Arquivos da Categoria: Vida Profissional



TOQUEDEBOLA

Meu bisavô contou pro meu avô, que contou pro meu pai, que contou pra mim. O velho jurava que o futebol havia sido inventado na Letônia, mas ficou famoso depois que um inglês passou por lá e levou embora o ludopédio para as terras da Europa Ocidental. Contava que na origem o futebol chamava toquedebola, isso mesmo, tudo junto, porque era jogado com os pés e as mãos. Não tinha esse negócio de cartão amarelo para quem metia a mão na bola e ninguém ficava discutindo se o toque havia sido intencional ou acidental, interferido no lance ou não. A coisa era mais simples. O barato era colocar a bola no gol do adversário e valia tudo, gol de cabeça, de barriga, de canela, e de mão. Valia até gol com o pé. A única coisa esquisita é que gol de destro com o pé esquerdo valia dois, e vice-versa. Meu velho bisavô iria estranhar o futebol de hoje. Mas meu avô sabia contar direitinho como a coisa tinha degringolado. Quando o tal toquedebola começou a ser praticado dentro das fábricas inglesas, lá nos tempos da tal revolução industrial, os caras aproveitavam o pouquinho tempo do almoço e jogavam usando as botas pesadas de trabalho. As disputas eram acirradas e começou a acontecer que bota contra mão dava muita confusão. Foi aí que um esperto inventou a regra de proibir toque de mão. Dali em diante a coisa passou a ser só mesmo pé na bola. Depois que o toquedebola ganhou as ruas, já não eram necessárias as botas, mas um bom calçado caía bem. Inventaram a tal chuteira. Meu avô contava que existiam alguns grupos de resistência, que praticavam o toquedebola original, com pé e mão. Tinha até campeonato. Mas surgiu uma tal de uma fábrica que patenteou a chuteira e espalhou a notícia de que o pessoal que jogava toquedebola, com pé e mão era mal intencionado, estava desvirtuando a coisa e trabalhando contra a tradição, e ao final poderia até mesmo destruir as ligas e acabar com os campeonatos de futebol. Distribuiram folhetos contando uma história mentirosa, dizendo que nunca houve quem praticasse futebol com a mão, e que por isso mesmo a coisa chamava “football”. Claro que omitiram a história de que na origem a coisa chamava toquedebola. Como eram poucos os imigrantes que conheciam a história original, a mentira inventada pelos que lucravam com a venda de chuteiras foi sendo cada vez mais disseminada. Com a morte dos velhinhos, meu bisavô inclusive, acabou prevalecendo a ideia de que toquedebola é uma heresia e que o futebol sempre foi jogado somente com os pés. Moral da história. Quando alguém descobre um jeito de lucrar com alguma coisa, dá um jeito de inventar uma história que favoreça seu lucro. Todo mundo que discorada da história é considerado herege. Não importa se os que discordam da história dos que lucram com a coisa tenham razão. O que importa é o lucro. Compartilhe:

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Bem aventurados os pacificadores

A quarta edição do Fórum Cristão de Profissionais recebe no próximo dia 29/11 o ex-comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais do Rio de Janeiro Rodrigo Pimentel. O tema do encontro não poderia ser mais urgente: “Não matarás – Em Busca de Uma Cultura de Paz”. Pimentel atuou no BOPE entre 1995 e 2000 e sua experiência serviu de inspiração para a construção do personagem Capitão Nascimento dos filmes Tropa de Elite 1 e 2, em que atuou como roteirista ao lado de José Padilha, e dos livros Elite da Tropa 1 e 2, que escreveu ao lado de Luiz Eduardo Soares e André Batista. Atualmente, Pimentel atua como comentarista social da TV Globo do Rio de Janeiro. O Fórum Cristão de Profissionais é uma iniciativa da Igreja Batista de Água Branca com o objetivo de difundir um jeito cristão de ser profissional, ser empresa e fazer negócios, inserindo a sabedoria da espiritualidade cristã no mundo do trabalho. Segundo o pastor titular da IBAB, Ed René Kivitz, os encontros mensais promovidos pelo fórum “afirmam a atividade profissional como oportunidade privilegiada para cada pessoa contribuir na construção de uma sociedade de justiça e paz”. A série (iniciada em agosto) ainda promove o debate dos grandes temas sociais – como a violência urbana, neste caso – à luz da espiritualidade cristã. Compartilhe:

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