ONU aprova novo mapa-múndi que mostra a África em seu tamanho real; EUA foram o único voto contrário
Resolução liderada pelo Togo teve 164 votos a favor e substitui a projeção de Mercator, de 1569, que faz o continente africano parecer do tamanho da Groenlândia — embora seja 14 vezes maior.
A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou nesta sexta-feira (4) a substituição do mapa-múndi tradicional por um que represente com mais precisão a dimensão real da África. A resolução, liderada pelo Togo e apoiada pelos 54 membros da União Africana, foi aprovada com 164 votos favoráveis. Os Estados Unidos foram o único país a votar contra, e houve seis abstenções, segundo a BBC News Brasil.
A votação não é vinculativa — ou seja, não cria obrigação legal para os países-membros —, mas deve provocar mudanças nos mapas utilizados por instituições em todo o mundo, de organismos internacionais a escolas e editoras. O alvo da resolução é a projeção de Mercator, criada em 1569 e amplamente utilizada desde então, que mostra a África com tamanho semelhante ao da Groenlândia, embora o continente seja 14 vezes maior do que a ilha.
Um mapa feito para navegar, não para comparar
A projeção de Mercator foi desenvolvida pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator com um objetivo prático: ajudar os navegadores europeus do século 16 a traçar rotas em linha reta sobre o papel. Para isso, ela preserva os ângulos — o que é excelente para a navegação — ao custo de distorcer progressivamente as áreas à medida que se afasta da Linha do Equador.
O efeito é conhecido de qualquer pessoa que já olhou para um mapa escolar: os países próximos ao Equador parecem menores do que realmente são, enquanto os que ficam perto dos polos parecem maiores. A Groenlândia, a Rússia, o Canadá e a Europa ganham proporções exageradas; a África, a América do Sul, a Índia e o Sudeste Asiático encolhem. A distorção não é um erro de Mercator — é uma consequência matemática inevitável de representar a superfície de uma esfera em um plano. Todo mapa-múndi exige concessões; a questão é quais.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o problema nunca foi o mapa em si, e sim seu uso fora de contexto. "Mercator desenhou uma ferramenta de navegação e ela virou o retrato oficial do mundo por 450 anos. Ninguém decidiu que a África deveria parecer pequena, mas gerações inteiras cresceram enxergando o continente assim. A resolução da ONU não corrige a geometria, corrige o hábito", avalia.
Equal Earth: a alternativa escolhida
A alternativa que ganha impulso com a votação é o mapa Equal Earth, criado em 2018 por uma equipe de cartógrafos como uma projeção de áreas iguais — isto é, que preserva a proporção real entre os tamanhos dos continentes, ainda que às custas de alguma distorção nos formatos. Em fevereiro deste ano, os 54 Estados-membros da União Africana adotaram formalmente o Equal Earth, afirmando que ele "representa com mais precisão a dimensão de todos os continentes, em particular da África".
A mobilização ganhou visibilidade com a campanha online #CorrectTheMap ("Corrija o mapa"), cujo argumento central é visual e direto: "Você poderia encaixar os Estados Unidos, a China, a Índia, o Japão, o México e grande parte da Europa na África e ainda sobraria terra". A frase resume uma realidade geográfica que a projeção de Mercator torna quase impossível de perceber.
Antes da votação, o ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, sintetizou o espírito da proposta em declaração à agência Reuters: "Um mundo justo começa com um mapa justo". Ele teve o apoio público do ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, que anunciou que seu ministério deixaria de usar a projeção de Mercator. "Mudar o mapa obviamente não muda o mundo. Mas corrigir uma representação que o distorce já é um ato de verdade", afirmou o chanceler francês.
