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Argentinos recorrem a empréstimos de até 170% ao ano para sobreviver

Entregador que ganha 70 mil pesos por dia paga 140 mil para reaver a moto apreendida; crédito das fintechs cresceu 20 vezes, para 10 milhões de empréstimos.

Capa do artigo Argentinos recorrem a empréstimos de até 170% ao ano para sobreviver
— Foto: National Museum of American History / Wikimedia Commons (Public domain)

Argentinos recorrem a empréstimos em aplicativos com juros de até 170% ao ano para sobreviver à austeridade de Milei: inadimplência das famílias chega a 12,8%, maior desde 2010, e 6 milhões estão com atraso superior a 90 dias

Quando as autoridades de trânsito apreendem a motocicleta de um entregador em Buenos Aires, voltar ao trabalho pode depender de um empréstimo digital caro — e é assim que os trabalhadores autônomos da Argentina estão cada vez mais presos aos aplicativos dos quais dependem para viver. Albert Quintero, de 41 anos, ganha em média 70 mil pesos (R$ 234) por dia entregando refeições; recuperar uma moto apreendida custa cerca de 140 mil pesos (R$ 459) em multas e taxas, conta que muitos só pagam recorrendo a crédito de fintechs, inclusive das próprias plataformas de entrega. O PedidosYa oferece empréstimos a entregadores a uma taxa anual de 131%; a carteira digital Personal Pay cobra cerca de 170%. As informações são da Folha de S.Paulo.

À medida que as famílias enfrentam o aumento do custo de vida e a insegurança no emprego, os aplicativos financeiros viraram fonte relevante de crédito — e um retrato de como os argentinos lidam com a reforma econômica do presidente Javier Milei, cujas medidas de austeridade, como o corte de subsídios, apertaram orçamentos já pressionados. O setor de empréstimos de fintechs cresceu 20 vezes, chegando a 10 milhões de empréstimos individuais, contra 500 mil seis ou sete anos atrás, segundo Mariano Biocca, da Câmara Argentina de Fintechs.

Inadimplência recorde: 12,8%

Quase seis milhões de pessoas estão com atrasos superiores a 90 dias — cerca de um terço de todos os tomadores, segundo a Câmara de Fintechs. A proporção de empréstimos inadimplentes entre as famílias subiu para 12,8% em junho, o nível mais alto desde o início dos registros do Banco Central argentino, em 2010, e um salto em relação aos 2,8% de quando Milei assumiu, no fim de 2023. Um relatório da consultoria Analytica aponta que os jovens são os mais afetados.

Para , editor do portal, o dado inverte a narrativa do "milagre" argentino. "Milei derrubou a inflação e o mercado aplaude. O que a inadimplência de 12,8% mostra é o outro lado: a família que antes via a inflação corroer a dívida agora paga juro real de três dígitos, com salário que não acompanhou o custo de vida e subsídio de luz e transporte cortado. O ajuste foi pago pela classe média baixa e pelo trabalhador informal — e a conta chegou pelo aplicativo. Estabilidade macro com seis milhões de inadimplentes é estabilidade de planilha", avalia.

Da inflação ao juro real: a mudança de regime

Analistas descrevem uma transformação que vai além da economia. Por anos, a inflação galopante, as recessões e as crises da dívida soberana desestimularam o crédito — bancos não emprestavam, e quem devia via a inflação diluir a dívida. Com a desaceleração da inflação e a melhora da estabilidade, bancos e plataformas passaram a emprestar mais; ao mesmo tempo, a austeridade aumentou a demanda por crédito. O tomador acostumado a dever em moeda que derretia agora enfrenta taxas reais fortemente positivas — e o pagamento ficou muito mais caro. "Eles conseguem dinheiro fácil por meio de carteiras digitais, mas não percebem os juros que estão pagando", diz Enrique Tobani, que protestou em agosto diante do Ministério da Economia.

O entregador e a plataforma credora

O caso dos entregadores é o mais revelador: a plataforma que paga o trabalhador é também a que lhe empresta — com juro de 131% — o dinheiro para continuar trabalhando para ela. É um ciclo fechado: a moto apreendida, o empréstimo do app, as entregas para pagar o empréstimo, a próxima apreensão. "Há muitos que não têm dinheiro", resume Quintero, "e por isso acabam se endividando". Marcelo De Mattei, de 44 anos, que entrega para complementar a renda e ganha 19,6 mil pesos (R$ 66) por dia, explica por que não vai ao banco: "Eles exigem requisitos muito rigorosos". As fintechs, ao contrário, emprestam a quem não tem renda estável nem emprego formal.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o modelo tem nome no Brasil. "É o que o IBGE acabou de descrever aqui: trabalhador de aplicativo com renda estagnada, sem INSS, dependente de uma plataforma que define o preço. A Argentina foi um passo além — a plataforma virou banco do próprio entregador, a 131% ao ano. O Brasil tem as mesmas fintechs, os mesmos apps e a mesma informalidade. A diferença é que a Selic de 14% ainda é menor que o juro argentino, e o Bolsa Família segura a base. Mas o desenho é idêntico, e é para onde o crédito digital caminha se ninguém regular", observa.

