí a reflexão do que é ser, não ser, do querer não ser e de morrer de vontade de ser. Neste jogo de palavras a verdade é quanto menos “querer ser” mais seremos de Jesus…! Essa vontade é que realmente importa. Bom seria se tanta futilidade exibida nessa revita desse espaço para muitos que “não são”, mas que oram e trabalham para que todos sejam do Reino de Deus. Parabéns Pr., suas colocações são sempre muito interessante e acrescentam em muito nossas vidas.
Na verdade, eu particularmente, acho “que os que pensam que são” além de sofrer muito deixam de viver.
Meu abraço afetuoso e minha grande admiração, pastor.
Este artigo é muito interessante e me fez acreditar que mesmo em uma revista tão vazia e chã um olhar mais atento pode descobrir motivos de reflexão. Difícil mesmo é separar a “fauna social” da “fauna humana”, uma vez que estamos todos tão imersos neste mundo “global”…Fiquei a pensar sobre a qual fauna eu pertenço. Esta reflexão me fez lembrar de uma leitura em que li, há algum tempo, em algum lugar, sobre os supostos três aspectos do “ser”:
O primeiro, o que pensamos que somos.
O segundo, o que os outros pensam que somos.
E o terceiro, o que verdadeiramente somos.
Continuo em meu pensamento,levando a questão para um outro lado e perguntando a mim mesma: o que, de fato, somos? E o que sabemos do outro, afinal? Por mais que o analisemos e ainda até o julguemos pelo seu exterior, jamais saberemos quem ele, de fato, é. Penso que nem mesmo nós nos conhecemos verdadeiramente pois Paulo, e isso bem antes de Shakespeare, já levantava um questionamento sobre esse homem que somos: “o bem que quero, não faço, mas o mal, que não quero, esse faço… miserável homem que sou…”
Assim, toda essa questão me levou à certeza de que o único que verdadeiramente nos conhece mesmo é Deus, e somente diante dele, prostrados diante de sua majestade e santidade,é que poderemos ser verdadeiros, despidos de toda máscara. E é somente através de Cristo e de sua cruz que poderemos trazer consciência e conteúdo a um mundo cada vez tão vazio de sentido e de significados.
“Senhor, Tu me sondas e me conheces…esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos”.
Pr. Ed, obrigada por trazer o ponto de partida com essa questão!
Li o texto no Genizah…muito bom, a pura e infeliz realidade de uma parcela da sociedade, ou seria toda ela assim?…mais uma questão..rs
Ed, um grnade abraço.
Anibal
Pastor,não o conheço,mas ouço falar muito do senhor.Comprei um computador que me permitiu ouví- ló e isto tem me ajudado a compreender algumas verdades bíblicas.Seria interessante poder acompanhar estudos conduzidos pelo senhor,de alguns livros da bíblia.Um sonho…talvez!Um abraço,Sandra.
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