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Conflitos

Presidente da Colômbia exibe 23 corpos em vídeo para celebrar operação contra guerrilha

Juiz mandou suspender bombardeios em Guaviare quando houver menores recrutados; forense achou três adolescentes entre mortos de ataque que matou 33 dissidentes das Farc.

Capa do artigo Presidente da Colômbia exibe 23 corpos em vídeo para celebrar operação contra guerrilha
— Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Presidente da Colômbia exibe 23 corpos em vídeo para celebrar operação contra guerrilha: "Aos bandidos restam a rendição total ou a morte em combate", diz Abelardo de la Espriella

O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, publicou em suas redes sociais vídeos em que comemora operações contra grupos armados enquanto caminha diante de corpos enfileirados e cobertos. Em gravação divulgada na quinta-feira (3), o governante de direita aparece ao lado de 23 corpos que, segundo o governo, seriam de integrantes de grupos guerrilheiros mortos em operação das forças de segurança. "Acabaram os salvo-condutos e os jogos de congelamento do regime anterior. Aos bandidos restam a rendição total ou a morte em combate", escreveu. As informações são do g1.

Nesta sexta-feira (4), De la Espriella divulgou nova gravação, durante entrevista coletiva sobre a Operação Sentinela da Pátria, em que celebra a morte de Naím, conhecido como "Bendito Menor", descrito por ele como "um dos criminosos mais perigosos do país". Mais uma vez, corpos cobertos aparecem enfileirados diante do presidente enquanto ele exalta a atuação das forças de segurança.

Um mês de governo, linha-dura declarada

De la Espriella assumiu a presidência em 7 de agosto, com apoio explícito do presidente americano Donald Trump, e impôs desde o primeiro dia a linha-dura no enfrentamento das máfias do narcotráfico e dos grupos armados, com bombardeios letais contra acampamentos guerrilheiros. É a ruptura com a política de "paz total" do governo anterior, de Gustavo Petro, que apostava em negociações simultâneas com as várias facções e em cessar-fogos — os "jogos de congelamento" a que o novo presidente se refere com desprezo.

O governo enfrenta críticas duras de parte da oposição e de organizações de direitos humanos, que apontam a exibição de corpos como violação da dignidade dos mortos e como propaganda de uma política de força que ignora o devido processo. Para o New York Times, o vídeo foi "uma expressão especialmente crua de uma tática política cada vez mais visível em todo o continente americano: líderes que fazem campanha com base na aplicação da lei e na manutenção da ordem, utilizando imagens de supostos criminosos como uma demonstração do poder do Estado".

Para , editor do portal, a encenação é o ponto. "Um presidente caminhando entre 23 corpos cobertos, filmado para as redes, não está informando: está performando. É a estética que Bukele consagrou em El Salvador com os presos enfileirados, e que se espalhou pelo continente — Equador, Argentina, agora Colômbia. Funciona eleitoralmente porque a população está exausta de violência. O custo aparece depois: quando o forense diz que três dos mortos tinham 15 anos", avalia.

Guaviare: os adolescentes entre os mortos

Na quinta-feira, um juiz colombiano determinou que o governo suspenda os bombardeios contra acampamentos da guerrilha quando houver informação sobre a presença de menores recrutados. A ordem se aplica ao departamento amazônico de Guaviare, onde De la Espriella ordenou recentemente dois ataques aéreos que mataram ao menos 33 dissidentes da extinta guerrilha das Farc. No domingo, a autoridade forense informou que entre os mortos da primeira operação havia três menores, de 15 e 16 anos. Ainda não se sabe se havia menores entre as vítimas da mais recente.

O recrutamento de crianças e adolescentes pelos grupos armados é um dos crimes mais documentados do conflito colombiano — e um dos argumentos centrais de quem se opõe aos bombardeios: o acampamento guerrilheiro que a aeronave atinge frequentemente abriga menores forçados a estar ali. O direito internacional humanitário exige distinguir combatentes de civis e proíbe ataques cujo dano a civis seja desproporcional ao ganho militar; a decisão judicial de Guaviare aplica esse princípio ao caso concreto.

Dissidências das Farc: quem são

As Farc, a maior guerrilha da Colômbia, assinaram acordo de paz com o governo em 2016, após cinco décadas de conflito, e se desmobilizaram — em sua maioria. Facções que rejeitaram o acordo, ou que o abandonaram depois, formaram as "dissidências": grupos armados que controlam rotas de cocaína, mineração ilegal e extorsão em regiões amazônicas e de fronteira, entre elas Guaviare, Caquetá e Putumayo. Somadas ao ELN, a guerrilha que nunca se desmobilizou, e ao Clã do Golfo, maior organização narcotraficante do país, compõem o mapa da violência que De la Espriella promete eliminar pela força.

