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O ANIMAL MORAL

É o momento mais religioso do ano. Pode-se ver em qualquer cidade nos Estados Unidos ou na Inglaterra o céu iluminado por símbolos religiosos, decorações de Natal, e provavelmente também uma menorah gigante. A religião no Ocidente parece estar viva e bem. Mas é isso mesmo? Ou estes símbolos foram esvaziados de conteúdo, e tornaram-se nada mais do que um pano de fundo brilhante para a mais nova fé do Ocidente, o consumismo, sendo suas catedrais seculares os shoppings? À primeira vista, a religião parece estar em declínio. Na Grã-Bretanha, acaba de ser publicado os resultados do censo nacional de 2011. Mostram que um quarto da população afirma não ter religião, quase o dobro de uma décad a atrás. E, embora os Estados Unidos continue sendo o país mais religioso do Ocidente, 20 por cento declaram-se sem filiação religiosa – o dobro do número de uma geração atrás. Porém, olhando sob outra perspectiva, os números contam uma história diferente. Desde o século 18, muitos intelectuais ocidentais previram o fim iminente da religião. No entanto, e mais recentemente, após uma série de ataques devastadores pelos novos ateus, incluindo Sam Harris, Richard Dawkins e o finado Christopher Hitchens, ainda na Grã-Bretanha três em cada quatro pessoas, e na América quatro em cada cinco, declaram lealdade a uma fé religiosa. O que, em uma era de ciência, é verdadeiramente surpreendente. A ironia é que muitos dos novos ateus são seguidores de Charles Darwin. Nós somos o que somos, dizem eles, porque nos permitiram sobreviver e transmitir nossos genes para a próxima geração. A nossa composição biológica e cultural constitui a nossa “aptidão adaptativa.” No entanto, a maior sobrevivente de todas elas é a religião. As superpotências tendem a durar séculos, porém as grandes religiões perduram por milênios. A questão é por quê? O próprio Darwin sugeriu qual seria a resposta correta. Ele estava intrigado com um fenômeno que parecia contradizer a sua tese mais básica, que a seleção natural deveria favorecer os mais aptos. Altruístas, que arriscam suas vidas em beneficio de outros, deveriam, portanto, geralmente morrer antes de passarem seus genes para a próxima geração. No entanto, todas as sociedades valorizam o altruísmo, e algo semelhante pode ser encontrado entre os animais sociais, como os c himpanzés, golfinhos e formigas. Os neurocientistas têm mostrado como isso funciona. Temos os neurônios-espelho que nos fazem sentir dor quando vemos outros sofrendo. Estamos programados para sentir empatia. Somos animais morais. As implicações precisas desta resposta de Darwin ainda estão sendo debatidas pelos seus discípulos – E. O. Wilson de Harvard, por um lado e Richard Dawkins de Oxford por outro. Para colocar em uma forma mais simples, transmitimos nossos genes como indivíduos, mas sobrevivemos como membros de grupos, e os grupos só podem existir quando os indivíduos não agem somente em benefício próprio, mas para o bem do grupo como um todo. Nossa única vantagem é que formamos grupos maiores e mais complexos do que qualquer outra forma de vida. Como resultado é que temos dois padrões de reação no cérebro, um foca os perigos potenciais para nós, como indivíduos, e o outro, localizado no córtex pré-frontal, tem uma visão mais ponderada das conseqüências de nosso s atos, para nós e para os outros. A primeira é imediata, instintiva e emotiva. A segunda é reflexiva e racional. Estamos presos, na frase do psicólogo Daniel Kahneman, entre o pensar rápido e o lento. O caminho rápido nos ajuda a sobreviver, mas também pode nos conduzir para atos que são impulsivos e destrutivos. O mais lento conduz a um comportamento mais ponderado, mas muitas vezes é sobrepujado pelo calor do momento. Nós somos pecadores e santos, egoístas e altruístas, exatamente como os profetas e filósofos têm afirmado por muito tempo. Se assim é, então estamos em condições de compreender porque a religião nos ajudou a sobreviver no passado – e porque vamos precisar dela no futuro. Ela fortalece e acelera o caminho lento. Ela reconfigura os nossos caminhos neurais, transformando o altruísmo em instinto, através dos rituais que realizamos, os textos que lemos e as orações que fazemos. Continua a ser o mais poderoso construtor de comunidades que o mundo já conheceu. A religião une os indivíduos em grupos através de hábitos de altruísmo, a criação de relações de confiança fortes o suficiente para derrotar as emoções destrutivas. Longe de negar a religião, os neodarwinistas têm nos ajudado a entender por que isso é importante. Ninguém mostrou isso de forma mais elegante do que o cientista político Robert D. Putnam. Na década de 1990 ele tornou-se famoso pela frase “Bowling Alone (Jogando Boliche Sozinho, em tradução livre)”: mais pessoas estão jogando boliche, mas menos formam equipes de boliche. O individualismo foi destruindo lentamente a nossa capacidade de formar grupos. Uma década mais tarde, em seu livro “Am erican Grace”, ele mostrou que havia um lugar onde o capital social ainda podia ser encontrado: nas comunidades religiosas. A pesquisa do Sr. Putnam mostrou que os que iam a igrejas ou sinagogas frequentemente eram mais propensos a dar dinheiro para a caridade, fazerem trabalho voluntário, ajudar os desabrigados, doarem sangue, ajudarem um vizinho, fazer companhia para alguém que estivesesse se sentindo deprimido, oferecer o seu lugar para um desconhecido ou ajudar alguém a encontrar um emprego. A religiosidade, medida através da frequencia à igreja ou sinagoga, ele verificou, era um preditor melhor do altruísmo do que a educação, idade, renda, sexo ou raça. A religião é o melhor antídoto para o individualismo nesta era do consumismo. A idéia de que a sociedade poderia viver sem ela é negada pela história e, agora, pela biologia evolutiva. Isso pode mostrar que D ’us tem senso de humor. Certamente mostra que as sociedades livres ocidententais não devem nunca perder o significado de D’us. __________________________________________________________ Jonathan Sacks é rabino-chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Comunidade Britanica. [Publicado originalmente: New York Times, 24 de dezembro de 2012, The Moral Animal] (Tradução J. Christof) Compartilhe:

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A Res é Pública, mas a Cosa é Nostra

A mistura entre religião e política é nitroglicerina pura. Quem mexe na coisa com displicência ou de maneira inadequada corre riscos de ver a mistura explodir causando danos não raras vezes irreparáveis. Pois essa nitroglicerina entrou de vez, e pela porta dos fundos, diga-se de passagem, no cenário eleitoral da cidade de São Paulo. O noticiário informa que José Serra, candidato do PSDB, recebeu o apoio da Igreja Mundial do Poder de Deus, do apóstolo Valdemiro Santiago. A Igreja Universal do Reino de Deus, com ligações estreitas com o PRB, apóia seu candidato, Celso Russomano. O mesmo fazem as Igrejas Assembleia de Deus (Ministério Santo Amaro) e a Igreja Renascer em Cristo. As igrejas Sara a Nossa Terra, setores dos carismáticos católicos e segmentos dos fiéis dos padres Marcelo Rossi e Fábio de Mello apóiam o candidato do PMDB, Gabriel Chalita. Notícias de bastidores do mundo gospel divulgadas também pela imprensa paulistana revelam que a coordenação inter-religiosa da campanha de Fernando Haddad teria alinhavado acordo para apresentar o candidato do PT em estande na próxima edição da ExpoCristã, evento evangélico que promove outra mistura letal: religião e negócios. Os apoios dos religiosos não ocupam apenas as páginas dos jornais e as mídias virtuais. Estão presentes também nos púlpitos das igrejas, notadamente aquelas caracterizadas por lideranças de pendor autoritário – não admitem questionamento e muito menos contestação – no modelo clericalista tipo “a igreja é minha”. Pastores, bispos e apóstolos “abençoam” publicamente seus respectivos candidatos, com direito a orações, discursos e defesas em nome da fé e de