Itamaraty diz que faltam conversas diplomáticas para devolver ao Paraguai o canhão El Cristiano
Fundido com sinos de igrejas de Assunção em 1867 e capturado em Humaitá, o canhão de 12 toneladas é símbolo paraguaio; Vieira convidou o colega a visitar o Brasil.
Itamaraty diz que faltam conversas diplomáticas para devolver ao Paraguai o canhão El Cristiano, troféu da Guerra do Paraguai exposto no Museu Histórico Nacional, na praça 15, no Rio: chanceler Rubén Ramírez Lezcano voltou a pedir a peça a Mauro Vieira em encontro em Montevidéu, à margem da reunião da Aladi, em que também se discutiram a tarifa de Itaipu e a hidrovia Paraguai-Paraná — dois meses depois de Lula dizer que "o Paraguai decidiu invadir o Brasil" e provocar nota de repúdio
O Ministério das Relações Exteriores afirma que faltam mais conversas diplomáticas para devolver o canhão El Cristiano, da Guerra do Paraguai, ao país vizinho. A peça está no Museu Histórico Nacional, na praça 15, no centro do Rio de Janeiro. A atualização foi divulgada pelo Itamaraty na quarta-feira (2 de setembro), após reunião entre os chanceleres Mauro Vieira e Rubén Ramírez Lezcano em Montevidéu, à margem da 20ª Reunião do Conselho de Ministros da Aladi, a Associação Latino-Americana de Integração, a pedido do paraguaio. As informações são da Folha.
Segundo o governo brasileiro, os dois trataram dos principais temas da agenda bilateral, entre eles a negociação da tarifa da usina hidrelétrica binacional de Itaipu e questões da hidrovia Paraguai-Paraná. "Ramírez suscitou a questão do canhão Cristiano, e Mauro Vieira informou não terem ocorrido, até o momento, as conversações diplomáticas necessárias para dar o tratamento adequado ao assunto. Mauro Vieira convidou Ramírez a visitar o Brasil, em data ainda a ser acordada", diz a nota. O Paraguai já pediu outras vezes a reapropriação do canhão; segundo diplomatas, o processo é burocrático, com exigência de análises da origem da peça e coleta de evidências. A relação entre os países passou por abalo em julho, quando o presidente Lula citou a Guerra do Paraguai em visita a uma companhia de defesa em Jacareí, em São Paulo: "Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil". A menção ao conflito do século 19 — o maior da América Latina, responsável por devastar o país vizinho — foi suficiente para que o governo paraguaio fosse pressionado por dias a tomar ações mais duras contra o governo Lula, e o país emitiu nota de repúdio ao embaixador brasileiro em Assunção; o vice-presidente Pedro Alliana afirmou, ao entregar a nota, que não queria estender a rusga às vésperas das eleições de outubro.
El Cristiano: o canhão feito de sinos que virou ferida aberta há 158 anos
Em 1867, cercado pela Tríplice Aliança e sem metal, o governo de Solano López mandou recolher os sinos das igrejas de Assunção e fundi-los num canhão de 12 toneladas, batizado El Cristiano e inscrito com a frase de que fora feito "com os sinos das igrejas para defender a religião e a pátria"; instalado na fortaleza de Humaitá, no rio Paraguai, foi capturado pelas forças brasileiras em 1868, levado ao Rio de Janeiro como troféu de guerra e exposto por décadas no Arsenal e depois no Museu Histórico Nacional, onde está até hoje, no pátio, ao lado de outras peças da guerra que matou mais da metade da população paraguaia e quase todos os homens adultos do país. Para o Paraguai, o canhão é o símbolo maior do sacrifício nacional — a pátria que fundiu seus sinos —, e sua devolução é reivindicada por governos de todos os partidos desde a redemocratização, com pedidos formais em 2010, no governo Lugo, quando Lula chegou a sinalizar concordância, e depois sob Cartes, Abdo e Peña; para o Brasil, a devolução esbarra na burocracia do patrimônio — a peça é tombada, e a lei exige comprovar origem e destinação — e, sobretudo, na política: devolver o troféu é admitir a leitura paraguaia da guerra como agressão, e nenhum governo brasileiro quis pagar esse preço. A fala de Lula em julho — "o Paraguai decidiu invadir o Brasil", numa fábrica de armas — reabriu a ferida no pior momento, com Itaipu em renegociação e o Paraguai em ano eleitoral, e o pedido de Ramírez em Montevidéu é a resposta diplomática: se o Brasil quer falar de Itaipu e hidrovia, o Paraguai quer falar do canhão. A nota do Itamaraty — "faltam conversações" e um convite — é a forma de não dizer não.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o canhão é um caso de diplomacia que o Brasil poderia resolver com um gesto. "É um pedaço de bronze de 12 toneladas feito com os sinos de um país que perdeu metade da população numa guerra que nós vencemos. Está num pátio no Rio, e o Paraguai pede de volta há quinze anos. Devolver não custa nada e ganha tudo — em Itaipu, na hidrovia, no Mercosul, na relação com um vizinho que o Brasil ofendeu em julho com uma frase infeliz do presidente. O Itamaraty responde com 'faltam conversas' e 'análise de origem', que é a linguagem de quem não quer decidir. O portal registra o episódio e lembra que a Alemanha devolveu bronzes do Benin, a França devolveu peças ao Senegal e o Brasil, que cobra o manto tupinambá da Dinamarca, segura o canhão dos sinos. Coerência pediria devolver", avalia.
