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Mercado

Carros usados perdem até 21% do valor no semestre com avanço dos chineses

Preços negociados entre lojistas para veículos de até três anos caíram 9,3% de janeiro a junho, quase quatro vezes mais que a tabela Fipe; descontos de até R$ 55 mil em zero-km distorcem o mercado.

Capa do artigo Carros usados perdem até 21% do valor no semestre com avanço dos chineses
— Foto: Johann Moritz Rugendas / Wikimedia Commons (CC0)

Carros usados perdem até 21% do valor no semestre com avanço dos chineses; Corolla, T-Cross e HR-V lideram a queda

A chegada em massa de modelos chineses ao Brasil está provocando um efeito em cadeia que já chega ao bolso de quem comprou carro nos últimos três anos. Dados da plataforma Auto Avaliar mostram que os preços efetivamente negociados entre lojistas para veículos com até três anos de uso caíram 9,3% entre janeiro e junho de 2026 — uma queda quase quatro vezes maior que a indicada pela tabela Fipe, que recuou 2,4% no mesmo período. Alguns modelos registram desvalorização superior a 20%, segundo levantamento publicado pelo G1.

O movimento é a segunda etapa de um processo que começou nos carros novos. Em julho, estudo da Bright Consulting mostrou que, pela primeira vez em seis anos, o preço médio dos zero-quilômetro subiu menos que a inflação em 2026 — descontada a inflação, os carros novos ficaram 1,5% mais baratos neste ano. A pressão dos chineses forçou as montadoras tradicionais a cortar preços e ampliar promoções, e o seminovo, cuja referência de valor é o novo, foi arrastado junto.

Os modelos que mais perderam valor

A lista dos veículos com maior desvalorização no primeiro semestre é dominada por nomes que, até pouco tempo atrás, eram sinônimo de revenda garantida. O Toyota Corolla 2025 teve redução de 21,2%; o Volkswagen T-Cross 2025 caiu 20,9%; e o Honda HR-V 2025 recuou 20%. Volkswagen Nivus, Toyota Corolla Cross, Yaris e SW4 também estão entre os modelos que mais perderam valor no período.

O que esses carros têm em comum é o segmento: sedãs médios e SUVs compactos e médios de marcas japonesas e alemãs — exatamente a faixa de mercado em que os chineses concentraram sua ofensiva, com produtos equipados, eletrificados e vendidos com preço agressivo. As marcas tradicionais reagiram oferecendo reduções e condições comerciais mais agressivas para modelos como Hyundai Creta, Jeep Compass, Volkswagen T-Cross e Nivus.

Para , editor do portal, a lista é um retrato de mudança de era. "Corolla e HR-V eram os carros que o brasileiro comprava pensando em revender. A lógica era: paga mais caro agora, perde pouco depois. Essa lógica quebrou em seis meses. Quem comprou um Corolla 2025 em janeiro pagando preço cheio está hoje com um carro que vale um quinto a menos, e não por defeito do produto, mas porque o mercado inteiro se deslocou", avalia.

Descontos de até R$ 55 mil no zero-km

A pressão sobre os seminovos ocorre enquanto as montadoras ampliam as promoções dos carros novos para enfrentar os chineses. Entre maio e agosto, foram anunciados descontos, bônus e mudanças de preços de porte inédito: o Mitsubishi Outlander PHEV teve desconto de R$ 55 mil; o Suzuki e-Vitara, redução de R$ 50 mil; o Fiat Fastback Hybrid, corte de R$ 38,5 mil; e o BYD Song Pro, redução de R$ 28,5 mil — este último também motivado pela chegada do sucessor, o Song Pro Flex.

Descontos dessa magnitude em carros novos alteram instantaneamente a referência de preço de toda a cadeia. Geraldo Victorazzo, vice-presidente da Auto Avaliar, resume o mecanismo: "O carro não precisa sair da garagem para perder valor. Quando uma montadora reduz significativamente o preço do zero km ou lança uma condição agressiva de financiamento, ela cria imediatamente uma nova referência para o consumidor".

Quando o usado fica mais caro que o novo

O efeito das promoções fica evidente quando se comparam os valores efetivamente pagos por um carro novo e por um seminovo recente. A Auto Avaliar apresentou ao G1 uma simulação com o Jeep Compass Sport em que o cliente entrega na troca um veículo avaliado em R$ 88 mil. O preço de tabela do zero-km é R$ 174 mil, mas o preço na loja, com desconto, cai para R$ 147 mil. Restam R$ 59 mil a financiar, em 30 parcelas sem juros de R$ 1.966,67 — custo total de R$ 147 mil, sem considerar taxas.

