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Governo de Giorgia Meloni torna-se o mais duradouro dos 80 anos da Itália republicana

"Ela sabe comandar a coalizão", diz o cientista político Gianfranco Pasquino; Tajani e Salvini, vice-premiês, têm papéis quase opostos.

Capa do artigo Governo de Giorgia Meloni torna-se o mais duradouro dos 80 anos da Itália republicana
— Foto: 内閣広報室 / Cabinet Public Affairs Office / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Governo de Giorgia Meloni torna-se o mais duradouro dos 80 anos da Itália republicana: coalizão de direita que venceu em 2022 completa 1.413 dias no poder e supera o segundo mandato de Berlusconi — nos 16 anos anteriores, o país teve nove governos e oito primeiros-ministros; festa em Bari com 10 mil apoiadores dá o tom da campanha para as eleições de 2027

O governo de Giorgia Meloni torna-se na sexta-feira (4 de setembro) o mais longo dos 80 anos da Itália republicana. Formado por uma coalizão de direita que saiu vitoriosa das eleições de 2022, o governo completa 1.413 dias no poder — fato excepcional para o país e, nos últimos anos, um diferencial em relação a outros Estados europeus. Para comemorar, o partido fundado por Meloni, Irmãos da Itália, prepara uma festa com ares de comício em Bari, no sul, com cerca de 10 mil apoiadores esperados, além de manifestações contrárias; o discurso da primeira-ministra será um indício do tom da campanha dos próximos meses. Os italianos votam em 2027, ainda sem data definida. As informações são da Folha.

Meloni costuma enaltecer a estabilidade política como uma das principais conquistas de sua gestão. Antes, o segundo governo de Silvio Berlusconi, entre 2001 e 2005, era o mais duradouro do pós-Segunda Guerra. Nos 16 anos que antecederam a vitória de Meloni, o país teve nove formações de governo, com oito primeiros-ministros diferentes; os italianos foram às urnas quatro vezes, e em três das quatro legislaturas o sistema se recompôs, após crises e disputas internas, em novas coalizões sem que os acordos passassem pelos eleitores — foi assim que surgiu o governo de Mario Draghi. Entre os fatores da estabilidade atual está o resultado de 2022: a coligação de Meloni, Matteo Salvini (Liga) e Berlusconi (Força Itália) recebeu 43% dos votos, a vitória mais nítida desde 2008. "Ela sabe comandar a coalizão. Conseguiu manter Liga e Força Itália juntos, com grande capacidade política e organizativa, combatendo impulsos mais extremistas", diz Gianfranco Pasquino, professor emérito de ciência política da Universidade de Bolonha. Desde a posse, Berlusconi morreu e foi substituído por Antonio Tajani no comando do Força Itália; Salvini tornou-se líder enfraquecido, inclusive dentro da Liga. Os dois vice-premiês têm papéis quase opostos: Tajani, de centro-direita, é o mais europeísta dos três; Salvini, de ultradireita, é contra o apoio à Ucrânia, na linha contrária a Meloni.

De outubro de 2022 a setembro de 2026: quem é Meloni

Primeira mulher a chefiar o governo italiano, Giorgia Meloni tomou posse em 22 de outubro de 2022 à frente do Irmãos da Itália — partido que fundou em 2012 a partir da tradição pós-fascista do Movimento Social Italiano e da Aliança Nacional, e que saltou de 4% em 2018 para 26% em 2022 —; chegou ao poder cercada de temores europeus sobre ruptura com Bruxelas e, na prática, governou como conservadora pragmática: manteve o apoio militar à Ucrânia, negociou com a Comissão Europeia os fundos de recuperação pós-pandemia, fechou acordo com a Albânia para processar migrantes fora do território italiano e cultivou relação próxima com Donald Trump sem romper com a União Europeia. A estabilidade que celebra não veio de ausência de crise — houve disputas com o Judiciário, protestos e escândalos ministeriais —, mas da disciplina de coalizão e da fraqueza da oposição de centro-esquerda, dividida entre o Partido Democrático de Elly Schlein e o Movimento 5 Estrelas.

Para , editor do portal, o recorde diz mais sobre a Itália do que sobre Meloni. "Um país que trocou de governo 68 vezes desde 1946, que teve Draghi sem eleição e Conte duas vezes com coalizões opostas, agora tem quatro anos com a mesma primeira-ministra. Não é milagre: é resultado eleitoral claro, coalizão em que o partido dela manda e oposição sem projeto. Meloni fez o que Berlusconi não conseguiu — durar sem se desgastar — porque governou ao centro depois de vencer pela direita. A festa em Bari é largada de campanha; a pergunta de 2027 é se os italianos preferem a estabilidade dela ou voltam ao hábito. As pesquisas dizem que preferem", avalia.

