Pular para o conteúdo
Conflitos

Pentágono submete 50 militares a polígrafo para caçar vazamento

Testes de agosto miram quem contou à imprensa que os EUA usaram "praticamente todo" o estoque de mísseis de precisão e grande parte dos Patriot e THAAD; Trump cobrou o secretário Hegseth.

Capa do artigo Pentágono submete 50 militares a polígrafo para caçar vazamento
— Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Pentágono submete 50 integrantes do Estado-Maior a polígrafo para caçar vazamentos sobre estoques de mísseis esgotados pela guerra com o Irã

Cerca de 50 integrantes do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos foram submetidos a testes de polígrafo em uma investigação sobre vazamentos de informações à imprensa, revelou o jornal The New York Times nesta sexta-feira (4). Militares e funcionários civis foram questionados sobre o repasse de dados classificados a jornalistas — em especial sobre a redução dos estoques de munições e mísseis do país provocada pela guerra contra o Irã. As informações foram reproduzidas pelo G1.

Segundo o NYT, os testes ocorreram em agosto, após uma série de reportagens revelar que o conflito havia consumido parcela significativa dos arsenais americanos, incluindo mísseis de longo alcance e interceptadores de defesa. A investigação busca identificar quem forneceu aos jornalistas informações consideradas sigilosas sobre a situação real dos estoques. O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, afirmou que o Departamento de Defesa não comenta questões internas relacionadas a funcionários ou investigações.

Uma medida incomum

O uso de polígrafo em escala dentro do Estado-Maior Conjunto — órgão que reúne entre 1.500 e 2 mil militares e funcionários civis e assessora o presidente e o secretário de Defesa — é descrito pelo NYT como medida incomum dentro do Pentágono. O detector de mentiras é utilizado rotineiramente em processos de credenciamento de segurança, mas raramente como instrumento de investigação interna sobre dezenas de oficiais de alto escalão ao mesmo tempo.

A escolha do método sinaliza a prioridade que a Casa Branca atribuiu ao caso — e o desconforto político causado pelas reportagens. Segundo o Washington Post, a revelação da baixa nos estoques irritou o presidente Donald Trump, que cobrou explicações do secretário de Guerra, Pete Hegseth; fontes disseram ao jornal que o presidente teria se sentido enganado ao conhecer a situação real dos arsenais.

Para , editor do portal, a reação revela mais sobre o governo do que sobre os vazamentos. "Quando o presidente descobre pela imprensa que o estoque de mísseis acabou, o problema não é o vazamento — é a cadeia de comando que não informou o presidente. O polígrafo em 50 oficiais é a resposta para a segunda pergunta, quem contou, quando a primeira, por que o presidente não sabia, é a que importa. Caçar o mensageiro é o reflexo clássico de quem não quer discutir a mensagem", avalia.

O que as reportagens revelaram

As informações que motivaram a investigação são substanciais. Segundo dados obtidos pela agência Reuters e um relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) publicados em agosto, os Estados Unidos utilizaram "praticamente todo" o estoque de mísseis de precisão de longo alcance durante a guerra contra o Irã — principalmente armas superfície-superfície do Exército, os Sistemas de Mísseis Táticos (ATACMS) e os Mísseis de Ataque de Precisão (PrSM).

Os dados do CSIS indicam ainda que o país usou grande parte do estoque de mísseis Patriot e THAAD, sistemas de interceptação de ataques balísticos, e cerca de um terço do estoque de mísseis Tomahawk, um dos principais armamentos de ataque de longo alcance das Forças Armadas americanas. São números que, somados, descrevem um arsenal reduzido em categorias consideradas críticas.

Por que os interceptadores são a maior preocupação

Entre todas as categorias afetadas, a que mais preocupa especialistas é a dos mísseis interceptadores — Patriot e THAAD —, responsáveis por repelir ataques com mísseis balísticos. Diferentemente de armamentos ofensivos, cuja escassez limita a capacidade de atacar, a falta de interceptadores limita a capacidade de defender território, bases e aliados.

