Guerrilha mata dois soldados em ataque com drones na Colômbia
Ataque em Catatumbo deixou cinco feridos e levou a toque de recolher em Ocaña; Colômbia integra desde agosto o Escudo das Américas de Trump.
Guerrilha ataca guarnição militar na Colômbia com cerca de 20 drones carregados de explosivos e mata dois soldados em Ocaña; presidente De la Espriella culpa o ELN e promete "todo o peso do Estado" às vésperas de receber Marco Rubio
Um ataque de guerrilheiros com cerca de 20 drones contra uma guarnição militar no leste da Colômbia deixou ao menos dois soldados mortos e cinco feridos nesta sexta-feira (4), segundo as autoridades. O presidente Abelardo de la Espriella, que trava guerra aberta contra organizações ilegais com apoio dos Estados Unidos, responsabilizou o Exército de Libertação Nacional (ELN). "Digo ao ELN com absoluta clareza: por cada policial ou soldado que assassinarem, farei recair sobre vocês todo o peso e toda a força legítima do Estado", escreveu no X. O atentado ocorreu na região de Catatumbo, onde as forças de segurança realizam operações ofensivas por ordem do presidente — que na próxima semana recebe, em Barranquilla, o secretário de Estado americano, Marco Rubio. As informações são da Folha de S.Paulo.
Uma fonte do Exército na região afirmou à AFP que os guerrilheiros usaram pelo menos 20 drones carregados com explosivos. O prefeito de Ocaña, município onde fica a guarnição atacada, decretou toque de recolher noturno; vídeos nas redes sociais mostram estudantes de uma universidade deitados no chão das salas de aula, com o som das explosões ao fundo.
Catatumbo: a fronteira do ELN
Catatumbo, no departamento de Norte de Santander, na fronteira com a Venezuela, é uma das regiões mais violentas da Colômbia: concentra cultivos de coca, rotas de tráfico e a disputa entre o ELN e dissidências das Farc pelo controle do território. Desde janeiro de 2025, quando uma ofensiva do ELN contra as dissidências deixou dezenas de mortos e milhares de deslocados, a região vive sob estado de emergência. É lá que De la Espriella concentrou as operações ofensivas do primeiro mês de governo — e é lá que a guerrilha respondeu com a arma mais moderna de seu arsenal.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, os drones mudam a equação. "Vinte drones com explosivos contra uma guarnição é tática de Ucrânia aplicada por guerrilha andina. O ELN não tem aviação, mas tem drone comercial de R$ 5 mil com granada amarrada — e isso basta para matar soldado dentro do quartel. O presidente promete 'todo o peso do Estado'; o problema é que o peso do Estado colombiano nunca conseguiu tomar Catatumbo em 60 anos. Agora a guerrilha tem asa. A resposta militar vai vir, com apoio americano; a pergunta é se toque de recolher e bombardeio resolvem uma guerra que se tornou tecnológica", avalia.
De la Espriella: um mês de guerra
Prestes a completar o primeiro mês no cargo, De la Espriella intensificou bombardeios e operações terrestres contra as organizações ilegais — e fez questão de mostrar: apareceu caminhando entre cadáveres cobertos com mantas brancas em entrevistas coletivas e vídeos divulgados pela presidência para prestar contas das ações. É a estética da "mão dura" que o elegeu, em contraste com o governo anterior, de Gustavo Petro, que apostou na "paz total" com negociações simultâneas com todos os grupos armados — estratégia que fracassou e deixou o ELN mais forte.
Escudo das Américas: o apoio de Trump
De la Espriella conta com o apoio de Donald Trump para atacar as máfias da cocaína. Em agosto, a Colômbia passou a integrar o Escudo das Américas, aliança antidrogas liderada pelo presidente americano que reúne governos alinhados do continente e prevê cooperação militar, inteligência e operações conjuntas. A visita de Marco Rubio a Barranquilla na próxima semana é o selo dessa aliança — e o ataque de Ocaña, às vésperas, é a mensagem do ELN de que a guerra não vai ser vencida com fotos.
