Enviados de Trump chegam a Moscou para negociar a paz na Ucrânia enquanto a Rússia bombardeia portos
Zelensky diz que os ataques aos aeroportos de Kiev e Boryspil foram resposta à possibilidade de os americanos pousarem de avião na Ucrânia.
Enviados de Trump chegam a Moscou para negociar a paz na Ucrânia enquanto a Rússia bombardeia portos, aeroportos e uma siderúrgica: Steve Witkoff e Jared Kushner seguem para Kiev no domingo, na primeira visita à capital ucraniana como mediadores; Putin suspende ataques a Kiev por três dias, mas míssil mata cinco na usina Kamet Steel, em Kamianske
Dois enviados do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para negociar um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia chegaram a Moscou na manhã de sábado (5 de setembro), segundo as agências russas TASS e RIA Novosti: o avião com Steve Witkoff e Jared Kushner pousou no aeroporto de Vnukovo às 12h52 locais, 6h52 em Brasília. Após as negociações na capital russa, os dois devem seguir para Kiev no domingo (6) — a primeira viagem da dupla à capital ucraniana desde que passou a mediar as conversas. Segundo a Reuters, o presidente Vladimir Putin ordenou a suspensão de ataques contra Kiev por três dias em razão dos preparativos para a chegada da delegação, informou o Kremlin. As informações são do G1.
Apesar da medida, a Rússia bombardeou outras regiões: segundo o Ministério da Defesa russo, citado pela Interfax, forças russas atingiram dois navios com carga militar destinada à Ucrânia no porto de Chornomorsk e embarcações cargueiras próximas ao porto de Odessa. Na madrugada, a Rússia também atacou os aeroportos de Kiev e de Boryspil; o presidente Volodymyr Zelensky afirmou que a ofensiva foi resposta às discussões sobre a possibilidade de Witkoff e Kushner viajarem de avião até a Ucrânia — o espaço aéreo ucraniano está fechado desde o início da invasão, em 2022. Também no sábado, um míssil balístico russo contra a usina siderúrgica Kamet Steel, em Kamianske, na região de Dnipro, matou cinco pessoas e paralisou totalmente a unidade, informou a Metinvest, maior grupo de mineração e siderurgia do país, que produz ali ferro-gusa e aço para fins civis. Zelensky relatou danos em prédios residenciais em Kherson, Boryspil e Kharkiv e drones em centros comerciais de Sumy e Mykolaiv, disse que Kiev ajustará suas operações no espaço aéreo russo e ressaltou que "não há e não haverá nenhuma ameaça à diplomacia" por parte da Ucrânia.
Witkoff e Kushner: os mediadores de Trump
Steve Witkoff, incorporador imobiliário e amigo de Trump, é o enviado especial do presidente para o Oriente Médio e, desde 2025, o principal canal com o Kremlin — reuniu-se com Putin várias vezes e conduziu as tratativas de cessar-fogo; Jared Kushner, genro de Trump e arquiteto dos Acordos de Abraão no primeiro mandato, juntou-se à mediação com a Ucrânia em 2026. Nenhum dos dois é diplomata de carreira, o que define o estilo: negociação direta, pessoal, com Putin e Zelensky, fora dos canais do Departamento de Estado. A viagem de sábado a Moscou seguida de domingo em Kiev é o formato de "diplomacia de vaivém" que marcou as tentativas de paz de 2025 — e a primeira vez que a dupla vai à Ucrânia, sinal de que o esforço entra em fase de proposta concreta.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o dia resume a guerra em seu quinto ano. "Enviados americanos pousam em Moscou para falar de paz; Putin suspende ataques a Kiev por três dias como gesto; no mesmo dia, mísseis matam cinco numa siderúrgica, navios são atingidos em Odessa e aeroportos de Kiev são bombardeados porque os americanos cogitaram pousar lá. É negociação sob fogo — o Kremlin negocia e ataca ao mesmo tempo, para chegar à mesa com vantagem. Zelensky entendeu e disse que a diplomacia não será ameaçada — não pode dar ao Kremlin o pretexto. Witkoff e Kushner vão a Kiev no domingo com o que ouviram em Moscou. O que trouxerem vai dizer se 2026 termina com cessar-fogo ou com mais um inverno de guerra", avalia.
Três dias sem ataques a Kiev: o gesto e seu limite
A ordem de Putin de suspender ataques à capital durante a visita é gesto diplomático calculado — protege os enviados e sinaliza controle —, mas não se estende ao resto do país: Chornomorsk, Odessa, Kamianske, Kherson, Sumy, Mykolaiv e Kharkiv foram atingidos no mesmo dia. É o padrão russo de "pausas" localizadas que não alteram a ofensiva — e que Kiev denuncia como encenação para a plateia americana.
