22 Apr
“Tem sempre o dia em que a casa cai”, dizia o poeta. Já na Bíblia tá escrito que “nada há encoberto que não venha a ser revelado”, palavras de Jesus. Dizem também que foi Abraham Lincoln quem ensinou que “você pode enganar a todos por algum tempo, alguns o tempo todo, mas jamais enganará todos por todo o tempo”. Na minha juventude ouvia meu pastor aterrorizando a rapaziada: “O diabo ajuda a fazer, mas não ajuda a esconder”. Depois de algum tempo, fiquei com a opção positiva: “Deus repreende os filhos a quem ama”, e nesse caso, quem gosta mesmo de trazer as coisas para a luz é Deus, que tem absoluto interesse em interromper caminhos de destruição e dar novas oportunidades a quem quer que seja. Infelizmente já vi a casa de muita gente cair. Aprendi que na hora da crise, do desmascaramento, do flagrante ou da denúncia, quando o pecado é revelado e os esqueletos do armário passam a desfilar na calçada, as pessoas se revelam de fato. Algumas poucas bem aventuradas escolhem o caminho da confissão sem justificativas, racionalizações ou transferências de responsabilidades, e simplesmente exclamam “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”. E depois se entregam a atitudes como pedir perdão, promover reparações e restituições, se humilhar em silêncio diante das vítimas que agridem em revolta vingativa, buscar conselheiros sábios, se submeter à disciplina dos justos (antes de reagir leia o Salmo 141.5), não apressar o tempo de sua própria restauração, vestir saco e cinzas, e calar todas as reivindicações de eventuais direitos que julga possuir. Tudo isso, evidente e muito provavelmentemente, regado a muitas lágrimas e noites em claro. Os anos me ensinaram que quando a casa cai, o caminho mais curto e o prazo mais breve da restauração implica seguir o conselho do apóstolo (1Pedro 5.6 – AMensagem): “Contentem-se com o que são (digo, admitam o que são) e não empinem o nariz. A mão de Deus é forte e está sobre vocês. Ele os exaltará no tempo certo. Vivam sem preocupação na presença de Deus: ele toma conta de vocês”. Compartilhe:
04 Sep
No jardim do lado oriental do Édem estava Adão, o primeiro homem. Diante dele, duas árvores. A árvore do conhecimento do bem e do mal, e a árvore da vida. A primeira é proibida. A respeito da segunda quase nada se diz, exceto a informação de que está lá, e confere a imortalidade. As existência das duas árvores traz a informação óbvia de que Adão não estava diante do bem e do mal, isto é, sua escolha não era moral. Adão estava diante da escolha entre a morte e a vida, o que significa que seu dilema era ontológico. O dilema ontológico diz respeito ao ser, tanto a natureza quanto a realidade que sustenta tal natureza. Deus é o único auto-existente. É o único que pode pronunciar a respeito de si mesmo Eu Sou O Que Sou – o nome impronunciável. Todos os demais seres recebem sua existência de Deus. Ninguém é o que é. Apenas Deus. Quando Adão decide comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, já avisado que isso resultaria em morte, faz uma opção suicida. A árvore do conhecimento do bem e do mal é a figura que o narrador bíblico utiliza para apontar o ato humano de reivindicar autonomia em relação ao Criador. Adão pretende tomar nas mãos a prerrogativa de definir os limites de sua existência, como se tivesse condições de sustentar-se a si mesmo fora dos limites estabelecidos por Deus. O que a teologia chama de pecado original, comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, não é outra coisa senão uma escolha ontológica. Apenas uma leitura muito superficial e desatenta do Gênesis, bem como um entendimento que desconsidere a alteridade de Deus em relação ao universo e ao ser humano, concluiria que o chamado pecado original é uma questão moral. Deus é de outra ordem – o totalmente Outro, não pode ser atingido pela ofensa moral humana. Tomás de Aquino diz que o pecado de orgulho, que ele chama de vanglória, é o pecado que dá origem a todos os outros pecados. Vanglória é a glória do que é vão: a glória do que não tem substância, é falso; não tem consistência, é efêmero; não tem essência, não se sustenta e não é capaz de realizar por si somente o fim a que se propõe. A pretensão de existir por si mesmo, à parte de Deus, implica a morte, pois nada existe “fora de Deus”. O ato criador de Deus equivale ao chamado daquilo que não é, daquilo que não existe, aquilo que é não-existência, para que venha a ser. Deus chama à existência as coisas que não são como se já fossem. E tudo quanto existe, subsiste sustentado por Deus, pois nEle somos, nos movemos e existimos, e dEle, por Ele e para Ele são todas as coisas. Jesus é apresentado na Bíblia Sagrada como o último Adão. Também esteve diante da serpente. Não no paraíso do lado oriental do Édem, mas no deserto, onde se encontra o primeiro Adão após sua rebelião, pois fora expulso do paraíso. Diferentemente de Adão, o primeiro homem, Jesus escolhe a submissão e a rendição a Deus. Ao afirmar “o Espírito do Senhor está sobre mim”, Jesus não apenas deixa claro que não pretende viver em autonomia em relação a Deus, como também estabelece um novo padrão para a existência humana. Por essa razão Jesus é também apresentado na Bíblia Sagrada como o segundo homem. Jesus é o Adão que comeu da árvore da vida. E deu origem ao segundo homem. Compartilhe: