Trump diz que a guerra no Irã é "fichinha" para os Estados Unidos e defende Vance
Vice-presidente disse "não sei, pergunte aos iranianos" sobre quando o conflito termina; Trump comparou com o Vietnã — "perdemos 100 mil homens" — e errou: foram pouco menos de 60 mil.
Trump diz que a guerra no Irã é "fichinha" para os Estados Unidos e defende Vance, que se recusou a chamá-la de guerra: "Eu chamo de conflito militar, porque é fichinha pra nós, não é lá grande coisa" — seis meses depois de prometer que duraria no máximo seis semanas, o conflito soma 18 americanos e ao menos 3 mil iranianos mortos, US$ 37,5 bilhões gastos, nenhuma negociação em curso e o estoque de urânio enriquecido a 60% de Teerã intacto
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta sexta-feira (4 de setembro) que a guerra no Irã é insignificante para seu país e defendeu seu vice-presidente, J. D. Vance, que se recusou a descrever o conflito como uma guerra. "Entendo o que ele quis dizer", afirmou Trump em conversa com jornalistas na Casa Branca. "Eu chamo de 'conflito militar', porque é fichinha pra nós. Não é lá grande coisa." Pelo menos 3.000 iranianos e 18 americanos morreram desde o início da guerra, que também custou mais de US$ 37,5 bilhões aos Estados Unidos. As informações são da Folha.
Na quinta (3), Vance havia dito, quando questionado sobre o fim do conflito, "não sei" e "pergunte aos iranianos": "Quando você pergunta 'quando isso vai acabar', você está me fazendo uma pergunta que é 'quando os iranianos vão parar de atirar em navios no estreito de Ormuz?'. Acho que a realidade é que eu não sei a resposta, pergunte aos iranianos". Quando deu início à guerra ao bombardear o Irã e matar suas lideranças políticas em conjunto com Israel, em fevereiro, Trump disse que o conflito duraria no máximo seis semanas; no último dia 28, a guerra completou seis meses sem negociações em curso para novo cessar-fogo ou outro horizonte para o fim das hostilidades. "A gente fez a Venezuela e a gente fez isso", disse Trump nesta sexta. "Na Venezuela, não perdemos ninguém", afirmou, em referência à invasão que capturou o ditador Nicolás Maduro. "Agora, perdemos 18 homens. Na Guerra do Vietnã, perdemos 100 mil homens. Em outros conflitos, foram dezenas de milhares." Na verdade, pouco menos de 60 mil militares americanos foram mortos no Vietnã, além de ao menos 2 milhões de civis vietnamitas e quase 1,5 milhão de soldados. Questionado sobre chamar a guerra de "fichinha" mesmo com a morte de 18 militares, Trump defendeu a decisão de entrar no conflito dizendo que o Irã não pode ter uma arma nuclear. O dano ao programa atômico iraniano não está claro, mas o estoque de urânio enriquecido a 60% permanece intacto — material que ainda não está no nível necessário para uma bomba, acima de 90%, mas supera em mais de 50 pontos percentuais o exigido para uso civil.
Seis semanas que viraram seis meses: a guerra que Trump não consegue encerrar
A campanha aérea lançada em fevereiro, com Israel, matou o líder supremo do Irã e boa parte da cúpula da Guarda Revolucionária, destruiu instalações militares e parte da infraestrutura nuclear e foi apresentada por Trump como operação curta e decisiva — "seis semanas no máximo"; o que se seguiu foi a resposta assimétrica que analistas previam: ataques a navios e petroleiros no Estreito de Ormuz, mísseis contra bases americanas no Golfo, drones sobre Israel, mobilização de aliados no Iraque, no Líbano e no Iêmen, e um governo iraniano descentralizado que não tem com quem negociar e não quer parar. O custo — US$ 37,5 bilhões, um quarto do estoque de mísseis Tomahawk consumido, 18 mortos, petróleo e fertilizante caros no mundo inteiro — é o que Trump chama de "fichinha", e a comparação com o Vietnã, ainda que com o número errado, revela o critério: uma guerra só é guerra quando mata dezenas de milhares de americanos. Vance, ao responder "pergunte aos iranianos", admitiu o que a Casa Branca evita dizer: os Estados Unidos não controlam quando o conflito termina, porque o objetivo — impedir a bomba — não foi alcançado enquanto o urânio a 60% existir, e não há governo em Teerã com autoridade para entregar o estoque. A guerra segue sem cessar-fogo, sem negociação e sem nome oficial; e a eleição de meio de mandato, em novembro, pressiona o presidente a encerrá-la ou a explicá-la — o que ele tentou nesta sexta, minimizando.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a palavra "fichinha" vai perseguir Trump. "Dezoito famílias americanas enterraram filhos numa guerra que o presidente chama de fichinha e o vice não sabe quando acaba. Três mil iranianos mortos, o Golfo em chamas, o petróleo e o fertilizante caros do Brasil à Índia — fichinha. Trump prometeu seis semanas; são seis meses, e o urânio a 60% que justificou tudo continua lá. É o padrão de todas as guerras 'fáceis': a entrada é triunfal, a saída não existe. Vance, o mais franco, disse a verdade — 'pergunte aos iranianos' — e foi corrigido pelo chefe. O portal registra a frase e o número: US$ 37,5 bilhões e um quarto dos Tomahawks gastos numa guerra sem nome. O Brasil, que paga o diesel e a ureia mais caros por causa dela, sabe que não é fichinha", avalia.
Vance: "não sei, pergunte aos iranianos"
A resposta do vice-presidente na quinta, ao se recusar a chamar o conflito de guerra e a estimar seu fim, foi lida como admissão de que a iniciativa está com Teerã — enquanto o Irã atacar navios em Ormuz, os Estados Unidos responderão; Trump, ao defendê-lo, adotou a mesma nomenclatura — "conflito militar" — que evita a autorização do Congresso exigida para uma guerra.
Os números: 18, 3.000, US$ 37,5 bilhões
Dezoito militares americanos mortos em ataques com mísseis e drones a bases no Golfo e a navios; ao menos 3.000 iranianos, entre militares e civis, segundo contagens independentes — o governo iraniano fala em mais; US$ 37,5 bilhões em operações, munições e reposição, com um quarto do arsenal de Tomahawks consumido, segundo o Pentágono.
Vietnã: a comparação errada
Trump falou em 100 mil americanos mortos; o número oficial é 58.220. A comparação, além de imprecisa, expõe o critério do presidente: guerras se medem por baixas americanas, não por objetivos alcançados — e, por esse critério, o Irã seria "fichinha" mesmo com o programa nuclear intacto.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o urânio a 60% é o fato que desmonta o discurso. "Trump foi à guerra para impedir a bomba iraniana. Seis meses depois, o estoque de urânio a 60% — a poucos passos técnicos dos 90% de uma bomba — está intacto, e não há governo em Teerã com quem negociar sua entrega, porque os Estados Unidos mataram quem mandava. A guerra atingiu o objetivo de destruir a liderança e falhou no objetivo declarado de eliminar o programa. 'Fichinha' é o que se diz quando não se pode dizer 'vitória'. E Ormuz, por onde passa o petróleo do mundo, segue sob fogo — o que o Brasil sente no diesel, no querosene e no fertilizante que importa. O portal registra a frase de Vance como a mais honesta da semana", observa.
Venezuela como modelo: "não perdemos ninguém"
A captura de Nicolás Maduro em janeiro, em operação relâmpago sem baixas americanas, é o padrão que Trump invoca — e que o Irã, com 90 milhões de habitantes, exército, mísseis e aliados regionais, não repete; a comparação entre as duas operações revela a expectativa da Casa Branca em fevereiro e a frustração de setembro.
Ormuz: a guerra que o mundo paga
Ataques iranianos a petroleiros e navios de carga no estreito mantêm o frete e o seguro em níveis recordes, o petróleo acima de US$ 100 em vários momentos e o fertilizante nitrogenado caro; a Marinha americana escolta comboios, mas não eliminou a ameaça — é o mecanismo pelo qual, nas palavras de Vance, "os iranianos" decidem quando termina.
Sem cessar-fogo: por que não há negociação
Um cessar-fogo de curta duração em abril ruiu; desde então, não há mediador aceito — Omã e Catar tentaram —, o governo iraniano é fragmentado entre facções da Guarda Revolucionária e clérigos, e os Estados Unidos exigem a entrega total do urânio enriquecido como condição. Israel prefere a continuidade dos ataques. O impasse não tem data.
O Congresso e o nome da guerra
Chamar o conflito de "operação militar" evita a Resolução de Poderes de Guerra, que exige autorização do Congresso para hostilidades prolongadas; democratas e alguns republicanos cobram votação, e a eleição de novembro pode mudar a maioria da Câmara — o que tornaria a nomenclatura de Vance e Trump uma questão constitucional.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a fala de Trump é um documento da era. "Um presidente que mede guerra em cadáveres americanos, erra o número do Vietnã, chama de fichinha o que custou US$ 37,5 bilhões e admite, pelo vice, que não sabe como acabar. O objetivo — o urânio — continua onde estava. É a guerra sem fim que todos os presidentes americanos juraram não repetir depois do Iraque. O portal, que acompanha porque o Brasil paga a conta no combustível e no adubo, registra: seis meses, 18 mortos, nenhum plano. Fichinha para quem não enterra ninguém", analisa.
As declarações de Donald Trump sobre a guerra no Irã — "é fichinha pra nós" — foram dadas a jornalistas na Casa Branca em 4 de setembro de 2026 e noticiadas pela Folha; o conflito, iniciado em fevereiro em conjunto com Israel, completou seis meses em 28 de agosto, com 18 militares americanos e ao menos 3.000 iranianos mortos e custo superior a US$ 37,5 bilhões.