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Conflitos

Alemanha caça sabotador de rede elétrica antes de eleição estadual

Suspeito de 48 anos enviou cartas à imprensa; polícia achou explosivos em sua casa. Ataques atingiram subestações perto de Colônia e Düsseldorf; artefatos foram achados na Saxônia.

Capa do artigo Alemanha caça sabotador de rede elétrica antes de eleição estadual
— Foto: David.Monniaux / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Alemanha caça homem que assumiu sabotagens à rede elétrica em nome do "extremismo climático" às vésperas de eleição estadual; Berlim também culpa Rússia por drone em aeroporto

A polícia alemã está à procura de um homem de 48 anos que enviou cartas a autoridades e veículos de imprensa assumindo a responsabilidade por uma série de sabotagens contra a rede elétrica do país nesta semana — depois de encontrar, nesta sexta-feira (4), o que pareciam ser explosivos em sua residência. Nas cartas, o suspeito afirmou que sua oposição aos combustíveis fósseis motivou os ataques, segundo Herbert Reul, ministro do Interior do estado da Renânia do Norte-Vestfália. O ministro federal do Interior, Alexander Dobrindt, disse que as evidências apontam para um caso de "extremismo climático". As informações são da Folha de S.Paulo.

O caso colocou a Alemanha no centro das preocupações europeias com a vulnerabilidade de infraestruturas críticas, às vésperas de uma eleição estadual muito aguardada no domingo (6), na qual o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera as pesquisas. Na mesma semana, Berlim responsabilizou formalmente a Rússia por um ataque com drone ao aeroporto de Leipzig/Halle, em agosto, classificado como parte de uma guerra híbrida contra os países que apoiam a Ucrânia. Moscou rejeitou as acusações.

Os ataques reivindicados

O suspeito assumiu a autoria de um ataque ocorrido na terça-feira contra uma subestação em Bergheim, perto de Colônia, que tirou de operação cinco unidades de geração de energia depois que um material condutor foi aparentemente lançado sobre a infraestrutura de alta tensão, provocando curto-circuito. A polícia encontrou nas proximidades vários dispositivos de lançamento.

A segunda tentativa reivindicada foi descoberta na noite de quinta-feira (3) em Dormagen, ao sul de Düsseldorf, quando um transeunte avistou tubos equipados com cabos e temporizadores apontados para uma subestação; dois dispositivos de lançamento foram achados na região. Segundo Reul, as cartas mencionavam outros alvos, entre eles uma subestação em Weisweiler, perto de Aachen, no oeste do país.

Para , editor do portal, o método é o que mais preocupa. "Não é ciberataque nem míssil. É alguém lançando material condutor sobre linhas de alta tensão com dispositivo caseiro e temporizador. Baixo custo, baixa tecnologia, alto efeito: cinco unidades de geração fora do ar em Bergheim. A rede elétrica de qualquer país — inclusive o Brasil — tem milhares de subestações a céu aberto, protegidas por cerca e câmera. Se um homem de 48 anos com cartas à imprensa consegue isso, o problema é estrutural", avalia.

Mais incidentes, autoria em aberto

Enquanto os ministros falavam, o jornal Bild informou que possíveis explosivos ou artefatos incendiários também foram encontrados em linhas de transmissão em duas subestações no distrito de Görlitz, na Saxônia, no leste do país, o que levou a uma operação policial em instalações ligadas à região de mineração de linhito e geração de energia da Lusácia. Em outro incidente da semana, dispositivos com material condutor danificaram linhas de transmissão em um dos pontos de conexão de alta tensão mais críticos de Brandemburgo. A polícia não descartou ligação entre esses casos e os que o homem reivindicou.

A dispersão geográfica dos incidentes — oeste, leste e nordeste do país, em estados diferentes, na mesma semana — é o que torna difícil atribuir tudo a um único autor agindo sozinho, e o que alimenta a hipótese de coordenação ou de imitação.

Reul admitiu que ainda há perguntas em aberto — inclusive se o homem procurado é de fato o autor e se agiu sozinho. As autoridades também não descartaram que os ataques tenham sido patrocinados por um Estado estrangeiro ou realizados por extremistas de esquerda.

