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Conflitos

EUA devolvem ao Líbano sarcófagos romanos recuperados pelo FBI

O comércio de antiguidades saqueadas é disseminado no Oriente Médio, e em 2017 três peças já haviam sido devolvidas ao Líbano; Tiro segue sob bombardeios, alerta a Unesco.

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— Foto: SajoR / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Estados Unidos devolvem ao Líbano fragmentos de sarcófagos romanos saqueados de Tiro e recuperados pelo FBI: peças decorativas de chumbo, encontradas em escavações ilegais e com características dos antigos ateliês da cidade fenícia, foram entregues ao consulado libanês em Nova York antes de serem repatriadas — o ministro da Cultura, Ghassan Salamé, lembrou que Tiro, "excepcionalmente rica em patrimônio arqueológico", sofreu graves danos nos ataques israelenses e entrou em julho na lista da Unesco de Patrimônio Mundial em Perigo

Os Estados Unidos anunciaram na quinta-feira (3 de setembro) a devolução ao Líbano de fragmentos de sarcófagos da época romana saqueados da cidade de Tiro e recuperados após investigação do FBI. As peças decorativas de chumbo foram entregues na quarta-feira ao consulado libanês em Nova York, antes de serem repatriadas, informou a embaixada americana. As informações são do G1.

Segundo o ministro da Cultura libanês, Ghassan Salamé, os fragmentos foram encontrados durante escavações ilegais e apresentam características típicas dos antigos ateliês de sarcófagos de Tiro. O comércio de antiguidades saqueadas é disseminado no Oriente Médio; em 2017, três peças antigas já haviam sido devolvidas ao Líbano. Salamé destacou que Tiro é uma região "excepcionalmente rica em patrimônio arqueológico" e sofreu graves danos durante os recentes ataques israelenses; em julho, a Unesco incluiu a cidade em sua lista de Patrimônio Mundial em Perigo.

Tiro, a cidade que inventou a púrpura e o alfabeto, entre saqueadores, bombas e o FBI

Tiro — Sour, em árabe — é uma das cidades habitadas mais antigas do mundo: fundada pelos fenícios há mais de quatro mil anos, foi a capital do comércio do Mediterrâneo, exportou a púrpura extraída de moluscos que vestia reis e imperadores, fundou Cartago, resistiu sete meses ao cerco de Alexandre em 332 a.C. e, sob Roma, tornou-se colônia próspera com hipódromo, necrópole e oficinas de sarcófagos que abasteciam todo o Levante — as mesmas cujos fragmentos de chumbo o FBI recuperou; seu sítio arqueológico é Patrimônio Mundial da Unesco desde 1984 e, desde julho de 2026, Patrimônio em Perigo, porque a cidade, a 20 quilômetros da fronteira com Israel, foi bombardeada repetidamente na guerra que começou em 2023, com o Hezbollah usando o sul do Líbano como base e Israel atingindo bairros, estradas e áreas próximas às ruínas, enquanto a população fugia e os sítios ficavam sem vigilância — condição ideal para as escavações clandestinas que alimentam o tráfico de antiguidades, um dos negócios mais lucrativos do Oriente Médio, junto com a Síria e o Iraque, e cuja rota termina em leilões, galerias e coleções privadas de Nova York, Londres e Genebra. A unidade de crimes contra a arte do FBI, criada em 2004 após o saque do Museu de Bagdá, rastreia peças por catálogos de leilão, denúncias e cooperação com governos, e a devolução ao Líbano — a segunda documentada, após 2017 — é parte de uma onda de repatriações que atingiu o Metropolitan de Nova York, o Getty e colecionadores; o valor das peças é pequeno, o simbolismo é grande: um país em guerra, com Estado fragilizado, recebendo de volta o que lhe foi roubado enquanto o que restou é bombardeado. O ministro Salamé — ex-enviado da ONU à Líbia e intelectual respeitado — usou a cerimônia para lembrar os danos israelenses e a lista da Unesco, mensagem dirigida a Washington, aliado de Israel, sobre a responsabilidade de proteger o patrimônio que ajuda a recuperar. Para o Brasil, que tem no Líbano a origem de milhões de descendentes e que cobra da Dinamarca, da França e de museus europeus a devolução de peças indígenas, a repatriação de Tiro é exemplo do que a cooperação policial internacional consegue — e do quanto falta.

