Irã acusa os Estados Unidos de atacar um petroleiro iraniano perto da ilha de Kharg
Netanyahu condenou "pequeno grupo de manifestantes violentos"; houthis relatam pai e filha mortos em Jarahi, e Exército iemenita diz ter feito 15 bombardeios.
Irã acusa os Estados Unidos de atacar um petroleiro iraniano perto da ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, uma semana após a retomada dos confrontos entre os dois países; Washington não comenta, e no mesmo sábado o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, chama colonos israelenses da Cisjordânia de "terroristas" — "queimar um carro, incendiar uma mesquita, invadir uma casa: é um ato de terror" — enquanto o Iêmen registra novos mortos em Hodeida e Taiz
O Irã acusou neste sábado (5 de setembro) os Estados Unidos de atacar um petroleiro iraniano próximo à ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, ampliando as tensões entre os dois países após a retomada dos confrontos na última semana. Washington não comentou a acusação, e não houve relatos de retaliação. Enquanto isso, a violência aumentou em outras frentes do Oriente Médio, com novos ataques no Iêmen e no Líbano e críticas do embaixador dos Estados Unidos em Israel à atuação de colonos israelenses na Cisjordânia ocupada. As informações são do G1.
O embaixador Mike Huckabee voltou a condenar a violência de colonos e classificou as ações como "atos de terror"; neste sábado, chamou os colonos de "terroristas" — termo que autoridades americanas costumam empregar para militantes palestinos — ao discursar para moradores palestino-americanos na vila de Turmus Ayya. "Se houver ocupantes ilegais que chegam, hasteiam suas próprias bandeiras e se apropriam de algo que não lhes pertence, se queimam um carro, se incendeiam uma mesquita, se invadem a casa de alguém e a vandalizam, picham as paredes, isso é um ato criminoso. Mas vai além de um ato criminoso. É um ato de terror", afirmou. No mês passado, ele já criticara a violência após semanas de distúrbios em Qusra, onde casas — incluindo a de um palestino-americano — foram cercadas. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu condenou as ações de um "pequeno grupo de manifestantes violentos", e o Ministério das Relações Exteriores classificou a atuação dos colonos como "uma vergonha"; o governo Netanyahu, considerado o mais ultranacionalista e religioso da história de Israel, ampliou a construção de assentamentos, que a maior parte da comunidade internacional considera ilegais. No Iêmen, os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, afirmaram que forças do governo mataram ao menos três pessoas no oeste e no sudoeste na sexta-feira (4), nas províncias de Hodeida e Taiz, no dia em que o Exército iemenita informou ter feito mais de 15 bombardeios contra posições houthis; segundo autoridades houthis, um pai e sua filha morreram em ataque à casa da família no distrito de Jarahi, e em Taiz um bombardeio matou um homem e feriu outro, de acordo com a emissora Al-Masirah. Os combates se intensificaram ao longo da costa oeste do Iêmen, próxima a uma importante rota marítima.
Kharg: a ilha por onde passa o petróleo iraniano
A ilha de Kharg, a cerca de 25 quilômetros da costa iraniana no norte do Golfo Pérsico, é o principal terminal de exportação de petróleo do Irã — por seus píeres passam cerca de 90% das vendas externas do país, sobretudo para a China —, e por isso é o alvo mais sensível de qualquer confronto: atacar Kharg ou os petroleiros que a servem significa cortar a principal fonte de receita de Teerã. Nos confrontos entre Estados Unidos e Irã em 2026, o Golfo tornou-se o teatro central, com a Quinta Frota americana no Bahrein, a Guarda Revolucionária em lanchas e drones, e o estreito de Ormuz — por onde passa um quinto do petróleo mundial — sob ameaça permanente de fechamento. A acusação iraniana de sábado, sem confirmação americana, ocorre uma semana após a retomada dos confrontos e no mesmo dia em que Donald Trump minimizou o conflito, chamando-o de "fichinha" para os Estados Unidos; se confirmado, o ataque a um petroleiro perto de Kharg seria escalada com efeito imediato no preço do barril.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o sábado resume o Oriente Médio de 2026 em três frentes. "Petroleiro atacado perto de Kharg, embaixador de Trump chamando colono israelense de terrorista, pai e filha mortos em bombardeio no Iêmen — tudo no mesmo dia, tudo ligado. O Irã acusa e Washington cala, o que no Golfo costuma significar que aconteceu. Huckabee, evangélico e defensor histórico de Israel, usando a palavra 'terror' para colonos é sinal de que a violência na Cisjordânia passou do que até o aliado mais fiel aguenta. E o Iêmen continua sendo a guerra que ninguém acompanha, com houthis e governo se matando a cem quilômetros da rota por onde passa o comércio da Ásia com a Europa. O barril de petróleo vai contar essa história na segunda-feira", avalia.