Sabotagem, drones, ciberataques: "todos ao mesmo tempo"

"Estamos enfrentando atualmente uma série de ameaças e riscos diferentes ao mesmo tempo. Sabotagem, ataques cibernéticos, operações clandestinas, extremismo e terrorismo de Estado — estamos sob a ameaça de todos esses perigos simultaneamente", disse Dobrindt. Segundo ele, as ameaças e o número de ataques aumentaram e provavelmente continuarão crescendo, tanto no terrorismo de Estado quanto no extremismo. "É possível que esses dois fatores estejam interligados", afirmou.

O ministério já havia declarado que não era coincidência que "ataques híbridos" estivessem ocorrendo às vésperas da eleição de domingo. A leitura oficial é a de que a Alemanha, principal apoiador europeu da Ucrânia, é alvo prioritário de operações russas destinadas a intimidar, dividir e desestabilizar — e que atores internos, de qualquer matiz ideológico, podem ser instrumentalizados ou simplesmente aproveitar o clima.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a hipótese do "extremismo climático" merece cautela. "As cartas dizem que o motivo é oposição a combustível fóssil. Pode ser verdade. Mas o ministro federal fala em Estado estrangeiro, extremismo de esquerda e terrorismo de Estado na mesma frase — e a Alemanha acabou de acusar a Rússia por um drone. Quando um governo não sabe se o sabotador é ativista, agente ou os dois, o que ele sabe é que a rede está exposta. A autoria vai ser esclarecida; a vulnerabilidade já está demonstrada", observa.

A eleição de domingo e a AfD

O momento amplia o peso político dos ataques. A eleição estadual de domingo é acompanhada em toda a Europa porque a AfD, partido de extrema direita com posições pró-Rússia e contrárias ao apoio à Ucrânia, lidera as pesquisas. Incidentes de segurança às vésperas do voto alimentam narrativas dos dois lados: o governo de Friedrich Merz aponta para a ameaça híbrida russa e para a necessidade de firmeza; a oposição explora a sensação de insegurança e a percepção de que o Estado não protege a infraestrutura.

Um porta-voz do premiê Merz afirmou que o número de ataques frustrados ou malsucedidos era "um sinal de como nossas medidas de segurança funcionam — e de que elas de fato funcionam". A declaração tenta transformar as tentativas descobertas em Dormagen, Görlitz e Brandemburgo em prova de vigilância, e não de fragilidade.

Infraestrutura crítica: o alvo do século 21

Redes elétricas, gasodutos, cabos submarinos, ferrovias e aeroportos tornaram-se, desde a invasão da Ucrânia em 2022, os alvos preferenciais da chamada guerra híbrida na Europa — ações abaixo do limiar do conflito armado, de autoria negável, que causam dano econômico e psicológico. A explosão dos gasodutos Nord Stream, incidentes com cabos no Báltico, incêndios em depósitos e drones sobre bases e aeroportos compõem um padrão que os serviços de inteligência europeus atribuem, em grande parte, a Moscou e seus intermediários.

A novidade alemã desta semana é a combinação: um suposto ativista climático usando métodos de sabotagem física, em paralelo a incidentes que o governo liga à Rússia. Se as duas frentes forem independentes, a Alemanha enfrenta dois problemas; se estiverem conectadas, como Dobrindt sugere ser possível, enfrenta um problema muito maior.

Lições para além da Europa

O episódio interessa a qualquer país com rede elétrica extensa e pouco vigiada — o Brasil incluído, com seu sistema interligado de dezenas de milhares de quilômetros de linhas e subestações em áreas remotas. A resposta alemã — patrulhamento, câmeras, sensores, cooperação entre operadores e polícia — é cara e nunca completa. A alternativa, redundância na rede para que a perda de uma subestação não derrube uma região, é ainda mais cara. O que os ataques desta semana mostram é que o custo de não fazer nada também existe.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a Alemanha está pagando o preço da exposição. "País que apoia a Ucrânia, que tem eleição com a extrema direita na frente, que fechou usinas nucleares e depende de rede complexa — virou alvo de todo mundo que quer mandar recado. O sabotador climático, se for isso mesmo, é o sintoma mais estranho: alguém que ataca a rede elétrica para protestar contra combustível fóssil. Não faz sentido lógico, mas faz sentido político: caos é caos, e quem se beneficia dele não precisa ter causado", analisa.

A polícia da Renânia do Norte-Vestfália mantém a busca pelo suspeito e não divulgou seu nome. A eleição estadual acontece no domingo (6), com resultados esperados na mesma noite.

Fontes e referências

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