Deus. As fronteiras entre templos e praças públicas, púlpitos e palanques, fiéis e eleitorado, guias espirituais e cabos eleitorais foram absolutamente devas sadas. As comunidades de fé são transformadas em currais eleitorais e o antigo “voto de cabresto” foi substituído por algo mais sofisticado, o “voto de cajado”, numa referência ao abuso da autoridade pastoral sobre seus rebanhos. Não faltam vozes condenando tais alianças entre igrejas e candidatos e partidos políticos. Mas, por que razão a prática é considerada inadmissível? O que existe de errado em uma igreja apoiar a eleição de um candidato com quem poderá contar caso ele seja realmente eleito? Por que razão  o chamado “voto de cajado”, em que as lideranças religiosas manipulam seus rebanhos para a adesão massiva a um candidato é considerada inaceitável? Não basta dizer que “isso não é ético”. É preciso explicar porque. O voto é um direito e uma responsabilidade do cidadão. Sindicatos, agremiações culturais, ONGs, clubes esportivos, associações da sociedade civil e empresas – embora se organizem para apoiar seus representantes – não votam. Igrejas também não votam. Não existe “voto coletivo”. Quem vota é o cidadão. “Os deveres cívicos não devem ser encarados como propriedade privada, mas como uma responsabilidade pública”. Esta é a opinião de Michael Sandel, autor do best seller Justiça, baseado em curso homônimo que atualmente ocupa a lista dos mais populares da Universidade de Harvard. “Terceirizar os deveres cívicos significa aviltá-los e tratá-los da maneira errada”, conclui. A noção de deveres cívicos como responsabilidade pública, defendida por Sandel, afeta o conceito de democracia republicana, que pode ser compreendida pelo menos de duas maneiras. A primeira é derivada do próprio entendimento da expressão: república, res pública, significa “a coisa pública”. A democracia, por sua vez, pode ser compreendida, mesmo com o risco do simplismo, o poder que em ana do povo, é exercido pelo povo, para o bem do povo. Em síntese, democracia republicana é o exercício de administrar a coisa pública de modo a atender os interesses coletivos. A segunda maneira de compreender a democracia está voltada para tensão das forças entre os diferentes grupos representativos da sociedade. Todos os segmentos da sociedade têm direito e liberdade de associação, expressão e mobilização para a busca dos seus próprios interesses. Em termos mais simples ainda, cada um puxa a brasa para a sua sardinha, e assim a brasa fica espalhada e igualmente dividida para todas as sardinhas. Na prática, isso é cruel. Primeiro, porque  quem não se expressa, não se associa e não se mobiliza, acaba ficando sem brasa para a sua sardinha. Mas também e principalmente porque aqueles que têm mais condições de expressão, associação e mobilização ficam com porções significativas de brasa em suas sardinhas. Quem detém os poderes econômicos, políticos e de comunicação de massa leva vantagem. Em outras palavras, como todos sabemos, sobra para os pobres, que, aliás, nem mesmo sardinhas têm. O melhor exercício da democracia é mesmo aquele em que cada cidadão está imbuído da busca dos interesses coletivos, independentemente de seus próprios interesses ou de seus grupos respectivos. Em termos ideais, os detentores do poder – em todas as instâncias – deveriam exercê-lo para o bem comum e a promoção da justiça na sociedade. Se a res é pública, todos os cidadãos deveriam dela se beneficiar. A expressão, associação e mobilização na defesa dos interesses particulares de pessoas ou grupos é uma traição aos ideais da democracia republicana. Quando a igreja se associa e se mobiliza ao redor de candidatos que atendem aos seus interesses, está fazendo o jogo totalitário: governar do meu jeito, de acordo com os meus interesses, aos quais todos devem se ajustar, sob pena de serem banidos do jogo.  