O voto contrário dos Estados Unidos
A posição americana foi a única dissonante entre os 171 países que participaram da votação. Yaryna Ferencevych, representante dos Estados Unidos na ONU, afirmou que a resolução ridicularizava o trabalho e o propósito da Assembleia Geral. "Em vez de se concentrar em problemas genuínos de paz internacional, prosperidade ou boas relações, este órgão está debatendo projetos cartográficos do século 16 e seu papel na promoção de reparações e 'justiça cognitiva'", disse ela.
O voto se alinha a uma postura recente da diplomacia americana em relação a resoluções de caráter simbólico ou histórico. Em março, os Estados Unidos também criticaram a adoção de uma resolução que declarou o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade". Em ambos os casos, a argumentação de Washington é a de que a Assembleia Geral deveria priorizar temas de segurança e economia em vez de debates sobre narrativa e reparação histórica.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o isolamento americano na votação é tão eloquente quanto a resolução. "Cento e sessenta e quatro países a favor, um contra. Não é uma divisão Norte-Sul nem Ocidente-resto do mundo — a França votou junto com o Togo. É um país sozinho dizendo que o assunto não importa, e o resto do planeta dizendo que importa. Independentemente de quem tem razão sobre a agenda da ONU, o placar mostra onde está o consenso", observa.
Por que um mapa é uma questão política
Para os defensores da mudança, a distorção cartográfica tem consequências que vão além da sala de aula. "A representação distorcida da África nos mapas mundiais não é apenas um erro cartográfico — é uma questão narrativa", disse à BBC Lerato Mogoatlhe, da Africa No Filter, um dos grupos por trás da campanha para abandonar a projeção de Mercator. O argumento é que um continente que parece pequeno é tratado como pequeno: em relevância política, em atenção econômica, em investimento.
O geógrafo queniano Kioko Muendo, também ouvido pela BBC, reforça a tese: para ele, o mapa de Mercator minimizou implicitamente os vastos recursos, a população e as oportunidades de investimento do continente africano. "Os mapas são mais do que simples guias para viajantes — eles moldam a forma como as regiões são percebidas política e economicamente", afirmou.
Os críticos da projeção tradicional sustentam que a subestimação visual leva à minimização das necessidades e do potencial dos países próximos à Linha do Equador — o que inclui, além da África, boa parte da América Latina e do Sudeste Asiático. A África, com mais de 1,4 bilhão de habitantes e a população mais jovem do mundo, é o exemplo mais evidente porque é onde a distorção de Mercator é mais dramática.
O que muda na prática
Como a resolução não tem força vinculante, a adoção do novo mapa dependerá de decisões individuais de governos, agências da ONU, editoras de material didático, empresas de tecnologia e veículos de imprensa. A França já anunciou que seu ministério das Relações Exteriores abandonará Mercator. A União Africana já adotou o Equal Earth em fevereiro. A tendência é que outros países e organismos sigam o mesmo caminho nos próximos meses, especialmente aqueles que votaram a favor.
No ambiente digital, a transição é tecnicamente mais complexa. Os principais serviços de mapas online utilizam variações da projeção de Mercator justamente porque ela preserva ângulos e facilita a navegação em telas — o mesmo motivo pelo qual foi criada há 457 anos. A resolução da ONU se dirige mais à representação do mundo como um todo, em mapas estáticos e material educativo, do que à cartografia de rotas.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o Brasil tem interesse direto no tema. "A América do Sul também é vítima de Mercator. O Brasil, que é maior do que a Europa continental inteira, parece menor do que a Groenlândia em qualquer mapa escolar. A resolução foi liderada pela África porque a distorção lá é mais brutal, mas a lógica vale para todo o Sul global. Adotar o Equal Earth no material didático brasileiro seria coerente com o voto do país na ONU", analisa.
A resolução aprovada nesta sexta-feira encerra, ao menos no plano diplomático, um debate que cartógrafos travam há mais de um século. A projeção de Mercator continuará existindo — e continuará útil para navegar. O que muda é o consenso sobre qual imagem do mundo deve ser a padrão quando o objetivo não é traçar uma rota, e sim compreender o tamanho real de cada parte do planeta.