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Conflitos

Deputado federal mexicano é encontrado morto a tiro dentro do carro em estrada de Veracruz

Zenyazen Escobar, 42, ex-secretário de Educação do estado e parlamentar desde 2024, estava no banco do motorista com uma arma ao lado; Veracruz é um dos estados mais violentos do México.

Capa do artigo Deputado federal mexicano é encontrado morto a tiro dentro do carro em estrada de Veracruz
— Foto: Tomascastelazo / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Deputado federal mexicano é encontrado morto a tiro dentro do carro em estrada de Veracruz; governo diz que não houve ataque ao veículo e não descarta suicídio

O deputado federal mexicano Zenyazen Escobar, de 42 anos, foi encontrado morto com um ferimento de bala nesta sexta-feira (4), dentro de um carro parado no acostamento de uma estrada do estado de Veracruz, no leste do México. O corpo estava no banco do motorista, e uma arma de fogo foi localizada dentro do veículo, perto dele — imagens divulgadas pela imprensa local mostram o objeto entre as pernas do parlamentar. As autoridades investigam se o caso foi homicídio ou suicídio. As informações são do G1.

Escobar era professor, foi líder do magistério, ocupou a Secretaria de Educação de Veracruz entre 2018 e 2021 e chegou à Câmara dos Deputados em setembro de 2024. Sua morte em um estado dominado por organizações criminosas ligadas ao narcotráfico levantou imediatamente a hipótese de crime político — que o governo estadual, por ora, afasta.

"Foi interno": a versão das autoridades

O secretário de Governo de Veracruz, Ricardo Ahued, afirmou em coletiva de imprensa que, até o momento, não há indícios de que o carro tenha sido atacado ou obrigado a parar. "Não foi um atentado porque o carro está em um acostamento, não se nota que tenha havido maior agressão ao veículo, foi interno", disse. Sobre a causa da morte, foi cauteloso: "O falecimento foi por arma de fogo, não podemos ampliar" a hipótese. A polícia isolou a área e o caso é investigado.

A descrição — veículo intacto, parado no acostamento, arma dentro do carro junto ao corpo — é compatível com suicídio, mas as autoridades não confirmaram essa leitura, e a investigação seguirá com perícia balística, análise do local e apuração das últimas horas do deputado.

Para , editor do portal, a cautela do governo é compreensível — e insuficiente. "No México, quando um político aparece morto a tiro em Veracruz, a primeira pergunta de todo mundo é 'quem mandou?'. O secretário diz que foi interno, que não houve ataque. Pode ser. Mas a única forma de encerrar a dúvida é uma perícia independente e transparente, publicada. Num estado em que o crime organizado já matou prefeitos, candidatos e jornalistas, 'não podemos ampliar' não tranquiliza ninguém", avalia.

Veracruz: um dos estados mais violentos

Veracruz, no Golfo do México, é há mais de uma década um dos territórios mais disputados por cartéis do país. Sua posição estratégica — porto, rodovias que ligam o sul ao centro e à fronteira norte — o torna corredor de drogas, combustível roubado e migrantes, e as facções que controlam essas rotas se enfrentam e cooptam autoridades locais. O estado tem histórico de assassinatos de jornalistas, prefeitos, policiais e candidatos, e de valas clandestinas com centenas de corpos.

É nesse contexto que qualquer morte violenta de figura pública é lida com desconfiança. Mesmo que a investigação confirme suicídio, a pergunta sobre o que levou um deputado federal a esse desfecho — pressão, ameaça, dívida, extorsão — permanecerá aberta.

Violência política no México

O México vive um ciclo prolongado de violência contra políticos. As eleições de 2024, as maiores da história do país, foram marcadas por dezenas de assassinatos de candidatos e pré-candidatos, sobretudo a cargos municipais, em estados como Guerrero, Michoacán, Chiapas e Veracruz. O padrão é conhecido: organizações criminosas eliminam quem não aceita acordo ou quem ameaça o controle que exercem sobre prefeituras, polícias locais e orçamentos.