O cristão, é, sim, chamado a viver dia a dia a prática de uma fé, que, por se manifestar sempre a favor da justiça, invariavelmente trará, como resultado de sua ação transformadora, conseqüências políticas. Respeitando as individualidades e rechaçando veementemente os maniqueísmos e as manipulações, a igreja é lugar privilegiado para a promoção de  uma nova consciência. Boa parte dos movimentos de transformação social surgiu de profundos compromissos espirituais e motivações religiosas. Desmond Tutu ensinou que “não há nada mais político do que dizer que religião e política não se misturam”. Quem se omite do processo político favorece o status quo e fica refém do poder dominante. Vale a reflexão. Até porque cristãos jamais deveriam se esquecer de que inegavelmente são também seguidores de um prisioneiro político. Quando a igreja extrapola seu papel social e assume a disposição de “voto coletivo”, rouba do cidadão sua prerrogativa de liberdade de consciência e opção ideológica e político partidária, bem como seu direito inalienável de votar livremente. Nenhum apoio institucional é vazio de interesses particulares. A igreja que apóia um candidato está explicitando sua expectativa de retribuição e recompensa. Em outras palavras, está colocando à venda aquilo que deveria estar fora da lógica de mercado, a saber, o voto e o mandato público. Essa perversão da democracia representativa, no entanto, é mais antiga que a Grécia. Todos os poderosos a praticam. Vergonhosa e infelizmente, não faltam líderes religiosos que participam do jogo com os mesmos critérios de injustiça e espírito totalitário dos outros atores, comprometidos apenas consigo mesmos e os grupos que sustentam seus privilégios. A comunidade da fé que deveria exercer na sociedade um papel profético e diaconal acaba sendo levada por lideranças pseudo espirituais, que abusam de sua autoridade, se vendem por trinta moedas, e vendem o justo por preço menor do que o dos passarinhos, como já acusou o profeta hebreu. Para esses líderes oportunistas e inescrupulosos, a res é pública, mas a cosa é nostra – com todas as implicações do trocadilho. Compartilhe:

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Delírio e mau caráter

Por Contardo Calligaris 1) CONTINUO pensando em Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, o canibal do agreste. Ele tem uma visão do mundo que justifica sua vida e seus atos. Com suas duas companheiras, ele era encarregado de uma missão divina: devia encontrar mulheres perdidas e purificá-las. Essa purificação passava pelo assassinato e pela ingestão da carne das escolhidas. A visão e a missão de Jorge eram delirantes, mas o que é um delírio? O senso comum e a psicopatologia concordam: delírio é uma convicção inquestionável, incorrigível e muito pouco plausível. Além disso, um delírio não é apenas um exercício de fantasia, ele preenche a função (crucial) de dar sentido à existência do indivíduo que delira. São poucas as pessoas saudáveis a ponto de conseguir viver sem se atormentar com a necessidade de resolver, como se diz, o enigma da vida. Ou seja, são poucas as pessoas para quem a experiência concreta se justifica por si só, pela alegria de viver. A maioria precisa recorrer a crenças que digam por que e para o que estamos aqui. Ora, as crenças que explicam nossa razão de estar no mundo são todas inverossímeis. Claro, a “missão” canibalesca de Jorge nos parece mais estranha do que a crença de um cristão, mas isso pouco tem a ver com a verossimilhança. Como dizer o que é mais provável, que o filho de Deus tenha sido crucificado para nos redimir ou que Deus nos encoraje a redimir os pecadores filtrando-os pela nossa digestão? No fundo, a grande diferença é que as ideias de Jorge são só dele e de suas duas cúmplices, enquanto as ideias de um cristão são compartilhadas por 2 bilhões de pessoas. Por mais que seja pouco plausível, uma crença cessa de ser delírio quando ela se socializa. A definição de delírio (no “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”, DSM-IV) diz que uma pessoa não pode ser diagnosticada como delirante se sua crença é “normalmente aceita por outros membros da cultura ou da subcultura dessa pessoa” -“um artigo de fé religiosa” não pode ser um delírio. Síntese paradoxal: uma religião individual é um delírio, e um delírio coletivo deixa de ser delírio e se torna uma religião. É um pouco frustrante dispor só de critérios quantitativos para decidir o que é delirante. Mas talvez a capacidade de compartilhar uma crença com outros já seja o sinal de uma certa “normalidade”. 