BBC entra em área do Líbano ocupada por Israel apesar do cessar-fogo
Equipe acompanhou comboio da Unifil liderado por finlandeses que escolta moradores de vilarejos cristãos isolados; Naqoura é o último posto do Estado.
BBC entra na faixa do sul do Líbano ocupada por Israel apesar do cessar-fogo e encontra estradas desertas, plantações abandonadas, prédios residenciais tomados por soldados e demolições em curso: área controlada equivale a 5% do território libanês e avança até 10 km da fronteira; invasão começou em março, quando o Hezbollah lançou foguetes após a morte do líder supremo do Irã no início da guerra dos EUA e de Israel contra Teerã
A estrada que acompanha o litoral do Mediterrâneo no sul do Líbano, perto da fronteira com Israel, atravessa uma região de belas paisagens que hoje está deserta e devastada: plantações abandonadas e um número praticamente incontável de prédios destruídos por ataques aéreos israelenses. Perto da cidade de Naqoura, um posto de controle do Exército libanês, pintado de branco e vermelho, é o último sinal visível da presença do Estado — soldados atrás de barreiras de concreto, nenhum movimento na estrada; alguns minutos ao sul, cerca de uma dezena de bandeiras israelenses marca o início do território ocupado, onde ninguém entra sem autorização de Israel. As informações são de reportagem da BBC News Brasil.
A região é o principal reduto da comunidade muçulmana xiita do Líbano, base de apoio do Hezbollah, milícia e partido apoiado pelo Irã; nas últimas duas décadas, o Exército israelense a invadiu três vezes em guerras contra o grupo, e a mais recente começou em março, depois que o Hezbollah lançou foguetes contra Israel após a morte do líder supremo do Irã, no início da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra Teerã. A equipe da BBC acompanhou um comboio liderado por militares finlandeses da Unifil, a força de paz da ONU, que escoltava civis de vilarejos cristãos próximos à fronteira — comunidades não atingidas pelos ataques nem pela invasão, mas isoladas do restante do país desde que as áreas ao redor foram ocupadas; a presença da equipe foi autorizada pelos militares israelenses por um mecanismo de coordenação com a ONU para evitar incidentes. A faixa controlada por Israel corresponde a cerca de 5% do território libanês e, em alguns pontos, avança 10 km a partir da fronteira: ao percorrer a região junto ao muro, a reportagem viu estradas de serviço construídas por Israel após a invasão, intensa movimentação de soldados e prédios residenciais ocupados por eles, alguns cobertos por redes para proteção contra drones explosivos do Hezbollah; ouviu drones israelenses de vigilância e explosões à distância, possivelmente demolições nos vilarejos ocupados. Segundo a ONU, Israel reforça suas posições e segue demolindo estruturas.
Do cessar-fogo de 2024 à invasão de 2026: como se chegou aqui
A guerra entre Israel e o Hezbollah de 2023-24 — aberta pelo grupo em apoio ao Hamas e encerrada com a ofensiva israelense que matou o líder Hassan Nasrallah e destruiu o sul do Líbano — terminou com um cessar-fogo em novembro de 2024 que previa a retirada israelense em 60 dias, o desarmamento do Hezbollah ao sul do rio Litani e o deslocamento do Exército libanês para a fronteira; Israel manteve cinco posições em território libanês e ataques quase diários, alegando violações. Em fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã e o líder supremo iraniano morreu, o Hezbollah — enfraquecido, mas ainda armado — disparou foguetes, e Israel respondeu com a terceira invasão em vinte anos, agora ocupando uma faixa contínua de 5% do país e demolindo vilarejos para criar uma zona-tampão. O governo libanês, que em 2025 aprovara plano para desarmar o Hezbollah, perdeu o controle do sul; a Unifil, cujo mandato o Conselho de Segurança decidiu encerrar até o fim de 2026, faz o que resta: escoltar civis entre bandeiras.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a reportagem mostra o que "cessar-fogo" significa no Oriente Médio de 2026. "Há um acordo assinado em novembro de 2024, há uma força da ONU, há um Exército libanês com posto de controle — e há 5% do Líbano ocupado, prédios com soldados israelenses dentro, demolições e estradas novas construídas pelo ocupante. Não é trégua; é anexação lenta com nome de segurança. O Hezbollah deu o pretexto ao disparar foguetes quando o aiatolá morreu; Israel usou o pretexto para fazer o que planejava desde 2024: uma zona-tampão sem libaneses. A BBC precisou de autorização israelense para entrar em território libanês — essa frase resume a soberania do Líbano hoje. E a Unifil, que escolta cristãos entre bandeiras, acaba em dezembro", avalia.