Montevidéu: o encontro dos chanceleres
À margem da reunião do Conselho de Ministros da Aladi, Vieira e Ramírez Lezcano trataram de Itaipu, hidrovia e comércio; o paraguaio pediu a reunião e levou o canhão à pauta; o brasileiro registrou que não houve "conversações necessárias" e convidou o colega a visitar o Brasil — o que sugere que o tema pode avançar em encontro bilateral.
Itaipu e a hidrovia: a agenda que importa
A renegociação da tarifa de Itaipu — o Paraguai quer vender sua parte da energia no mercado e receber mais — e a gestão da hidrovia Paraguai-Paraná, rota da soja paraguaia e mato-grossense, são os temas econômicos da relação; o canhão é moeda simbólica que o Paraguai usa para lembrar ao Brasil que a história pesa na negociação.
A frase de Lula em Jacareí e a nota de repúdio
Em julho, numa fábrica de defesa, o presidente disse que o Paraguai "decidiu invadir o Brasil" — referência ao ataque a Mato Grosso em 1864 que iniciou a guerra —; em Assunção, oposição e imprensa exigiram resposta, e o governo Peña entregou nota de repúdio ao embaixador brasileiro, com o vice Alliana minimizando para não estender a crise.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a burocracia do patrimônio é desculpa. "Análise de origem de um canhão com inscrição em espanhol, capturado em Humaitá, documentado por 158 anos de historiografia dos dois países — não há dúvida de onde veio. O que há é a leitura da guerra: para o Brasil, defesa contra invasão; para o Paraguai, genocídio. Devolver o canhão não muda a história, mas reconhece o sofrimento de quem fundiu os sinos. O portal registra que Lula sinalizou devolução em 2010 e nada aconteceu, e que o próprio Lula, em 2026, reabriu a ferida. O Itamaraty precisa decidir se quer o gesto ou o troféu — e a Itaipu de 2027 vai cobrar a resposta", observa.
A Guerra do Paraguai: a memória dividida
De 1864 a 1870, Brasil, Argentina e Uruguai enfrentaram o Paraguai de Solano López; o país perdeu entre 50% e 70% da população e território, e a guerra é, na memória paraguaia, o trauma fundador; no Brasil, é lembrada como vitória militar e origem do Exército moderno — leituras que se chocam a cada gesto diplomático.
Pedidos anteriores: de Lugo a Peña
Em 2010, Fernando Lugo pediu e Lula acenou; governos seguintes reiteraram; em 2019, o Paraguai voltou a formalizar; o Brasil sempre respondeu com estudos e comissões, sem devolução. O tombamento da peça pelo Iphan exige processo formal de desincorporação — obstáculo real, mas superável com decisão política.
Restituições no mundo: o precedente
Alemanha, França, Holanda e Reino Unido devolveram nos últimos anos peças coloniais à África e à Ásia; o Brasil cobra da Dinamarca o manto tupinambá, devolvido em 2024; a coerência entre pedir e devolver é o argumento que o Paraguai usa — e que a diplomacia brasileira evita enfrentar.
Eleição, Itaipu e o momento
Com eleições em outubro no Brasil e Itaipu em negociação, nenhum dos lados quer crise; o convite a Ramírez para visitar o Brasil abre janela para tratar canhão, tarifa e hidrovia num pacote — o que diplomatas veem como a saída possível, em que o gesto simbólico destrava o econômico.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o caso é pequeno em tamanho e grande em significado. "Doze toneladas de bronze num pátio do Rio valem, para o Paraguai, o que o manto tupinambá valia para o Brasil — e o Brasil pediu, insistiu e recebeu. Não devolver é dizer que a dor do vizinho vale menos que a nossa. O portal registra que faltam 'conversas', como diz o Itamaraty, e sugere a primeira: que o Brasil diga sim. O Paraguai devolveria os sinos às igrejas — e o Brasil ganharia um vizinho, em vez de um troféu", analisa.
A nota do Itamaraty sobre a reunião entre Mauro Vieira e Rubén Ramírez Lezcano em Montevidéu, em que o Paraguai voltou a pedir a devolução do canhão El Cristiano, foi divulgada em 2 de setembro de 2026 e noticiada pela Folha em 3 de setembro; a peça, capturada na Guerra do Paraguai, está no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.