2) Jorge e suas companheiras são loucos e delirantes. Será que a loucura e o delírio dispensam qualquer juízo moral? Será que, moralmente, todo delírio se vale? Não estou convencido disso. Entendo que a urgência de dar sentido à vida leve alguém a escolher uma religião ou, se ele não conseguir, a elaborar um delírio próprio. Mas cada um é responsável pela qualidade da religião que escolhe ou do delírio que ele elabora. Comparemos religiões. Posso acreditar que Deus me reconhecerá como seu filho à condição que eu leve uma vida ilibada e, a cada noite, eu me açoite, no silêncio do meu quarto. Ou, então, posso acreditar que ele me reconhecerá como filho à condição que eu desmascare, prenda e execute os pecadores, mundo afora. Comparemos delírios. Posso acreditar que Deus quer que eu mude de sexo. Ou posso acreditar que Deus me encarregou de andar com pinças e bisturi no bolso, para mudar o sexo dos outros. Conclusão: uma religião ou um delírio segundo os quais os outros deveriam pagar para que MEU mundo faça sentido são, no mínimo, provas de mau caráter. 3) Dúvida diagnóstica. Os canibais do agreste chamaram a atenção da polícia quando usaram o cartão de crédito de uma das vítimas. Isso era também parte do “ritual de purificação”? Consideremos ainda uma frase do memorial de Jorge, descrevendo o fim da primeira das três vítimas: “Eu, Bel e Jéssica nos alimentamos com a carne do mal, como se fosse um ritual de purificação, e o resto eu enterro no nosso quintal, cada parte em um lugar diferente”. Em tese, um delírio diria que aquilo ERA, sem sombra de dúvida, o ritual de purificação -nada de “como se fosse”. Se o tribunal me consultasse como perito, talvez eu alegasse o estelionato e essa frase para afirmar que Jorge não é um louco, mas um perverso, que manipulou duas abobadas e deixou alguns escritos, tudo com a intenção de urdir crimes sinistros e de ser reconhecido (e assim “desculpado”) como louco. [Fonte: Folha de S.Paulo, 26 de abril de 2012, Ilustrada] Compartilhe:

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A modernidade e as amplas prateleiras do mercado religioso

O aspecto mais relevante do novo cenário religioso no Brasil revelado pelas pesquisas recentes é o surgimento de uma nova personagem: o religioso não institucionalizado, que busca uma experiência de espiritualidade não tutelada pelas hierarquias das religiões formalmente organizadas em termos de dogmas, rituais e códigos morais. Vivemos os dias da religião sob medida, montada por consciências individuais que misturam os ingredientes disponíveis nas prateleiras do mercado religioso. O sociólogo Otto Maduro define religião como “conjunto de discursos e práticas referentes a seres superiores e anteriores ao ambiente natural e social, com os quais os fiéis desenvolvem uma relação de dependência e obrigação”. As ciências da religião sugerem que as religiões se estruturam com base em dogmas, rituais e tabus, isto é, crenças adotadas como verdades inquestionáveis, celebrações litúrgicas em homenagem e devoção às divindades, e regras de comportamente moral que acarretam benesses ou maldições. A modernidade não conseguiu acabar com a relação de dependência e obrigações, pois o ser humano é essencilamente assustado com a ideia da morte, atormentado pela sua finitude, encurvado pelo peso de uma culpa ancestral, apovarado ante o mistério da imensidão do Cosmos, e perdido em termos de sentido para a existência. Por essa razão, buscará sempre seus deuses, fabricará seus ídolos e se curvará diante disso que Rudolf Otto chamou de mysterium tremendum, a que damos o nome de Deus. Mas a