5% do território, 10 km de profundidade: a zona ocupada
A faixa vai do Mediterrâneo, em Naqoura, ao setor leste, junto às Colinas de Golã, e inclui dezenas de vilarejos xiitas evacuados ou demolidos; Israel diz que a ocupação é temporária e condicionada ao desarmamento do Hezbollah, mas as estradas de serviço, os prédios ocupados e as redes antidrones indicam instalação de longo prazo. A zona lembra a "faixa de segurança" que Israel manteve no sul do Líbano de 1985 a 2000.
Naqoura: onde o Estado libanês termina
Cidade costeira e sede da Unifil, Naqoura ficou reduzida a um posto de controle do Exército libanês e à base da ONU; ao sul, a bandeira israelense. É o ponto de contato entre os três atores — Exército libanês, Unifil e Israel — e o lugar onde a reportagem viu que a estrada costeira, antes movimentada, está vazia.
Os vilarejos cristãos isolados
Comunidades maronitas e greco-católicas próximas à fronteira, historicamente neutras entre Hezbollah e Israel, não foram atacadas, mas ficaram cercadas pela ocupação; dependem dos comboios da Unifil para sair e entrar, comprar mantimentos e buscar atendimento médico. São o retrato de um sul do Líbano fragmentado em enclaves.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o fim da Unifil é o dado a observar. "O Conselho de Segurança decidiu em 2025 encerrar a força de paz até o fim de 2026 — pressão americana e israelense, que a consideram inútil. A reportagem mostra o que ela ainda faz: escoltar civis, coordenar com Israel, testemunhar. Sem a Unifil, não haverá comboio para os cristãos, nem observador para as demolições, nem mecanismo para a BBC entrar. O sul do Líbano vai ficar entre o Hezbollah, que não desarma, e Israel, que não sai — sem ninguém no meio. É o vácuo que precede a próxima guerra, e ela já tem data: quando o Irã e Israel decidirem", observa.
Hezbollah depois de Nasrallah e do Irã em guerra
Decapitado em 2024, com arsenal reduzido e financiamento iraniano comprometido pela guerra contra Teerã, o Hezbollah perdeu capacidade militar, mas mantém base social no sul e no vale do Bekaa e resiste ao desarmamento; os foguetes de março, em resposta à morte do líder supremo iraniano, mostraram que ainda opera — e deram a Israel a justificativa para a invasão.
O governo libanês e o plano de desarmamento
Em 2025, o governo do presidente Joseph Aoun e do primeiro-ministro Nawaf Salam aprovou plano para que o Exército assumisse o monopólio das armas, sob pressão americana; o Hezbollah rejeitou, e a invasão de 2026 tornou o plano inexequível no sul. O posto de Naqoura é o limite do que o Exército controla.
Demolições e redes antidrones: o método israelense
Como em Gaza e na Cisjordânia, o Exército israelense demole casas e infraestrutura em vilarejos ocupados para impedir o retorno de combatentes e cria estradas próprias; as redes sobre prédios ocupados respondem aos drones explosivos do Hezbollah, arma que o grupo ainda usa. A ONU documenta as demolições como violação do cessar-fogo.
A guerra contra o Irã: o pano de fundo
Iniciada no fim de fevereiro por Estados Unidos e Israel, a guerra contra o Irã — com a morte do líder supremo em seu início — redesenhou o Oriente Médio: Hezbollah e houthis reagiram, Israel invadiu o Líbano, os Estados Unidos consumiram um quarto de seus Tomahawks, e o Golfo virou teatro de ataques a petroleiros. O sul do Líbano é uma das frentes dessa guerra maior.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a reportagem é o tipo de jornalismo que a guerra tenta impedir. "A BBC entrou onde ninguém entra, com escolta finlandesa da ONU e autorização de Israel, e descreveu o que viu: bandeira, soldado em prédio de família, explosão ao longe, plantação abandonada. Não precisou de adjetivo. O Líbano, que já perdeu o sul três vezes em vinte anos, perde de novo — e desta vez sem prazo de devolução. O portal publica porque o Brasil tem a maior comunidade libanesa fora do Líbano, e o sul é de onde muitos vieram. Quando a Unifil sair, em dezembro, não haverá mais quem conte", analisa.
A reportagem da BBC News Brasil no sul do Líbano, em área ocupada por Israel desde a invasão de março de 2026, foi publicada em 4 de setembro de 2026; segundo a ONU, Israel controla cerca de 5% do território libanês e segue demolindo estruturas apesar do cessar-fogo de novembro de 2024.