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Holanda tira 86 toneladas de ouro dos EUA e do Canadá e manda a Londres

Operação entre março e agosto combinou venda de 59 toneladas em Nova York e transporte de 27 toneladas; reservas seguem em 612,4 toneladas.

Capa do artigo Holanda tira 86 toneladas de ouro dos EUA e do Canadá e manda a Londres
— Foto: Alchemist-hp (talk) www.pse-mendelejew.de / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 de)

Holanda tira 86 toneladas de ouro dos Estados Unidos e do Canadá e manda para Londres "de olho na instabilidade geopolítica": Banco da Inglaterra passa a guardar 32,1% das reservas holandesas, mais que os próprios Países Baixos, e a fatia em Nova York cai de 31% para 18,5% — banco central diz que o ouro em Londres é "o mais facilmente negociável do mundo" e reforça plano de contingência para crises

O Banco Central da Holanda, o DNB, informou na quarta-feira (2 de setembro) que transferiu cerca de 86 toneladas de ouro da América do Norte para Londres ao longo dos últimos seis meses, com o objetivo de estar mais bem preparado para uma eventual crise. O volume equivale a 27,5% do ouro que o banco mantinha em Nova York, nos Estados Unidos, e em Ottawa, no Canadá, e foi movido para os cofres do Banco da Inglaterra, que passa a custodiar 32,1% das reservas holandesas — mais do que os 30,8% guardados nos próprios Países Baixos. A operação não alterou o total das reservas, que permanece em 612,4 toneladas. As informações são do G1.

"Tendo em vista a crescente instabilidade geopolítica, o DNB está reforçando seu plano de contingência para crises", afirmou o banco. "O ouro mantido no Banco da Inglaterra é considerado o ouro mais facilmente negociável do mundo e, portanto, será o mais prontamente disponível em uma situação de crise." A parcela das reservas armazenada em Nova York caiu de pouco mais de 31% para 18,5%; no Canadá, de 19,7% para 18,5%; o Banco da Inglaterra subiu de 18,1% para 32,1%. A transferência, feita entre março e agosto, combinou a venda de 59 toneladas em Nova York e o transporte físico de 27 toneladas da América do Norte para os Países Baixos. "Uma distribuição mais equilibrada das reservas de ouro entre a América do Norte, o Reino Unido e os Países Baixos ajuda a diversificar os riscos", acrescentou o banco. O movimento assemelha-se ao do Banco da França, que retirou 129 toneladas de Nova York e as guardou em Paris.

Por que o ouro dos países fica em Nova York — e por que está saindo

Desde a Segunda Guerra, bancos centrais europeus guardam parte de suas reservas nos cofres do Federal Reserve de Nova York — o maior depósito de ouro do mundo, com milhares de toneladas de dezenas de países —, por segurança contra invasões e para facilitar liquidações em dólar; a Alemanha, a Holanda, a Itália e a França mantiveram ali fatias grandes por décadas. A repatriação começou nos anos 2010 — a Alemanha trouxe 674 toneladas de Nova York e Paris entre 2013 e 2017, a Holanda repatriou 122 toneladas em 2014 — e ganhou motivação nova em 2025 e 2026: a imprevisibilidade da política americana sob Donald Trump, as tarifas contra aliados, o questionamento da independência do Fed e o temor de que, numa crise, o acesso ao ouro custodiado nos Estados Unidos pudesse ser dificultado. A escolha de Londres, e não de Amsterdã, responde à liquidez: o Banco da Inglaterra é o centro do mercado de ouro físico, onde barras trocam de mãos sem sair do cofre — o lugar onde um país vende ouro numa madrugada de crise.

Para , editor do portal, o comunicado do DNB diz o que diplomatas não dizem. "Um banco central europeu, de país da Otan, aliado histórico dos Estados Unidos, decide que seu ouro está mais seguro e mais líquido em Londres do que em Nova York — e escreve 'instabilidade geopolítica' na nota. A França fez o mesmo. Não é rompimento; é seguro. A Holanda não acha que os Estados Unidos vão confiscar ouro holandês; acha que, se precisar vender 50 toneladas às três da manhã porque a Rússia fez alguma coisa no Báltico, quer o ouro onde o mercado está e onde a decisão política é previsível. Em 2026, isso é Londres, não Nova York. É um voto de desconfiança discreto e caro — e é o tipo de sinal que o Brasil, que guarda suas reservas em dólar e títulos americanos, deveria observar", avalia.

612,4 toneladas: o ouro holandês

A Holanda tem a nona ou décima maior reserva de ouro do mundo, herdada dos séculos de comércio e do padrão-ouro; o metal responde por parcela relevante das reservas internacionais do país, ao lado de moedas e títulos. A distribuição agora — 32,1% em Londres, 30,8% em Amsterdã, 18,5% em Nova York, 18,5% em Ottawa — é a mais equilibrada de sua história recente.