modernidade destruiu, sim, a religião como sistema de dogmas, rituais e tabus. O conceito de modernidade nos remete à segunda metade do século XVIII, com a revolução industrial – capitalismo, ciência e técnica, urbanismo, desenvolvimento ilimitado, e a revolução democrática sensível aos direitos humanos, e principalmente ao conceito de indivíduo e ao descobrimento da subjetividade, que afirma a consciência individual acima de qualquer autoridade, e liberta o indivíduo de sua dependência das instituições sociais, inclusive e principalmente religiosas. Este ideário moderno exige dois outros aspectos da individualidade: a autonomia e a racionalidade. Autonomia – a lei em si mesmo, fala da capacidade do indivíduo agir movido e orientado por sua própria consciência, assumindo, portanto, a responsabilidade pelos seus atos. Implica todo poder normativo subordinado à consciência individual, e conseqüentemente a rejeição de todo poder arbitrário e dogmático, quer seja ele representado por um Estado ou governo, uma ideologia ou religião, ou mesmo uma divindade ou em última instância Deus. O princípio cartesiano “penso, logo existo” explica o Iluminismo como esclarecimento racional, em oposição ao dogmatismo fundamentalista e obscurantista. O resultado desse processo é que a modernidade, apesar de avanços significativos – o pluralismo ideológico, a abrangência da educação, a superação da superstição e a emancipação da ciência, também significou racionalismo, individualismo, humanismo, e secularismo – a religião fora do espaço público e o universo vazio do divino e do sagrado. A modernidade deu origem a “ismos” tão opressivos e escravizadores das consciências e das massas quanto os “ismos” religiosos contra os quais se levantou. A verdade é que os avanços da ciência, da técnica e da razão, que em tese deveriam construir um mundo melhor, promover a justiça e a paz, e apontar caminhos para a felicidade e a realização existencial do ser humano, de fato fizeram água. O saldo da modernidade é o rompimento com as instituições sociais religiosas e o abandono da pessoa humana à sua própria consciência e à mercê de sua liberdade. Mas ainda carregando no peito as mesmas questões que afligiam nossos antepassados. O vazio do universo implicou também um vazio de sentido (niilismo) e um vazio de critérios morais para ordenação da vida. Essa é uma das compreensões possíveis à denúncia de Fiódor Dostoiévski: “Se Deus não existe tudo é permitido”. Eis porque a experiência religiosa tutelada pelas religiões institucionalizadas se esvaziou, mas a busca pelas dimensões da espiritualidade cresce a olhos vistos. O rebote da modernidade é a chamada pós modernidade – ou hiper-modernidade, alta modernidade, modernidade tardia, modernidade radicalizada, modernidade líquida, seja lá como quiser chamar. O tempo se encarregou de desmascarar as pretensões da razão humana e fez as vezes dos profetas e sábios místicos que sempre insistiram em afirmar que a realidade é distante e profunda, e que o universo esconde mais mistérios do que é capaz de descernir a “vã filosofia”. O mundo atual se explica mais pelo recrudescimento dos fundamentalismos religiosos do que pela ausência de religião. Em resposta ao relativismo e ao niilismo moderno, a religião ressurge na pós modernidade com uma força avassaladora. Ainda que afetados por interesses geopolíticos e econômicos, o conflito entre Ocidente e Oriente não pode ser entendido nem terá solução sem uma clara comprensão das forças e implicações do embate entre o Cristianismo e o Islamismo como matrizes de sentido para as civilizações que sustentam. Alguns dos mais relevantes debates contemporâneos, quer sejam científicos, éticos, políticos ou econômicos são travados na arena religiosa: criacionismo versus evolucionismo como teoria a ser ensinada nas escolas, o aborto como questão moral ou de saúde pública, e os direitos civis dos homossexuais e as controvérsias ao redor das leis contra a homofobia, são exemplos recentes de conflitos entre os que