Embaixada dos EUA em Havana emite alerta de saúde para Cuba
Apagões de dias impedem refrigeração de alimentos e abastecimento de água; especialistas da ONU alertam para "crise generalizada" e risco de surtos, enquanto Washington diz buscar mudança de regime.
Embaixada dos EUA em Havana emite alerta de saúde para Cuba: aumento de diarreia e doenças intestinais após nove meses de bloqueio de combustíveis imposto por Trump; ONU classifica sanção como violação do direito internacional
A Embaixada dos Estados Unidos em Havana emitiu nesta sexta-feira (4) um alerta de saúde para Cuba, advertindo viajantes e moradores sobre um aumento de doenças intestinais e casos de diarreia provocados por problemas no abastecimento de água e de energia elétrica. O alerta ocorre nove meses depois de o governo Trump impor um bloqueio ao fornecimento de combustíveis à ilha — medida que ampliou os apagões, dificultou a refrigeração de alimentos e comprometeu as condições sanitárias em residências e comércios. As informações são do g1.
"A Embaixada dos Estados Unidos observou um aumento significativo de doenças diarreicas em Cuba, associado à contínua deterioração da infraestrutura de água e energia", diz o documento. "Essa deterioração afeta o abastecimento de água, assim como o armazenamento de alimentos e o controle de temperatura." A recomendação é ter "cuidado com alimentos perecíveis que possam ter sido armazenados de forma inadequada" e evitar "alimentos que pareçam ter permanecido em temperatura ambiente por longos períodos".
O paradoxo do alerta
O aviso tem um elemento incomum: é o governo americano alertando para uma crise sanitária que suas próprias sanções ajudaram a produzir. O bloqueio de combustíveis, imposto há nove meses, é a razão direta dos apagões que impedem a refrigeração de alimentos e o bombeamento de água — e a embaixada, ao descrever a "deterioração da infraestrutura de água e energia", descreve o efeito da política de Washington. O governo Trump sustenta que as sanções são necessárias para forçar uma mudança no governo cubano e classificou a ilha como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o documento é uma confissão involuntária. "A embaixada americana está dizendo, em papel timbrado, que a população cubana está adoecendo porque não tem energia para gelar comida e bombear água. E a razão de não ter energia é o bloqueio de combustível decidido em Washington. Não é acusação de Havana nem relatório de ONG — é o próprio Departamento de Estado descrevendo a consequência. O alerta protege o turista americano; o cubano que ele descreve não tem para onde ir", avalia.
Nove meses de bloqueio
A restrição ao envio de combustíveis, imposta no fim de 2025, atingiu a fonte de energia de que Cuba mais depende: as termelétricas a óleo, antigas e sem manutenção, que já operavam no limite, e os geradores a diesel que sustentam hospitais, bombas d'água e comércios durante os cortes. Sem importação — historicamente da Venezuela, do México e, em menor escala, de outros fornecedores que as sanções secundárias afastaram —, o sistema elétrico entrou em colapso progressivo: apagões que duram dias tornaram-se comuns, inclusive em Havana.
Calor, comida e água
Durante o verão quente e abafado do Caribe, dormir sem ar-condicionado ou ventilador é frequentemente impossível, e conservar alimentos sem refrigeração, também. Moradores de diferentes regiões relatam há meses doenças generalizadas — vários dias de diarreia, febre e dores no corpo, deixando muitos de cama. A cadeia é simples: sem energia, a geladeira desliga; a carne, o leite e os ovos estragam; a água encanada, dependente de bombas elétricas, para de chegar e é substituída por reservas armazenadas em condições precárias. O resultado são infecções intestinais bacterianas e virais, que atingem com mais gravidade crianças, idosos e doentes crônicos.
A ONU: violação do direito internacional
Especialistas independentes em direitos humanos nomeados pela ONU classificaram o bloqueio de combustíveis como violação do direito internacional. Em agosto, um grupo de relatores alertou para o risco crescente de surtos de doenças na ilha à medida que os Estados Unidos intensificam as sanções: "As consequências humanitárias já estão se transformando em uma crise generalizada, ameaçando os direitos à saúde, à vida, à alimentação e ao desenvolvimento". A Assembleia Geral da ONU condena o embargo americano a Cuba, por votação quase unânime, todos os anos desde 1992 — o bloqueio de combustíveis de 2025 é o capítulo mais duro dessa política em décadas.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a sanção mudou de natureza. "O embargo americano sempre foi econômico: restringe comércio, crédito, turismo. O bloqueio de combustível é diferente — ataca a infraestrutura básica de que a vida depende. É a diferença entre empobrecer um país e adoecê-lo. Os relatores da ONU usaram a palavra 'crise generalizada' em agosto; a embaixada americana usou 'aumento significativo de doenças' em setembro. Os dois estão descrevendo a mesma coisa de lados opostos. O que falta é alguém em Washington perguntar se a mudança de regime vale uma epidemia", observa.