Em entrevista ao G1 em agosto, Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, mestre em Ciências Militares, explicou a gravidade. "Essa é uma capacidade fundamental, porque esses mísseis são os únicos capazes de interceptar mísseis balísticos; por isso, trata-se de uma vulnerabilidade", afirmou. A produção desses sistemas é lenta e cara, e a reposição dos estoques consumidos em meses de guerra pode levar anos.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a informação vazada tem valor estratégico real — o que explica a reação. "Saber que os Estados Unidos estão com poucos Patriot e THAAD é informação que interessa a Teerã, a Moscou e a Pequim. Não é segredo por vaidade, é segredo por segurança. O problema é que, se os estoques estão de fato esgotados, esconder isso do Congresso e do público não repõe míssil nenhum. A investigação por polígrafo trata o sintoma; a reposição industrial trata a doença", observa.

A guerra com o Irã e o custo dos arsenais

A guerra contra o Irã, que domina a agenda de política externa americana em 2026, mobilizou operações de ataque e de defesa em escala que consumiu munições de precisão em ritmo superior ao que a base industrial de defesa consegue repor. É um fenômeno que analistas já haviam observado no apoio à Ucrânia — arsenais dimensionados para conflitos curtos se esgotam rapidamente em guerras prolongadas — e que agora atinge diretamente as reservas americanas.

A redução levanta dúvidas sobre a capacidade de resposta do país em eventuais conflitos futuros, especialmente em um cenário de múltiplas frentes. É essa vulnerabilidade, mais do que o vazamento em si, que transformou as reportagens de agosto em crise política.

O polígrafo: uma ferramenta contestada

O polígrafo registra variações fisiológicas — batimentos cardíacos, pressão arterial, respiração e condutividade da pele — enquanto a pessoa responde a perguntas, na premissa de que mentir provoca reações involuntárias mensuráveis. A comunidade científica questiona essa premissa há décadas: ansiedade, medo ou treinamento podem produzir os mesmos sinais, e a taxa de erro é alta o bastante para que a maioria dos tribunais americanos não aceite o resultado como prova.

Ainda assim, agências federais dos Estados Unidos — CIA, NSA, FBI e o próprio Pentágono — usam o exame rotineiramente na concessão e renovação de credenciais de segurança. Seu valor, na prática, é menos o de detectar mentiras e mais o de pressionar: submetido ao teste, o investigado tende a confessar ou a se contradizer. É esse efeito que o Estado-Maior busca ao aplicá-lo a 50 oficiais de uma vez.

Hegseth e a caça aos vazamentos: um padrão

A ofensiva contra vazamentos é marca da gestão de Pete Hegseth desde o início do governo. Em março de 2025, o Pentágono anunciou que usaria polígrafos em investigações internas sobre repasses não autorizados à imprensa — na mesma semana em que o próprio secretário se viu no centro do episódio conhecido como "Signalgate", quando planos de ataques no Iêmen foram compartilhados em um grupo do aplicativo Signal que incluía, por engano, um jornalista da revista The Atlantic. O contraste entre o rigor cobrado dos subordinados e a exposição de informação sensível pela cúpula alimentou críticas no Congresso.

Os testes de agosto no Estado-Maior Conjunto ampliam essa política a um órgão de elite, com oficiais de patente alta, em torno de um tema — os estoques de mísseis — que já é público em suas linhas gerais. O resultado, ao menos até agora, foi mais desconfiança interna do que recuperação de sigilo.

Trump, Hegseth e a crise de confiança

O episódio expõe uma fissura entre a Casa Branca e a cúpula militar. Trump cobrou Hegseth, o secretário de Guerra — denominação adotada pelo governo para o cargo de secretário de Defesa —, e a resposta do Pentágono foi investigar quem contou à imprensa, não revisar o que o presidente havia sido informado. A nomeação de um secretário interino para o Exército nesta semana, após crise entre o antecessor e Hegseth, é outro sinal de turbulência na estrutura de comando.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o caso tem lição para além dos Estados Unidos. "Todo país com Forças Armadas relevantes enfrenta a mesma tensão: quanto o público pode saber sobre a capacidade real de defesa. Os Estados Unidos decidiram que a resposta é polígrafo em 50 oficiais. Mas a informação já está pública — o CSIS publicou, a Reuters publicou. O que resta é a discussão que o governo tentou evitar: se a guerra com o Irã esgotou o arsenal, quanto vai custar e quanto tempo vai levar para repô-lo. Essa é a pergunta que o polígrafo não responde", analisa.

O New York Times não informou se os testes identificaram os responsáveis pelos vazamentos nem se houve punições. O Pentágono mantém a posição de não comentar investigações internas.

Fontes e referências

Leia também