Stellantis convoca 7.282 veículos no Brasil em dois recalls
Campanha da RAM atinge 5.810 picapes 2021-2026 e integra recall global de 1,5 milhão; a da Jeep envolve 1.472 unidades por defeito elétrico na bomba de direção. Reparo é gratuito e leva 30 min.
Stellantis convoca 7.282 veículos no Brasil em dois recalls: RAM 1500 por falha nos cintos traseiros e Jeep Wrangler e Gladiator por risco de incêndio na direção
A Stellantis anunciou nesta semana dois recalls no Brasil que, somados, convocam 7.282 veículos de suas marcas RAM e Jeep. O maior deles atinge 5.810 unidades da picape RAM 1500, modelos 2021 a 2026, por possível falha na fixação dos cintos de segurança do banco traseiro. O segundo envolve 1.472 unidades do Jeep Wrangler e do Jeep Gladiator, por um defeito no circuito elétrico da bomba de direção que, em situações extremas, pode provocar princípio de incêndio. Nos dois casos, a inspeção e o eventual reparo são gratuitos e levam cerca de 30 minutos na rede de concessionárias. As informações são do G1.
A campanha da RAM 1500 é a versão brasileira de um recall global anunciado em julho, quando a agência Reuters noticiou que a Stellantis convocaria mais de 1,5 milhão de unidades da picape por problemas nos cintos — 1,27 milhão nos Estados Unidos, 156 mil no Canadá, 15 mil no México e cerca de 75 mil fora da América do Norte, todas fabricadas entre 2019 e 2026.
RAM 1500: o defeito nos cintos da segunda fileira
Segundo o comunicado da Stellantis, "foi identificada a possibilidade de falha na fixação dos cintos de segurança do banco traseiro, que pode, eventualmente, ocasionar a falta de retenção dos ocupantes do veículo em caso de frenagem brusca ou acidente, consequentemente, potencializando a ocorrência de danos materiais, físicos ou até mesmo fatais".
O defeito, o mesmo identificado nos Estados Unidos, está nos pontos de ancoragem dos cintos na segunda fileira de assentos — especificamente nas fivelas do cinto do meio e do cinto do passageiro que senta à esquerda, logo atrás do motorista. De acordo com o que a Reuters informou em julho, "o problema pode afetar o desempenho do sistema de cintos de segurança da segunda fileira de bancos e aumentar o risco de ferimentos aos ocupantes". A Stellantis tem conhecimento de um caso de lesão possivelmente relacionado ao defeito; não há registro de mortes.
A orientação aos proprietários das 5.810 picapes é entrar em contato com uma concessionária RAM e agendar a verificação. Se necessário, será feita a fixação correta dos cintos do banco traseiro.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a natureza do defeito merece atenção especial. "Cinto de segurança é o item que não pode falhar. A picape pode ter dez airbags e controle de estabilidade, mas se a fivela do banco de trás não segura o ocupante numa frenagem, tudo o mais é secundário. A RAM 1500 é comprada por famílias, e o banco traseiro é onde vão as crianças. Um recall de 30 minutos, gratuito, para isso, não é opcional — é urgente", avalia.
Jeep Wrangler e Gladiator: risco de incêndio
O segundo recall tem outra natureza. O chamado envolve 1.472 unidades do Wrangler e do Gladiator, motivado por falha identificada no circuito elétrico da bomba de direção eletro-hidráulica. Em situações extremas, segundo a marca, o defeito pode provocar um princípio de incêndio — o que, de acordo com o comunicado da Stellantis, traz riscos de danos materiais e lesões físicas aos ocupantes e a terceiros.
Para solucionar o problema, a montadora orienta os proprietários a agendar atendimento na rede Jeep. O procedimento consiste em verificação técnica do sistema e reparo do componente, com tempo estimado de aproximadamente 30 minutos.
A bomba de direção eletro-hidráulica é o componente que fornece assistência ao volante combinando um motor elétrico com sistema hidráulico. Uma falha no circuito elétrico que a alimenta pode gerar superaquecimento ou curto — daí o risco de incêndio, que é o tipo de defeito que as montadoras tratam com maior prioridade nas campanhas de recall.
Como funciona o recall no Brasil
No Brasil, o recall é regulado pelo Código de Defesa do Consumidor, que obriga o fornecedor a comunicar imediatamente às autoridades e aos consumidores qualquer defeito que represente risco à saúde ou à segurança, e a reparar o problema sem custo. A campanha é registrada na Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça, e divulgada nos canais oficiais e na imprensa; o consumidor também pode consultar se seu veículo está envolvido pelo número do chassi, nos sites das montadoras e no portal do governo federal.