O governo Milei: "questão entre privados"

O governo tem resistido aos apelos de sindicatos, consumidores e grupos de defesa por alívio da dívida com apoio do Estado. Caracteriza o aumento do endividamento das famílias como questão entre partes privadas e descreve a inadimplência como consequência temporária dos esforços para expandir o mercado de crédito privado — argumento coerente com a doutrina libertária de Milei, para quem o Estado não deve intervir em contratos. Bancos e fintechs, por sua vez, pedem redução de impostos sobre empréstimos, e a Abappra — associação de bancos públicos e privados — propôs em 28 de agosto flexibilizar as regras do Banco Central para classificar tomadores em atraso.

Devedores organizados: o protesto

No protesto em Buenos Aires, Oriana Fernández, do grupo "Devedores Organizados", descreveu o que os números escondem: "Vemos que as pessoas estão se endividando para cobrir suas necessidades básicas e despesas diárias". Não é crédito para consumo — é crédito para comida, remédio, transporte. "Cada vizinho, membro da família, trabalhador com quem você conversa, todos estão passando pela mesma situação", diz Tobani. A organização de devedores como movimento político é fenômeno novo na Argentina — e sinal de que a dívida das famílias virou questão social.

2027: o risco político

Com as preocupações com o emprego superando a inflação nas pesquisas, analistas avaliam que o endividamento pessoal pode virar problema para Milei antes das eleições de 2027. "Uma conta externa mais forte não lhe trará sucesso na campanha de 2027 se a dívida das famílias, o consumo fraco e o emprego precário continuarem definindo o cotidiano", afirmou Mariano Machado, da Verisk Maplecroft. O presidente venceu em 2023 com a promessa de acabar com a inflação; venceu a inflação; e agora enfrenta o que veio depois dela.

Milei: o ajuste em números

Desde dezembro de 2023, o governo Milei cortou subsídios a energia e transporte, congelou obras públicas, demitiu servidores, desvalorizou o peso e zerou o déficit fiscal — o "ajuste mais duro da história", nas palavras do presidente. A inflação, que superava 200% ao ano na posse, caiu a um dígito mensal e depois a patamares que a Argentina não via em décadas. O custo veio pelo lado real: queda do salário real nos primeiros meses, aumento da pobreza no início do mandato, recessão em 2024 e recuperação desigual em 2025 e 2026 — forte em energia, mineração e finanças, fraca no consumo das famílias. A inadimplência recorde é o retrato dessa recuperação de duas velocidades.

Fintechs: 20 vezes em sete anos

O crescimento do crédito digital de 500 mil para 10 milhões de empréstimos reflete a digitalização financeira argentina — carteiras como Mercado Pago, Ualá e Personal Pay alcançaram quem os bancos ignoravam — e o vácuo deixado pelo sistema bancário tradicional, que por décadas não emprestou a pessoas físicas. É inclusão financeira com juro de agiota: a fintech chega onde o banco não chega, mas cobra o preço do risco que o banco não aceita. Sem teto de juros e com cobrança automática na própria carteira, o inadimplente perde acesso ao dinheiro que entra — e recorre a outro aplicativo.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a Argentina mostra o que o Brasil deve evitar. "O Brasil tem teto de juros no consignado, tem o Desenrola, tem o Banco Central regulando fintech e limitando cobrança automática. A Argentina de Milei desregulou e deixou o mercado precificar o risco — o resultado é 170% ao ano para quem ganha R$ 66 por dia. Não é que o modelo argentino seja errado em tese; é que ele foi aplicado a uma população sem renda estável, sem rede de proteção e sem educação financeira. Seis milhões de inadimplentes é o preço da teoria. O Brasil, que discute regular o trabalho por aplicativo, deveria olhar para Buenos Aires antes de decidir que o mercado resolve", analisa.

O Banco Central da Argentina divulga mensalmente os índices de inadimplência das famílias. O governo Milei não anunciou medidas de alívio ao endividamento pessoal até a última atualização.

Fontes e referências

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