O apoio de Trump

A eleição de De la Espriella e sua política de força têm o respaldo de Washington. O governo Trump, que classificou cartéis latino-americanos como organizações terroristas e pressiona os países da região a endurecer o combate ao narcotráfico, vê no presidente colombiano um aliado — em contraste com a relação tensa que manteve com Petro. Cooperação militar, inteligência e recursos antidrogas fluem com mais facilidade; o custo, para a Colômbia, é o alinhamento a uma agenda que prioriza resultados visíveis — mortos, capturas, toneladas apreendidas — sobre processos de longo prazo.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a Colômbia repete um ciclo conhecido. "O país já viveu isso com Uribe nos anos 2000: guerra total contra as Farc, apoio americano, queda da violência — e o escândalo dos 'falsos positivos', milhares de civis executados e apresentados como guerrilheiros mortos em combate para inflar estatísticas. A exibição de corpos hoje ecoa exatamente aquele incentivo: quanto mais mortos, mais sucesso. A Justiça colombiana lembra disso; por isso o juiz de Guaviare agiu. A pergunta é se o presidente vai obedecer", observa.

A reação das instituições

A decisão judicial de suspender bombardeios com menores presentes é a primeira barreira institucional à política de De la Espriella. A Colômbia tem um Judiciário historicamente independente — a Corte Constitucional derrubou medidas de vários presidentes — e uma Procuradoria e uma Defensoria com mandato de direitos humanos. A oposição no Congresso, minoritária, aposta nessas instituições para conter o Executivo; o governo, por sua vez, tem a popularidade de um presidente recém-eleito com mandato para "acabar com a bagunça". O choque entre os dois deve definir os próximos meses.

Petro e a "paz total": o que ficou para trás

A política que De la Espriella chama de "regime anterior" foi a "paz total" de Gustavo Petro, presidente de 2022 a 2026 e primeiro esquerdista a governar a Colômbia. A proposta era negociar simultaneamente com todos os grupos armados — ELN, dissidências das Farc, Clã do Golfo e gangues urbanas —, com cessar-fogos bilaterais e "salvo-condutos" para líderes participarem de diálogos. O resultado foi amplamente considerado um fracasso: as negociações com o ELN foram suspensas após ofensivas da guerrilha na região do Catatumbo, as dissidências se fragmentaram e cresceram, os cessar-fogos foram violados repetidamente e a produção de cocaína atingiu recordes históricos. A eleição de De la Espriella foi, em larga medida, o voto contra esse balanço.

Sentinela da Pátria e "Bendito Menor"

A Operação Sentinela da Pátria, apresentada na coletiva de sexta-feira, é a marca da nova doutrina: ofensiva militar coordenada, com uso de força aérea, contra estruturas de comando dos grupos armados. A morte de Naím, o "Bendito Menor", é vendida como troféu — um dos "criminosos mais perigosos do país", nas palavras do presidente. A tática de eliminar líderes, chamada de "decapitação", tem histórico ambíguo na Colômbia: a morte de comandantes das Farc nos anos 2000 enfraqueceu a guerrilha e a levou à mesa de negociação, mas a mesma estratégia contra cartéis produziu fragmentação em dezenas de grupos menores, mais violentos e mais difíceis de combater. Qual dos dois efeitos prevalecerá em 2026 é a aposta em curso.

Um padrão continental

A observação do New York Times aponta para uma tendência: da "guerra às gangues" de Nayib Bukele em El Salvador, com prisões em massa e imagens de detentos em fileiras, ao decreto de "conflito armado interno" de Daniel Noboa no Equador, passando pela retórica de Javier Milei na Argentina, líderes latino-americanos eleitos com discurso de ordem exibem a força do Estado como espetáculo. A eficácia contra a criminalidade varia — El Salvador reduziu drasticamente homicídios; o Equador não —, mas o apelo eleitoral é consistente, e é ele que De la Espriella explora.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o dilema colombiano não tem saída fácil. "A paz total de Petro não trouxe paz — as dissidências cresceram, o ELN não desmobilizou, a cocaína bateu recorde. A guerra total de De la Espriella pode reduzir a violência no curto prazo, como a de Uribe reduziu. O problema é o preço: adolescentes mortos em bombardeio, corpos como troféu, e uma Justiça que precisa frear o presidente a cada semana. O eleitor colombiano escolheu a força. O que ele ainda não viu é a conta", analisa.

A ordem judicial que suspende bombardeios em Guaviare na presença de menores está em vigor e pode ser contestada pelo governo. As operações militares contra grupos armados em outras regiões da Colômbia continuam.

Fontes e referências

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