Deputados federais são alvos menos frequentes do que prefeitos — têm menos poder direto sobre o território —, mas não estão imunes. A trajetória de Escobar, ligada ao magistério e à educação estadual, não o colocava, à primeira vista, no centro de disputas territoriais. Ainda assim, um ex-secretário de Estado conhece estruturas, contratos e pessoas — e em Veracruz isso pode ser suficiente.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o caso expõe uma fragilidade estrutural. "O México tem um Congresso, tem eleições, tem instituições. E tem regiões inteiras onde o poder real é de quem tem mais armas. Veracruz é uma delas. Quando um deputado federal morre a tiro numa estrada, a versão oficial vale pouco, porque as próprias autoridades estaduais são, muitas vezes, parte do problema. É por isso que a Cidade do México precisa assumir a investigação — para que a resposta tenha credibilidade", observa.

Veracruz: de Duarte aos cartéis

O estado carrega um histórico que explica a desconfiança. Entre 2010 e 2016, foi governado por Javier Duarte, condenado por corrupção e associação criminosa após desviar recursos públicos em escala bilionária e deixar o estado com finanças arruinadas e instituições capturadas. No mesmo período, Veracruz se tornou um dos lugares mais perigosos do mundo para jornalistas — dezenas foram assassinados —, e a descoberta de valas clandestinas com centenas de restos humanos, como a de Colinas de Santa Fe, expôs o tamanho da violência que o poder público não conseguia, ou não queria, conter.

Os governos seguintes prometeram romper com esse legado, mas a presença de organizações criminosas no território permanece. A morte de um deputado federal em uma estrada do estado, seja qual for a causa, reativa essa memória.

Sheinbaum e a aposta na inteligência

A presidente Claudia Sheinbaum, que assumiu em outubro de 2024, adotou uma estratégia de segurança que combina a "atenção às causas" — programas sociais para jovens em áreas de risco, herdados de seu antecessor — com maior ênfase em inteligência e investigação, sob comando do secretário de Segurança Omar García Harfuch. O governo federal reivindica quedas nos homicídios em vários estados, mas a violência política continua sendo um ponto vulnerável: a cada ciclo eleitoral, dezenas de candidatos e autoridades locais são mortos, e a maioria dos casos não chega a condenação.

Um deputado federal morto em Veracruz é, para a Cidade do México, um caso que testa a estratégia: se a Procuradoria-Geral da República assumir a investigação e entregar resposta rápida e verificável, o governo mostra que a promessa de investigação tem substância. Se o caso ficar nas mãos do estado e se arrastar, reforça a percepção de que a impunidade permanece a regra.

Quem era Zenyazen Escobar

Nascido em Veracruz, Escobar construiu carreira na educação pública. Professor de formação, tornou-se dirigente sindical do magistério e, em 2018, foi nomeado secretário de Educação do estado — cargo que ocupou até 2021, período que incluiu a pandemia e o fechamento das escolas. Em 2024, elegeu-se deputado federal e assumiu o mandato em setembro daquele ano, integrando a legislatura que acompanha o primeiro governo de Claudia Sheinbaum.

Sua morte, aos 42 anos, interrompe uma trajetória política ainda em ascensão e abre uma vaga na Câmara que será preenchida por seu suplente, conforme as regras eleitorais mexicanas.

O que se espera da investigação

A Procuradoria de Veracruz conduz o caso, e a Procuradoria-Geral da República pode atraí-lo, dada a condição de parlamentar federal da vítima. Os passos esperados incluem a necropsia, a perícia da arma e do veículo, a análise de câmeras da rodovia, o rastreamento do celular do deputado e a oitiva de familiares, assessores e colegas. O resultado deve indicar se houve terceiros no local, se a arma pertencia ao deputado e qual era seu estado nas horas anteriores.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a transparência é o único caminho. "Se foi suicídio, o México precisa saber o que levou um deputado a isso — e se havia ameaça por trás. Se foi homicídio, precisa saber quem. Em ambos os casos, a resposta 'foi interno, não podemos ampliar' é o início, não o fim. Veracruz já tem cadáveres demais sem explicação. Este, por ser de um deputado federal, é a chance de o Estado mostrar que ainda consegue investigar", analisa.

A Câmara dos Deputados do México não havia se manifestado oficialmente sobre a morte até a publicação desta reportagem. O governo de Veracruz prometeu divulgar os resultados da perícia assim que concluídos.

Fontes e referências

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