Venda em Nova York, transporte para Amsterdã: a mecânica

Mover ouro físico é caro e arriscado — aviões, seguros, segurança —; por isso, o DNB vendeu 59 toneladas em Nova York e comprou volume equivalente em Londres, transferindo a posição sem transporte, e só moveu fisicamente 27 toneladas para os Países Baixos. É a prática usual dos bancos centrais para reposicionar reservas sem alarde.

França: as 129 toneladas de Paris

O Banco da França repatriou de Nova York 129 toneladas ao longo dos últimos anos, num movimento anunciado com discrição; a França já guarda em Paris a maior parte de suas 2.437 toneladas. Alemanha e Itália, com reservas maiores, mantêm fatias em Nova York e são observadas pelo mercado como as próximas a se mover.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o ouro conta a história de 2026 melhor que os discursos. "O metal bateu recorde atrás de recorde desde 2024, bancos centrais de China, Índia, Polônia e Turquia compram toneladas por mês, e agora os europeus mudam o ouro de cofre. Todos pelo mesmo motivo: o dólar e os Estados Unidos deixaram de ser o porto seguro incondicional. Não é o fim do dólar — é o fim da certeza. A Holanda ainda deixa 18,5% em Nova York; não fugiu, diversificou. Para quem lê de Brasília, a lição é que reserva internacional também tem geografia, e a geografia mudou", observa.

Alemanha: a repatriação que abriu o caminho

O Bundesbank transferiu 674 toneladas de ouro — 300 de Nova York e 374 de Paris — para Frankfurt entre 2013 e 2017, sob pressão de parlamentares e do Tribunal de Contas alemão, que exigiam auditoria física das reservas; foi a maior operação de repatriação da história e estabeleceu o precedente de que aliados podem retirar ouro dos Estados Unidos sem crise diplomática. A Alemanha ainda mantém cerca de 1.200 toneladas em Nova York, e o debate sobre trazê-las voltou à imprensa alemã em 2025, com a chegada de Donald Trump ao segundo mandato.

Tarifas, Fed e imprevisibilidade: a raiz da desconfiança

As tarifas americanas contra a União Europeia em 2025 e 2026, a pressão pública de Trump sobre o Federal Reserve para cortar juros e demitir dirigentes, e a ameaça de usar a infraestrutura financeira como instrumento de coerção — sanções, bloqueio de ativos, restrições ao sistema de pagamentos — fizeram bancos centrais europeus reavaliar o risco de concentrar reservas em território americano. Nenhum deles fala em confisco; falam em "acesso em situação de crise" — expressão que o DNB usou e que resume a mudança de percepção.

Banco da Inglaterra: o cofre do mercado

Com cerca de 400 mil barras — mais de 5 mil toneladas, a maior parte de outros países e instituições —, o cofre do Banco da Inglaterra é o centro do mercado de ouro de Londres, onde a London Bullion Market Association fixa preços e liquida operações; ouro ali custodiado é transferível entre contas em minutos, sem sair do prédio.

Fed de Nova York: o depósito que perde clientes

O cofre do Federal Reserve em Manhattan guardava mais de 12 mil toneladas nos anos 1970 e hoje tem cerca de 6 mil, com saídas graduais de bancos centrais europeus; o Fed não comenta movimentações individuais e diz que o ouro está disponível aos depositantes a qualquer momento.

Preço recorde: o contexto

O ouro superou US$ 3.000 a onça em 2025 e seguiu subindo em 2026, impulsionado por compras de bancos centrais, tensão geopolítica — guerra na Ucrânia, Irã, tarifas — e dúvidas sobre a política fiscal americana; a valorização eleva o peso do metal nas reservas e o incentivo a guardá-lo onde seja mais fácil vender.

Brasil: onde estão as reservas

O Banco Central do Brasil tem cerca de 130 toneladas de ouro, parcela pequena das reservas de mais de US$ 340 bilhões, concentradas em títulos do Tesouro americano; o país comprou ouro em 2021 e 2024, mas não divulga onde o custodia. O debate sobre diversificação geográfica, aberto pelos europeus, ainda não chegou a Brasília.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia é pequena no volume e grande no significado. "Oitenta e seis toneladas são menos de 1% do ouro dos bancos centrais do mundo. Mas quem mexeu foi a Holanda — país que fundou o primeiro banco central moderno e que nunca fez nada por impulso —, e o destino foi Londres, não casa. Ela quer poder vender, não só guardar. Quando os holandeses reforçam 'plano de contingência para crises', é porque calcularam a probabilidade de precisar dele. O portal registra: em setembro de 2026, os aliados dos Estados Unidos estão tirando o ouro de lá, em silêncio e com nota oficial", analisa.

A transferência de cerca de 86 toneladas de ouro das reservas da Holanda de Nova York e Ottawa para o Banco da Inglaterra foi informada pelo banco central holandês em 2 de setembro de 2026 e noticiada pelo G1 em 3 de setembro. As reservas totais do país permanecem em 612,4 toneladas.

Fontes e referências

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