Cuba antes do bloqueio: já em crise
A ilha já vivia sua pior crise econômica desde os anos 1990 antes do bloqueio de combustíveis. A pandemia devastou o turismo, principal fonte de divisas; a reforma monetária de 2021 gerou inflação e escassez; a emigração atingiu níveis históricos, com centenas de milhares de cubanos deixando o país em poucos anos; e o sistema elétrico, sem investimento, já produzia apagões regulares. O bloqueio de 2025 encontrou, portanto, uma estrutura sem reserva — e a levou ao ponto de ruptura sanitária que o alerta descreve.
Mudança de regime: o objetivo declarado
O governo Trump não esconde a finalidade: as sanções, diz, existem para forçar uma mudança no governo cubano — objetivo perseguido pelos Estados Unidos desde a revolução de 1959. A estratégia de "pressão máxima", aplicada também à Venezuela e ao Irã, aposta em que o sofrimento econômico gere revolta interna e colapso do regime. Em Cuba, sessenta anos de embargo não produziram esse resultado; críticos argumentam que a pressão fortalece o discurso do governo cubano, que atribui toda carência ao "bloqueio", e penaliza a população sem alcançar a cúpula.
Turismo: a divisa que some
O turismo é, desde os anos 1990, a principal fonte de moeda estrangeira de Cuba — mais que o açúcar, o níquel ou o tabaco. A pandemia derrubou o setor, a recuperação foi lenta, e os apagões de 2026 afetam diretamente os hotéis, que dependem de geradores a diesel para manter ar-condicionado, cozinha e água nos quartos. Um alerta de saúde da embaixada americana, somado aos avisos de viagem de Canadá e Europa que costumam segui-lo, reduz ainda mais o fluxo — e, com ele, a capacidade do país de importar o próprio combustível que falta. É o ciclo que a sanção fecha: sem energia não há turismo, sem turismo não há divisa, sem divisa não há energia.
Hospitais sem energia
O sistema de saúde cubano, historicamente apresentado como conquista do regime, opera hoje em condições precárias: falta de medicamentos básicos, êxodo de médicos e enfermeiros, equipamentos parados. Os apagões agravam o quadro — hospitais dependem de geradores a diesel, e o diesel é exatamente o que o bloqueio restringe. Cirurgias adiadas, vacinas sem refrigeração adequada e diálises interrompidas são relatos que chegam de várias províncias. Um surto de doenças diarreicas em população sem acesso a soro, antibiótico e água limpa é o cenário que os relatores da ONU descreveram em agosto como risco e que a embaixada americana agora registra como fato.
O que o alerta muda
Alertas de saúde de embaixadas são orientações a cidadãos americanos — viajantes, diplomatas, residentes — e não têm efeito sobre a política de sanções. Na prática, o documento desencoraja viagens à ilha e recomenda precauções alimentares e de hidratação. Para Cuba, o efeito é reputacional e econômico: menos turistas americanos e de outros países que seguem os avisos de Washington, e mais dificuldade para o setor que ainda gera divisas.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Brasil tem papel a cumprir. "O Brasil tem relação diplomática com Cuba, tem tradição de cooperação médica com a ilha — os cubanos do Mais Médicos — e tem voz na ONU. Uma crise sanitária no Caribe causada por sanção é o tipo de situação em que a diplomacia brasileira historicamente se posiciona: ajuda humanitária, combustível, remédios, pressão pelo fim do bloqueio. Não é tomar partido do regime; é não deixar 11 milhões de pessoas adoecerem por uma disputa de 60 anos. O alerta americano abre a porta para essa conversa", analisa.
O alerta de saúde da Embaixada dos Estados Unidos em Havana permanece em vigor. O governo cubano não se manifestou sobre o documento até a última atualização; o bloqueio americano ao fornecimento de combustíveis à ilha segue mantido.