A conclusão da simulação é contraintuitiva: o carro usado, apesar de ter preço anunciado mais baixo, acaba saindo R$ 30 mil mais caro do que o zero-km quando se consideram as condições e os descontos disponíveis para o novo. "Quando o consumidor percebe que consegue levar um zero quilômetro pagando menos ou com uma condição financeira muito melhor, o preço do seminovo precisa reagir. O problema é que a concessionária pode ter comprado aquele carro semanas antes, usando uma referência de mercado que já deixou de existir", explica Victorazzo.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o prejuízo está mudando de mãos. "O lojista que comprou o seminovo em maio pela referência de maio e vai vender em setembro pela referência de setembro está absorvendo a diferença. Isso não é sustentável. Ou o lojista repassa a perda para o consumidor na hora da troca, oferecendo menos pelo carro dele, ou vai quebrar. A conta do 'efeito China' chega no balcão da revenda antes de chegar em qualquer outro lugar", observa.

Vale notar que o fenômeno não poupa os próprios chineses. O desconto de R$ 28,5 mil no BYD Song Pro foi motivado, em parte, pela chegada de seu sucessor, o Song Pro Flex — o que mostra que, à medida que as marcas asiáticas renovam suas linhas em ritmo acelerado, seus modelos anteriores também passam a sofrer desvalorização rápida no mercado de usados. A pressão de preços é sistêmica, e não restrita às marcas tradicionais.

Tabela Fipe e preço real: um descolamento

Um dos achados mais relevantes do levantamento é a distância entre o preço de referência e o preço praticado. Entre junho de 2025 e junho de 2026, o preço médio nas transações de carros zero-quilômetro caiu 3,5%, enquanto o preço público — o de tabela — recuou apenas 1,5%. O preço efetivamente pago nas lojas caiu mais do que o dobro do que aparece nas referências tradicionais.

Para a Auto Avaliar, os números indicam que os descontos e as condições encontradas nas concessionárias antecipam movimentos que demoram mais para aparecer nas tabelas de referência. Na prática, isso significa que quem usa a Fipe como única bússola para comprar ou vender um carro pode estar trabalhando com um número defasado — pagando a mais ou aceitando menos do que o mercado real indica.

A plataforma tem base para essa afirmação: mais de 27 mil lojistas compram e vendem automóveis por meio dela, com mais de 6 mil concessionárias cadastradas, o que corresponde a 85% do segmento. São transações efetivas, não anúncios.

A demanda por chineses dispara

Enquanto os seminovos de marcas tradicionais perdem valor, o interesse dos brasileiros pelos carros chineses cresce em ritmo acelerado. Segundo o Data OLX Autos, a busca por veículos de marcas chinesas entre janeiro e julho de 2026 subiu 124% em comparação com o mesmo período de 2025. E o levantamento mostra onde está o coração dessa procura: 27% das buscas por carros chineses se concentram na faixa de R$ 100 mil a R$ 130 mil — o território tradicional dos SUVs compactos e sedãs médios das marcas estabelecidas.

O segmento de veículos da OLX no Brasil recebe a visita de 565 mil usuários por dia, e mais de 22 mil veículos novos são ofertados na plataforma diariamente, segundo a média de 2026. É uma amostra expressiva do comportamento de quem está efetivamente pesquisando para comprar.

O que fazer com um seminovo em 2026

Para o consumidor que tem um carro de até três anos e pensa em trocar, o cenário exige cálculo. A regra que valia até 2025 — vender o usado e financiar a diferença — precisa ser refeita com os preços reais de hoje, não com a tabela. Em muitos casos, como mostra a simulação da Auto Avaliar, o zero-km com desconto e financiamento sem juros pode custar menos do que manter o seminovo ou comprar outro usado.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o momento pede paciência de quem não precisa trocar. "Se o carro está bom e não há urgência, a pior coisa a fazer agora é vender. O mercado de usados está em queda livre por causa dos descontos no novo, e esses descontos não vão durar para sempre — as montadoras estão queimando margem para segurar participação. Quando a poeira baixar, o seminovo volta a ter referência estável. Quem vende hoje realiza o prejuízo no pior momento", analisa.

O mercado de usados, apesar da pressão sobre os preços, mantém grande volume de transações, segundo os dados da Auto Avaliar — o que indica que a queda é de valor, não de demanda. O brasileiro continua comprando carro usado; está apenas pagando menos por ele.

Fontes e referências

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