Kamet Steel: o ataque à indústria
A siderúrgica de Kamianske, na região de Dnipro, pertence à Metinvest — do bilionário Rinat Akhmetov — e produz ferro-gusa e aço para uso civil; o míssil balístico matou cinco trabalhadores e paralisou a unidade, mais um golpe na base industrial ucraniana que a Rússia ataca sistematicamente: usinas de energia, refinarias, portos, ferrovias e fábricas. A Metinvest classificou como ataque à infraestrutura industrial; para Kiev, é crime de guerra contra alvo civil.
Portos de Odessa e Chornomorsk: o corredor do Mar Negro
Os portos do sul são a saída dos grãos ucranianos e a entrada de suprimentos — inclusive militares, segundo Moscou —; atacar navios em Chornomorsk e Odessa pressiona o corredor marítimo que a Ucrânia reabriu após o fim do acordo de grãos. A Rússia alega alvos militares; a Ucrânia e seguradoras registram risco crescente à navegação comercial.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o episódio dos aeroportos é revelador. "Os americanos pensaram em pousar em Kiev — coisa que ninguém faz desde 2022, porque o espaço aéreo está fechado e os russos atacam. Moscou respondeu bombardeando os dois aeroportos da capital na madrugada. É recado: não decidam por nós onde podem pousar. Zelensky leu certo e não respondeu com escalada — disse que ajusta operações e mantém a diplomacia. A Ucrânia precisa que Witkoff e Kushner cheguem a Kiev, de trem ou de avião, e vejam o que a Rússia faz enquanto negocia. A visita de domingo vale mais que a de sábado", observa.
Espaço aéreo fechado desde 2022
Desde 24 de fevereiro de 2022, nenhum voo civil opera na Ucrânia; líderes estrangeiros chegam a Kiev de trem a partir da Polônia — a rota que Biden, Macron e outros usaram. A cogitação de voo direto para os enviados americanos seria precedente e exigiria garantia russa; os ataques da madrugada eliminaram a hipótese e reforçaram a viagem por terra.
Zelensky: manter a diplomacia viva
Ao afirmar que "não há e não haverá ameaça à diplomacia" por parte de Kiev, Zelensky posiciona a Ucrânia como parte cooperativa diante de Washington — condição para manter apoio americano num governo Trump que já pressionou por concessões; ao mesmo tempo, anuncia ajustes nas operações contra o espaço aéreo russo, sinalizando que a resposta militar continua.
O que está na mesa
Cessar-fogo ao longo da linha de contato, status dos territórios ocupados — Crimeia, Donbass, partes de Zaporizhzhia e Kherson —, garantias de segurança à Ucrânia, sanções à Rússia e reconstrução: os termos que Witkoff discutiu com Putin em 2025 e que Kiev rejeitou em parte. A viagem dupla sugere proposta revisada, cujo conteúdo não foi divulgado.
Trump e a pressa
Trump prometeu encerrar a guerra rapidamente e, em 2026, cobra resultado dos enviados; a Casa Branca alterna pressão sobre Kiev e sobre Moscou, com sanções e ameaças de retirada de apoio. A ida de Kushner a Kiev é lida como tentativa de fechar um texto antes do inverno.
O que vem no domingo
Encontro de Witkoff e Kushner com Zelensky em Kiev, com o que ouviram de Putin; possível anúncio de rodada formal; e a reação do Kremlin ao fim dos três dias de pausa. A guerra, no quinto ano, chega a mais um momento de decisão.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o sábado de 5 de setembro é o retrato do que negociar com Moscou significa. "Pausa de três dias em Kiev, míssil em Kamianske, navios em Odessa, aeroportos bombardeados por causa de um plano de voo. Putin negocia com a mão no gatilho — e Trump manda genro e amigo, não diplomatas. A Ucrânia aceita porque não tem escolha; a Europa assiste. Se Witkoff e Kushner voltarem de Kiev com um texto, será o mais perto de paz desde 2022. Se voltarem com nada, o inverno russo vai cobrar. Cinco mortos numa siderúrgica civil no dia da chegada dos mediadores é o que a Rússia entende por boa-fé", analisa.
A chegada dos enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner a Moscou para negociações de paz entre Rússia e Ucrânia ocorreu em 5 de setembro de 2026, com viagem a Kiev prevista para 6 de setembro. No mesmo dia, ataques russos atingiram portos, aeroportos e a siderúrgica Kamet Steel, em Kamianske, onde cinco pessoas morreram.