Peixes grandes e pequenos

Na esteira do pensamento paralelo de Dostoiévski, que afirma que, se Deus não existe, tudo é permitido, podemos dizer também que a pluralidade de deuses conspira contra a unidade do ser. A ausência de Deus tira do universo e da humanidade seu fundamento moral. Caso tudo quanto exista seja apenas e tão somente a matéria, a substância originária e permanente de toda a realidade, podemos viver como os peixes grandes que devoram os peixes pequenos. Quem deseja tomar a natureza como padrão para a organização social não tem razões para dar de comer a quem tem fome. O popular já expressou sua sabedoria egoísta: quanto menos somos, melhor passamos. Deixem morrer os pobres, que desapareçam as populações da periferia do mundo, assim teremos mais água, mais petróleo, mais condições de sustentabilidade para o mundo, diminuído o número de seu maior predador, a saber, o bicho homem.

Apenas a nocão de Deus como ser moral oferece à humanidade o fundamento da solidariedade indiscriminada. Essa é uma das grandezas do relato bíblico da criação: em Adão, todos os seres humanos são um, pois sobre todos repousa a dignidade divina. Jesus ensinou que assim como todas as moedas são identificadas pela imagem de César, também todos os seres humanos são identificados pela imago Dei.

O fundamento ético do universo e da humanidade repousa no amor, expressão do ser divino que a tudo dá origem. Isso implica necessariamente a compreensão de que a correlação que liga o homem a seu semelhante se realiza na compreensão de uma correlação superior, a que liga o homem a Deus e Deus ao homem, cuja síntese se revela no Cristo, Deus feito homem, único mediador entre Deus e o homens.

Essas são algumas razões porque, assim como a negação de Deus, a pluralidade de deuses inviabiliza a unidade do ser. Sendo verdadeiro que a relação do homem com Deus se manifesta na relação do homem com seu próximo, é imprescindível a pergunta a respeito do caráter desse Deus, que normatiza a relação entre os homens. Muitos deuses, muitas éticas. Muitas éticas equivale a éticas em conflito em busca de hegemonia. Como os deuses não brigam entre si, brigam seus representantes (ou se preferir, os deuses brigam entre si através de seus pretensos representantes). O monoteísmo cristão, que afirma a unidade de três pessoas numa única divindade, diz que Deus é amor, a comunhão harmônica e perfeita do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Qualquer Deus vestido com roupas diversas do amor é um ídolo, um falso Deus, um demônio. A dedução óbvia é que muitos deuses são artifícios para o surgimento de um único e outro deus que pretende rivalizar com o Deus vivo e verdadeiro. Esse outro deus atende pelo nome de ego humano, que, no caminho inverso do amor, mergulha para dentro de si na pretensão estúpida de afirmar a si mesmo como fundamento do universo e centro do mundo. A idolatria e a descrença, isto é, a afirmação de muitos deuses e a afirmação de Deus nenhum, são duas faces de uma mesma moeda: a absolutização do ego humano.

Uma vez que somente na relação com seu semelhante – com quem é um – o ser humano se realiza, e que somente Deus oferece o fundamento para a unidade da humanidade, toda negação do amor, que equivale ao afastamento do outro, equivale também à desintegração do ser. Em termos concretos, Deus nenhum e muitos deuses são uma e a mesma coisa.

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9 Comentários

  • Charles Fabre
    18/01/2012 às 12:47

    Legal

  • Leandro B. Pereira
    18/01/2012 às 12:55

    Gosto muito das dissertações filosóficas do Pr Ed com a sabedoria e luz do evangelho porque nos traz estas revelações que para mim é nova: “Muitos deuses, muitas éticas. Muitas éticas equivale a éticas em conflito em busca de hegemonia. Como os deuses não brigam entre si, brigam seus representantes (ou se preferir, os deuses brigam entre si através de seus pretensos representantes)”. Então (…) Deus é amor, a comunhão harmônica e perfeita do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

    Deus sela louvado. Abs. Leandro (imoveiscorretor@hotmail.com)

  • 18/01/2012 às 20:55

    Como é bom e edificante ler os seus textos….nesses momentos agradeço a Deus pela Internet…Obrigada Pastor Ed

  • 23/01/2012 às 16:11

    “Mas lembre-se, não há necessidade de abandonar o ego. Você não o pode abandonar. E se você tentar abandoná-lo, simplesmente estará conseguindo um outro ego mais sutil, que diz: ‘tornei-me humilde’…”
    O ego humano realmente nos engana, porém ele é necessário para que conheçamos o que é o verdadeiro centro…e para isso é imprescindível que mergulhemos para dentro de nós mesmos.Conhecer o ‘Deus verdadeiro ‘ é apenas uma parte desse mergulho. Nada de real pode ser conhecido no exterior de cada pessoa e as relações fazem parte do exterior.Não nos conheceremos verdadeiramente através da nossa relação com o outro. Apenas teremos um reflexo de nós mesmos e receberemos o condicionamento social, no qual as religiões e sistemas de crenças estão incluídos.
    Quando o homem mergulha para dentro de si e vai além das fronteiras do ego, ele se conhece verdadeiramente e conhece a realidade do Ser… e então essas questões de um deus, vários deuses…isso não importa mais. Porque nenhum homem que foi capaz de tocar sua própria alma voltará desse encontro defendendo causas ou sendo representante de alguém. Ele apenas aprecia a existência, não luta por ela. E, para esse homem, nisto consiste o verdadeiro Deus.

  • 26/01/2012 às 19:16

    Pr. Ed René,
    Há cinco anos coordeno o Clube do Livro Volante, um ministério para divulgação de bons livros cristãos. Recentemente comprei um exemplar de seu livro “Outra espiritualidade: fé, graça e resistênci”. Quando cheguei no capítulo “Pontos de Chegada”, imaginei transformar a mensagem em imagens, pois muitos jovens não conseguem ler mais do que uma ou duas frases. Pedi um orçamento para o Ed Sarro. Então ele me surpreendeu dizendo que você também é desenhista. Faço contato para perguntar o que acha da idéia e se autorizaria fazer esta “tradução” e divulgar. Nota: não tenho interesse em lucro. Na verdade queria distribuir de graça. Ainda estou pensando, pois há um custo envolvido para o qual ainda tenho que obter o recurso. Contudo, o principal é saber o que acha da idéia de criar uma nova forma de literatura para os jovens: muita imagem e curta. Grato pela atenção.

  • augusto césar pavarini
    30/01/2012 às 16:32

    Muito bom! Aiden Wilson Tozer em 1961,já escrevia sobre estas e outras idéias em:THE KNOLEDGE OF THE HOLY,com título em português, MAIS PERTO DE DEUS. Ed. Mundo Cristão

  • Pablo Moura Grillo
    04/02/2012 às 15:58

    Os que pregam coisas absurdas como essa se esquecem que Deus é justo, e sendo assim, como poderia dar vaga a um acomodado tirando de um esforçado? O povo cai na mão de manipuladores por falta de conhecimento básico.

  • Pablo Moura Grillo
    04/02/2012 às 15:59

    opa! postei comentário no texxto errado.Perdão! rsrs acontece

  • 07/02/2012 às 23:11

    O pior é que o consumidor gosta !

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