acreditam na prosperidade social atrelada ao retorno aos valores religiosos da tradição judaico-cristã contra aqueles que defendem um estado laico e secular. Assim como em muitos de seus intentos, a modernidade fracassou também em acabar com a religião. A racionalidade científica e o secularismo obviamente não conseguiram provar que Deus não existe, pois Deus não é variável epistemológica, isto é, Deus não é passível de verificação em testes de laboratório. Mas a modernidade conseguiu ainda que temporariamente desferir um duro golpe nos representantes de Deus, notadamente as instituições religiosas e seu clero. A experiência religiosa já não se resume à obediência cega aos dogmas e à hierarquia institucional. A sociedade moderna não abandonou Deus, mas colocou seus intérpretes e seus representantes coletivos sub judice. Deixou de lado as tradições e seus necessários hábitos, costumes e crenças. E partiu para uma viagem pessoal e particular rumo à religião privatizada e a uma experiência de fé à la carte. As massas decepcionadas com a modernidade e suas promessas voltam a correr para as categorias do sagrado, do transcendente, e do divino. Nos países do chamado terceiro mundo a religião nunca saiu de moda. Conceitos como modernidade e pós modernidade passam longe dos dilemas de quem vive na pobreza e na miséria extrema. Os resultados das últimas pesquisas a respeito do cenário religioso no Brasil indicam que com sua mensagem que enfatiza o poder do Espírito Santo e a interferência de Deus no cotidiano das pessoas, as igrejas evangélicas crescem sem parar. Motivados pela busca de solução para seus problemas pessoais e dificuldades de inserção na sociedade, as massas se convertem à esperança prometida pela religião. As pessoas trocam de religião ou de credo em virtude de questões como desemprego, doenças na família, problemas conjugais, perdas significativas e sofrimento intenso, e também e principalmente a solidão e a necessidade de sentido existencial. Quem não tem para onde correr, corre para Deus. Os que sabem disso e não têm escrúpulos em se aproveitar da fragilidade de quem sofre são protagonistas de um processo nefasto que mantém acesa a fogueira da religião entendida no pior de seus sentidos. O atual retrato da fé permite a afirmação de que, se é verdade que as instituições religiosas estão abaladas, Deus continua vivo como sempre, e adorado – ou idolatrado – como nunca. [Publicado originalmente no jornal Valor Econômico, 14 de outubro de 2011] Compartilhe:

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TALMIDIM 208: Religião

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Espiritualidade e religião

Espiritualidade é a experiência humana do sagrado, transcendente, divino. Religião é a maneira como o ser humano organiza e vivencia sua experiência de transcendência. Espiritualidade é uma experiência humana universal. Religião é uma experiência humana condicionada a dogmas, ritos, códigos morais e grupos de pessoas que acreditam nas mesmas coisas e celebram sua espiritualidade da mesma maneira. As religiões mais conhecidas no mundo são Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo e Budismo. A espiritualidade é o que os seres humanos têm em comum. Por exemplo, tanto o Dalai Lama quanto o Papa Bento XVI embora adotem religiões diferentes, um é budista, o outro é cristão, têm em comum a espiritualidade. Em termos simples, assim como o ser humano tem corporeidade (relação com o corpo) e racionalidade (relação com a mente), também tem espiritualidade (relação com as realidades espirituais). Religião é maneira como cada ser humano desenvolve e pratica sua espiritualidade. Espiritualidade tem a ver com os atributos do espírito humano: razão, emoção, volição, consciência e auto-consciência. Religião está relacionada ao mundo dos espíritos, supra humanos ou sobrenaturais. Espiritualidade é aquilo referente às virtudes do espírito: amor, compaixão, solidariedade, generosidade, perdão e justiça. Religião trata mais das