Berlusconi II: o recorde anterior

O segundo governo de Silvio Berlusconi durou de junho de 2001 a abril de 2005 — 1.412 dias —, sustentado por maioria folgada e pela liderança pessoal do magnata; caiu após derrota em eleições regionais e foi sucedido pelo terceiro governo Berlusconi, até 2006. Meloni o supera por um dia e, ao contrário dele, sem crise interna à vista.

Nove governos em 16 anos: a instabilidade que ficou para trás

Entre 2006 e 2022, a Itália teve Prodi, Berlusconi, Monti, Letta, Renzi, Gentiloni, Conte — duas vezes, com coalizões opostas — e Draghi; três desses governos nasceram de rearranjos parlamentares sem eleição, prática que alimentou a desconfiança do eleitor e o crescimento de partidos antissistema. É contra esse pano de fundo que a longevidade de Meloni se destaca.

43% em 2022: a vitória que sustenta o governo

A coligação de direita obteve maioria nas duas Casas do Parlamento com 43% dos votos, graças ao sistema misto que premia coligações; o Irmãos da Itália, com 26%, tornou-se o maior partido do país e deu a Meloni o comando inconteste da aliança — condição que Berlusconi e Salvini, em governos anteriores, nunca tiveram.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a chave está nos dois vices. "Tajani é europeísta, ex-presidente do Parlamento Europeu, ministro das Relações Exteriores; Salvini é o aliado de Putin que quer cortar a ajuda à Ucrânia. Meloni mantém os dois no governo e nenhum manda. É o método: dá a cada um um ministério, decide sozinha a política externa e deixa a Liga reclamar sem sair. Quando Salvini enfraqueceu dentro do próprio partido, a coalizão ficou ainda mais dela. A Europa que temia Meloni em 2022 hoje a trata como a líder mais estável do continente — Macron enfraquecido, Alemanha em coalizão difícil, Espanha em minoria. É ironia da história recente", observa.

Ucrânia, Europa e Trump: a política externa

Meloni manteve o envio de armas a Kiev e votou com a UE nas sanções à Rússia, apesar da oposição de Salvini; ao mesmo tempo, aproximou-se de Trump e posicionou-se como ponte entre Washington e Bruxelas. A posição lhe rendeu credibilidade internacional e críticas da ultradireita europeia mais alinhada a Moscou.

Migração: o acordo com a Albânia

O governo criou centros na Albânia para processar pedidos de asilo de migrantes resgatados no Mediterrâneo — modelo contestado em tribunais italianos e europeus e copiado em discurso por outros governos —; os desembarques caíram, e a política é a bandeira mais visível de Meloni para o eleitor conservador.

Economia: crescimento baixo e dívida alta

A Itália cresce pouco, tem dívida acima de 135% do PIB e depende dos fundos europeus de recuperação; Meloni evitou confrontos com Bruxelas sobre o orçamento e manteve o ministro da Economia, Giancarlo Giorgetti, da Liga, como garantia de continuidade. A estabilidade política ajudou a reduzir o custo da dívida.

Oposição: a esquerda dividida

O Partido Democrático, de Elly Schlein, e o Movimento 5 Estrelas, de Giuseppe Conte, disputam a liderança da oposição e não formaram aliança sólida; as pesquisas mantêm o Irmãos da Itália como maior partido e a coalizão de direita à frente para 2027.

2027: o que está em jogo

Meloni tenta a reeleição com o argumento da estabilidade e uma reforma constitucional para eleição direta do primeiro-ministro; a data do pleito não foi definida, mas a legislatura termina em 2027. Bari é o primeiro comício da campanha que se aproxima.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o caso italiano tem lição para o Brasil. "Meloni chegou ao poder com fama de extremista e governou como conservadora previsível — apoio à Ucrânia, acordo com a Europa, contas em ordem. Quatro anos depois, é a primeira-ministra mais duradoura da história republicana e favorita para 2027. A direita que dura é a que governa ao centro; a que grita, cai. Vale para a Itália e para quem, no Brasil, tenta chegar ao Planalto pela direita em outubro. Estabilidade não é discurso: é coalizão que não racha e adversário que não se organiza", analisa.

O governo de Giorgia Meloni completou 1.413 dias em 4 de setembro de 2026, tornando-se o mais longo da Itália republicana, segundo a Folha. O partido Irmãos da Itália organizou comemoração em Bari; as eleições gerais estão previstas para 2027.

Fontes e referências

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