Para , editor do portal, a devolução dos sarcófagos tem uma ironia que o ministro libanês não deixou passar. "Os Estados Unidos devolvem ao Líbano fragmentos roubados de Tiro, e o ministro agradece lembrando que Tiro foi bombardeada por Israel, aliado dos Estados Unidos, e está na lista de patrimônio em perigo. É diplomacia elegante: obrigado pelo chumbo romano, e quanto às bombas? O FBI faz um trabalho sério de rastrear antiguidade saqueada — a unidade nasceu do saque de Bagdá, que os próprios americanos permitiram —, e cada peça devolvida é justiça pequena. O portal registra e conecta com o Brasil: cobramos o manto tupinambá da Dinamarca e recebemos; seguramos o canhão paraguaio no Rio e não devolvemos. Patrimônio é de quem o criou, como o Líbano acaba de lembrar a Washington", avalia.

As peças: chumbo romano dos ateliês de Tiro

Fragmentos decorativos de sarcófagos de chumbo — material usado em Tiro para caixões ornamentados de famílias abastadas nos séculos 2 e 3 —, com motivos que identificam as oficinas locais; encontrados em escavações ilegais, saíram do Líbano por rotas de contrabando e foram localizados nos Estados Unidos pelo FBI.

O FBI e o rastreamento de antiguidades

A equipe de crimes contra a arte, criada em 2004, mantém banco de dados de peças roubadas, monitora leilões e coopera com governos; recuperou milhares de objetos do Iraque, da Síria, da Itália e do Egito na última década; a devolução ao Líbano seguiu o protocolo — entrega ao consulado em Nova York e repatriação.

Ghassan Salamé: o ministro que fala de bombas

Acadêmico, ex-enviado da ONU à Líbia e ministro da Cultura no governo de reconstrução libanês, Salamé usou a devolução para destacar os danos dos ataques israelenses a Tiro e a inclusão da cidade na lista da Unesco — recado a Washington sobre proteção do patrimônio que seus aliados destroem.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o tráfico de antiguidades é a face silenciosa das guerras do Oriente Médio. "Toda guerra na região abre sítio arqueológico para saque — Bagdá em 2003, Palmira em 2015, agora Tiro. Sem vigilância, com população fugindo, o saqueador entra, a peça sai pela Turquia ou pelo Golfo e aparece num leilão em Nova York como 'coleção particular europeia'. O FBI recupera uma fração. O portal registra a devolução e o contexto que o ministro fez questão de lembrar: Tiro está na lista de patrimônio em perigo desde julho porque foi bombardeada, não porque foi saqueada — e as duas coisas se alimentam", observa.

Tiro na lista da Unesco: Patrimônio em Perigo desde julho

Inscrita como Patrimônio Mundial em 1984 pelos vestígios fenícios e romanos — hipódromo, necrópole, arco triunfal —, a cidade entrou na lista de perigo em julho de 2026 após avaliação dos danos dos bombardeios israelenses e do abandono dos sítios durante a guerra; a Unesco pede zona de proteção e recursos para restauração.

O sul do Líbano e a guerra com Israel

Desde outubro de 2023, o sul do país é frente de guerra entre Israel e o Hezbollah, com ataques aéreos, invasão terrestre e centenas de milhares de deslocados; Tiro, maior cidade da região, foi atingida repetidamente, e o patrimônio arqueológico, junto à cidade moderna, sofreu danos que a Unesco documentou.

Repatriações: a onda global

Museus e governos devolveram, na última década, peças ao Egito, à Grécia, à Nigéria, ao Camboja e ao Brasil — o manto tupinambá, pela Dinamarca, em 2024 —; o Líbano recebeu peças em 2017 e agora; a pressão de países de origem e a cooperação policial mudaram a prática, ainda que lentamente.

Brasil e patrimônio: o que pedir e o que devolver

O país cobra a devolução de artefatos indígenas em museus europeus e obteve o manto tupinambá; ao mesmo tempo, mantém o canhão El Cristiano, troféu da Guerra do Paraguai, que Assunção pede há anos; o caso de Tiro lembra que o princípio — patrimônio pertence a quem o criou — vale nas duas direções.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia é pequena e diz muito. "Um consulado em Nova York recebe caixas com pedaços de chumbo de dois mil anos, roubados de uma cidade que está sendo bombardeada — e o ministro que os recebe agradece lembrando das bombas. É o Oriente Médio em uma cerimônia: patrimônio de quatro mil anos, guerra de dois, e uma potência que devolve com uma mão o que o aliado destrói com a outra. O portal registra Tiro, a cidade da púrpura e do alfabeto, e deseja que os sarcófagos encontrem, ao voltar, um museu de pé", analisa.

A devolução ao Líbano de fragmentos de sarcófagos romanos saqueados de Tiro e recuperados pelo FBI foi anunciada pela embaixada dos Estados Unidos em 3 de setembro de 2026 e noticiada pelo G1; as peças foram entregues ao consulado libanês em Nova York em 2 de setembro, e a cidade de Tiro está na lista de Patrimônio Mundial em Perigo da Unesco desde julho de 2026.

Fontes e referências

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