Um ponto importante é que o recall não tem prazo de validade: o proprietário pode levar o veículo à concessionária a qualquer momento, mesmo anos depois do anúncio, e o reparo continua gratuito. Também não importa se o carro foi comprado usado — a obrigação da montadora é com o veículo, não com o primeiro dono.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o problema do recall no Brasil não é a regra, é a adesão. "A lei é boa, o reparo é grátis, leva meia hora. Mesmo assim, a taxa de atendimento de recalls no Brasil é historicamente baixa — muito carro convocado nunca aparece na concessionária. Parte é desinformação, parte é o dono que acha que 'situações extremas' não vão acontecer com ele. A Stellantis fez a parte dela ao anunciar. A parte do consumidor é aparecer", observa.
Um recall global, uma peça local
O caso da RAM 1500 ilustra como funcionam as campanhas de segurança de um fabricante global. O defeito nas fivelas foi identificado na América do Norte, onde a picape é um dos veículos mais vendidos do mercado, e a investigação levou à conclusão de que o mesmo componente equipa as unidades exportadas — incluindo as vendidas no Brasil desde 2021. Por isso a campanha brasileira abrange modelos 2021 a 2026, enquanto a americana vai de 2019 a 2026: a picape só passou a ser vendida oficialmente aqui a partir daquele ano.
As 5.810 unidades brasileiras representam uma fração pequena do total de 1,5 milhão, mas não uma fração menor em importância. A RAM 1500 é a picape full-size mais vendida do Brasil, com preço acima de R$ 400 mil, e seus proprietários tendem a rodar longas distâncias com a família a bordo.
O que fazer se o seu veículo está na lista
O primeiro passo é confirmar se a unidade está incluída na campanha. Isso se faz pelo número do chassi — impresso no documento do veículo e gravado na carroceria —, que pode ser consultado no site da marca ou no portal de recalls do governo federal. Nem toda RAM 1500 2021-2026 ou todo Wrangler e Gladiator estão necessariamente envolvidos: as campanhas listam lotes específicos de produção.
Confirmada a inclusão, o proprietário agenda a inspeção em qualquer concessionária da marca, sem necessidade de ser a que vendeu o carro. O serviço é gratuito, independentemente de o veículo estar dentro ou fora da garantia, e não exige que o dono apresente comprovante de compra. Nos dois recalls, a Stellantis estima 30 minutos para a inspeção e o eventual reparo — tempo que permite resolver a pendência em uma única visita.
Quem comprou o veículo usado tem o mesmo direito. E quem pretende vender deve providenciar o reparo antes: a existência de recall pendente pode ser verificada pelo comprador e é frequentemente usada como argumento de negociação.
Dois defeitos, duas urgências
Os recalls não são iguais em gravidade percebida. O da Jeep trata de risco de incêndio — categoria que, em qualquer país, recebe prioridade máxima porque o dano pode ocorrer com o veículo parado, na garagem, sem que ninguém esteja a bordo. O da RAM trata de retenção de ocupantes, cujo risco só se materializa em um acidente ou frenagem brusca, mas cuja consequência, quando ocorre, é diretamente ligada a lesões graves.
Na prática, ambos merecem o mesmo tratamento pelo proprietário: agendar o quanto antes. A diferença está na fiscalização — campanhas por risco de incêndio costumam ser acompanhadas de perto pela Senacon e pelos Procons, com cobrança de índices de atendimento à montadora.
Stellantis: quatro marcas, dois recalls na mesma semana
A Stellantis reúne no Brasil as marcas Fiat, Jeep, RAM, Peugeot, Citroën e outras, e é a maior montadora do país em vendas. Dois recalls simultâneos, de marcas diferentes e por defeitos distintos, não indicam um problema sistêmico — indicam, antes, o funcionamento normal dos processos de monitoramento de qualidade de um grupo com dezenas de modelos em produção.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a transparência é o ativo em jogo. "Recall bem comunicado fortalece a marca; recall escondido destrói. A Stellantis divulgou os dois com número de unidades, descrição do defeito, tempo de reparo e canal de atendimento. É o que se espera. O que não se pode aceitar é o dono de RAM 1500 descobrir o problema num acidente. Os 30 minutos na concessionária são o seguro mais barato que ele vai contratar este ano", analisa.
Proprietários de RAM 1500 (2021-2026), Jeep Wrangler e Jeep Gladiator podem verificar se seus veículos estão incluídos nas campanhas pelo número do chassi, nos sites das marcas ou pela central de atendimento da Stellantis, e agendar a inspeção em qualquer concessionária da rede.