regulações morais, objetivas: pode, não pode, em detrimento das virtudes subjetivas. Dentro de cada religião existe um número variado de maneiras de vivenciar a espiritualidade. Por exemplo, no Cristianismo a espiritualidade pode ser vivida de uma forma Católica Romana e outra Protestante, e mesmo dentro do catolicismo e do protestantismo, existem ramificações variadas: uma coisa é a Canção Nova, outra as Ciomunidades Eclesiais de Base, um é o catolicismo carismático, outro o catolicismo da teologia da libertação. No protestantismo também, um é o cristianismo de Santo Agostinho, Tomás de Aquino e dos célebres reformadores Martinho Lutero e João Calvino, outro o cristianismo do pentecostalismo e do neo-pentecostalismo. Observe também a variedade do judaísmo. Há o judaísmo ortodoxo rabínico, com seu foco na tradição da Torah, do Tanakh e do Talmud, e o judaísmo hassídico, com sua ênfase na mística, além da versão cabalista e das diferenciações resultantes da territorialidade: os sefardistas, da Península Ibérica, e os asquenazes, da Europa Central e Oriental. O mesmo acontece com o Islamismo, com seus ramos sunita, hegemônico e mais tradicional, os xiitas, a minoria radical considerada dissidente, e a versão mística do sufismo, que alguns muçulmanos nem mesmo consideram identificada como Islã. O budismo possui também sua variedade, considerando aspectos doutrinais e populares e suas principais versões: indiana e tibetana. Embora seja considerada uma filosofia não teísta, que o teólogo alemão Karl Barth considerava “uma religião sem Deus”, o chamado budismo popular possui características mágicas de culto a divindades diversas. Assim como o Hinduísmo, que não tem um sistema unificado de crenças codificado numa declaração de fé ou um credo, e engloba a pluralidade de fenômenos religiosos relacionados às tradições vêdicas. O Hinduísmo costuma ser definido com mais frequência como uma tradição religiosa, a mais antiga e a mais diversa das religiões mundiais. As generalizações religiosas servem como categorias sociológicas e ajudam a compreender as diferentes tradições, mas dizem muito pouco a respeito da espiritualidade de seus praticantes. Categorias religiosas não são suficientes para conter a grande diversidade das relações humanas com o sagrado e o divino. Dizer qual é a sua religião sugere alguma coisa, mas não diz muito a respeito de sua espiritualidade. É mais fácil encontrar uma pessoa religiosa, do que um espírito livre e capaz de amar. Compartilhe:

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Religião e Espiritualidade

Espiritualidade é a experiência humana do sagrado, transcendente, divino. Religião é a maneira como o ser humano organiza e vivencia esta experiência. Espiritualidade é uma experiência humana universal. Religião é uma experiência humana condicionada a dogmas, ritos, códigos morais e grupos de pessoas que acreditam nas mesmas coisas e celebram sua espiritualidade da mesma maneira. As religiões mais conhecidas no mundo são Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo e Budismo. A espiritualidade é o que os seres humanos têm em comum. Por exemplo, tanto o Dalai Lama quanto o Papa Bento XVI têm uma espiritualidade, mas têm religiões diferentes. Um é budista e outro é cristão. Em termos simples, assim como o ser humano tem corporeidade (relação com o corpo) e racionalidade (relação com a mente), também tem espiritualidade (relação com as realidades espirituais). Religião é maneira como cada ser humano desenvolve e pratica sua espiritualidade. Espiritualidade tem a ver com os atributos do espírito humano: razão, emoção, volição, consciência e auto-consciência. Religião está relacionado ao mundo dos espíritos, geralmente supra humanos. Espiritualidade é aquilo referente às virtudes do espírito: amor, compaixão, solidariedade, generosidade, perdão e justiça. Religião trata mais das regulações morais, objetivas, em detrimento das virtudes subjetivas. Compartilhe:

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