ELN: a guerrilha que sobreviveu
O Exército de Libertação Nacional, fundado em 1964 sob inspiração da Revolução Cubana, é a última grande guerrilha da Colômbia após a desmobilização das Farc em 2016. Com cerca de 6 mil combatentes, financia-se com tráfico, mineração ilegal e extorsão, opera dos dois lados da fronteira com a Venezuela — onde teve, sob Maduro, refúgio e tolerância — e negociou com todos os governos recentes sem chegar a acordo. A queda de Maduro, capturado por militares americanos, tirou do ELN o santuário venezuelano; a ofensiva de De la Espriella tira o espaço colombiano. A resposta é escalar.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o ataque expõe o custo da nova estratégia. "Petro negociou e o ELN cresceu. De la Espriella bombardeia e o ELN mata soldado com drone. Nenhuma das duas abordagens funcionou até agora, porque o problema não é o ELN — é a coca. Enquanto Catatumbo for a região com mais coca do mundo, vai haver quem lute por ela, com fuzil ou com drone. O Escudo das Américas é aliança militar; o que Catatumbo precisa é de estrada, escola e cultura que pague mais que a coca. Isso nenhum secretário de Estado traz na mala", observa.
A herança de Petro: a "paz total" que não veio
O governo de Gustavo Petro (2022-2026) apostou em negociar simultaneamente com o ELN, as dissidências das Farc e o Clã do Golfo, sob o rótulo de "paz total". As mesas abriram e fecharam sucessivas vezes; o cessar-fogo com o ELN, decretado em 2023, ruiu em 2024 após ataques da guerrilha, e a ofensiva de janeiro de 2025 em Catatumbo — com dezenas de mortos e mais de 50 mil deslocados — foi o golpe final. Petro suspendeu o diálogo e decretou emergência; o ELN saiu da negociação mais forte territorialmente do que entrou. Foi sobre esse fracasso que De la Espriella construiu a candidatura da mão dura — e é a ele que a guerrilha responde agora com drones.
Venezuela sem Maduro: o santuário que acabou
Por duas décadas, o ELN usou o território venezuelano como retaguarda — acampamentos, rotas de droga e mineração de ouro em Bolívar e Amazonas, com tolerância do governo chavista. A captura de Nicolás Maduro por militares americanos e a transição em Caracas, sob supervisão de Washington, fecharam esse refúgio ou, ao menos, o tornaram incerto. Uma guerrilha sem santuário externo tende a dois caminhos: negociar ou escalar dentro do país. O ataque de Ocaña sugere o segundo — e explica por que De la Espriella, com a Venezuela neutralizada, sente que pode apertar sem que o ELN escape pela fronteira.
Drones: a nova arma das guerrilhas
O uso de drones comerciais adaptados com explosivos, popularizado na guerra da Ucrânia, chegou à América Latina pelas mãos de cartéis mexicanos e, agora, de guerrilhas colombianas. São baratos, difíceis de detectar e permitem atacar posições fortificadas sem expor combatentes. As forças armadas colombianas, treinadas para combate na selva, têm defesa antidrone limitada — e o ataque a Ocaña, com 20 aparelhos simultâneos, mostra capacidade de coordenação que preocupa. A cooperação com os EUA deve incluir sistemas de interferência e detecção, tecnologia que Washington desenvolveu para o Oriente Médio.
Ocaña: a cidade sob toque de recolher
Ocaña, com cerca de 100 mil habitantes, é o centro urbano de Catatumbo e sede de universidade, hospital regional e da guarnição atacada. O toque de recolher noturno decretado pelo prefeito é medida que a cidade conhece: já foi adotada em 2025, durante a ofensiva do ELN contra as dissidências. Os vídeos de estudantes deitados no chão das salas ilustram o que a guerra significa para civis — a rotina interrompida pelo som de explosões a poucas quadras.
O que vem: Rubio em Barranquilla
A visita de Marco Rubio deve formalizar acordos de cooperação no âmbito do Escudo das Américas — possivelmente incluindo apoio de inteligência, equipamento antidrone e treinamento. Para De la Espriella, é a chance de mostrar resultado a Washington; para o ELN, o ataque de Ocaña foi a forma de mostrar que ainda está lá. A escalada é provável: o presidente prometeu resposta proporcional a cada morte, e a guerrilha demonstrou que tem meios de provocar mais.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Brasil deveria acompanhar de perto. "Catatumbo fica na fronteira com a Venezuela, que agora é território de transição sob influência americana. O ELN opera na Amazônia venezuelana e brasileira — garimpo ilegal em Roraima tem dedo de guerrilha colombiana. Se De la Espriella e Rubio apertarem Catatumbo, o ELN vai para onde há menos Estado, e o norte do Brasil é candidato. Drone com explosivo em quartel colombiano hoje é drone em base de garimpo em Roraima amanhã. O Escudo das Américas não inclui o Brasil; o problema que ele empurra, inclui", analisa.
O ataque à guarnição militar de Ocaña, em Norte de Santander, ocorreu na sexta-feira (4). O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, tem visita prevista a Barranquilla na semana seguinte.