Estados Unidos e Irã: a guerra que Trump chama de "fichinha"
Os confrontos entre americanos e iranianos em 2026 — ataques a instalações, navios e bases, com envolvimento de aliados regionais — consumiram, segundo a imprensa americana, cerca de um quarto do estoque de mísseis Tomahawk dos Estados Unidos e foram retomados na última semana após um intervalo; Trump classificou o conflito como "insignificante" e "fichinha" e defendeu o vice-presidente J.D. Vance, que, questionado sobre o fim da guerra, respondeu: "Não sei, pergunte aos iranianos". A acusação de sábado é o episódio mais recente de uma escalada sem negociação à vista.
Huckabee: o embaixador que mudou de vocabulário
Ex-governador do Arkansas, pastor batista e apoiador declarado dos assentamentos — chegou a dizer que "não existe Cisjordânia, existe Judeia e Samaria" —, Mike Huckabee é o embaixador mais pró-Israel que Washington já enviou; que ele chame colonos de terroristas, em visita a uma vila palestina, indica pressão do Departamento de Estado por proteção a cidadãos americanos de origem palestina, vítimas de ataques em Turmus Ayya e Qusra. O termo tem peso jurídico: a designação de colonos violentos como terroristas abriria caminho a sanções.
Turmus Ayya e Qusra: as vilas atacadas
Turmus Ayya, ao norte de Ramallah, tem população majoritariamente palestino-americana e foi alvo de incêndios e depredações por colonos em 2023 e 2025; Qusra, perto de Nablus, viveu semanas de cerco em agosto de 2026, com casas atacadas — inclusive a de um cidadão americano. Os ataques crescem desde a guerra em Gaza, com centenas de incidentes mensais registrados pela ONU.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a reação de Netanyahu é o dado a observar. "O primeiro-ministro condena 'um pequeno grupo de manifestantes violentos' — não fala em terror, não fala em colonos, não fala em assentamento. O Ministério das Relações Exteriores diz 'vergonha'. O embaixador americano diz 'terroristas'. A diferença de vocabulário é a diferença de política: Washington quer que Israel contenha os colonos; o governo mais ultranacionalista da história de Israel depende dos partidos que os representam. Huckabee falou para os palestino-americanos, mas o recado era para Netanyahu — e para Smotrich e Ben-Gvir, que comandam a expansão dos assentamentos", observa.
Assentamentos: o governo mais ultranacionalista
Com Bezalel Smotrich nas Finanças e na administração civil da Cisjordânia e Itamar Ben-Gvir na Segurança Nacional, o governo Netanyahu aprovou dezenas de novos assentamentos e legalizou postos avançados desde 2023; a ONU, a Corte Internacional de Justiça e a maioria dos governos consideram os assentamentos ilegais sob a Quarta Convenção de Genebra. Os Estados Unidos, sob Trump, suspenderam as sanções a colonos impostas por Biden — o que torna a fala de Huckabee mais notável.
Iêmen: a guerra esquecida na costa do mar Vermelho
Desde 2014, houthis apoiados pelo Irã controlam o norte e a capital, Sanaa, enquanto o governo reconhecido, apoiado pela Arábia Saudita, controla o sul; a trégua de 2022 reduziu os combates, mas a guerra em Gaza e os ataques houthis a navios no mar Vermelho reacenderam a frente. Hodeida, porto no mar Vermelho, e Taiz, cidade cercada há anos, são os pontos mais quentes; a costa oeste fica junto ao estreito de Bab el-Mandeb, por onde passa o comércio entre Ásia e Europa.
Líbano: a frente que não fechou
O cessar-fogo entre Israel e Hezbollah, de novembro de 2024, não impediu ataques israelenses quase diários no sul do Líbano nem a presença de tropas em pontos ocupados; reportagens desta semana documentaram demolições e avanço de forças israelenses em áreas onde a trégua deveria valer. É a terceira frente aberta do sábado.
Preço do petróleo: o efeito esperado
Ataques a petroleiros no Golfo e ameaças a Ormuz elevam o prêmio de risco do barril; o Brent reagiu a cada episódio dos confrontos de 2026 e deve refletir a acusação iraniana na abertura dos mercados. Para o Brasil, exportador de petróleo e importador de derivados, o efeito é ambíguo — Petrobras ganha, combustível encarece.
O que se sabe e o que falta confirmar
A acusação iraniana não veio acompanhada de imagens, nome do navio ou número de vítimas; Washington não comentou; nenhuma retaliação foi registrada. A confirmação — ou o desmentido — deve vir nas próximas horas, por fontes marítimas e de inteligência.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia importa pelo silêncio americano. "Quando o Irã acusa e os Estados Unidos não respondem, o Golfo entende que houve ataque. Kharg é o coração da economia iraniana; atacar petroleiro ali é dizer a Teerã que a próxima etapa é o terminal. Trump chama a guerra de fichinha e o vice manda perguntar aos iranianos — enquanto o embaixador em Israel chama colonos de terroristas e pai e filha morrem no Iêmen. O Oriente Médio de setembro de 2026 tem três guerras e nenhuma negociação. O petróleo vai subir, e o Brasil vai sentir na bomba", analisa.
A acusação do Irã contra os Estados Unidos por ataque a petroleiro perto da ilha de Kharg, as declarações do embaixador Mike Huckabee sobre colonos na Cisjordânia e os combates em Hodeida e Taiz foram noticiados pelo G1 em 5 de setembro de 2026.