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Milei anuncia base naval na Terra do Fogo

Campo Sea Lion, com 1,7 bilhão de barris, é operado pela israelense Navitas com a britânica Rockhopper, cujas ações caíram 6%. Analistas veem uso eleitoral por Milei.

Capa do artigo Milei anuncia base naval na Terra do Fogo
— Foto: Ben Tubby / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Milei anuncia base naval na Terra do Fogo, diz que ilhéus "não têm direito à autodeterminação" e ameaça punir petroleiras; Reino Unido responde que "as Falklands são britânicas porque os habitantes escolhem" — e Trump, ao insinuar que não ajudaria Londres, reacende a disputa das Malvinas

O Reino Unido reafirmou nesta sexta-feira (4) sua soberania sobre as Ilhas Malvinas depois que o presidente argentino, Javier Milei, anunciou a construção de uma base naval na Terra do Fogo e afirmou que vai punir empresas que planejam iniciar, nos próximos meses, a exploração de petróleo na região. "As Falklands são britânicas porque os habitantes escolhem ser britânicos", respondeu o ministro da Defesa britânico, Wes Streeting, acrescentando que as falas de Milei dizem mais sobre a política interna argentina do que sobre o arquipélago: "Nosso compromisso com as Malvinas é absoluto e inabalável." As ilhas seguem alvo de disputa mais de 40 anos após a guerra de 1982, que terminou com a rendição argentina. As informações são da Folha de S.Paulo.

A questão voltou ao noticiário após Donald Trump ameaçar intervir. Como a maioria dos países ocidentais, Washington reconhece que o Reino Unido administra o arquipélago, mas nunca se pronunciou sobre a soberania reivindicada pela Argentina — e o governo Trump estaria disposto a revisar a posição para pressionar Londres a aumentar gastos militares. Em entrevista à GB News, o presidente americano deu a entender que não ajudaria o Reino Unido num eventual conflito futuro com a Argentina, queixando-se de falta de apoio britânico na guerra do Irã.

Milei: "ventos de mudança"

"No mundo correm ventos de mudança favoráveis à nossa reivindicação", disse Milei em cadeia nacional, referindo-se ao aliado americano; a declaração de Trump, segundo ele, representa uma ameaça que "não é inócua". O presidente argentino, que antes defendia a diplomacia como via para a reivindicação, adotou tom mais confrontador com a previsão de novas perfurações de petróleo e as repetidas menções de Trump às ilhas. Disse que os habitantes "não têm um direito legítimo à autodeterminação" e que a base naval fortalecerá a presença militar numa região estratégica para o futuro do país.

Para , editor do portal, o gatilho é o petróleo, não a bandeira. "Milei era o presidente argentino mais pró-Ocidente em décadas, admirador de Thatcher, e defendia resolver as Malvinas na mesa. Mudou quando duas coisas aconteceram: a Navitas e a Rockhopper marcaram a perfuração do Sea Lion para os próximos meses, e Trump sugeriu que não defenderia Londres. Um campo de 1,7 bilhão de barris a 225 km das ilhas, explorado por israelenses e britânicos, com a Argentina assistindo — isso é insuportável para qualquer governo em Buenos Aires. A base naval é resposta ao poço, não à ilha", avalia.

Sea Lion: 1,7 bilhão de barris

O campo Sea Lion, cerca de 225 quilômetros ao norte das Malvinas, é operado pela israelense Navitas Petroleum, listada em Tel Aviv, e tem entre os acionistas a britânica Rockhopper Exploration, listada em Londres. Descoberto em 2010 — quando a Argentina declarou a atividade ilegal —, contém estimados 1,7 bilhão de barris, uma das descobertas mais importantes do mundo em termos globais. As ações da Rockhopper caíram 6% na manhã desta sexta, e as da Navitas recuaram 2%; as empresas afirmaram em comunicado que possuem licenças válidas.

Trump e a "doutrina Donroe"

"Se há um conflito, Trump interfere", afirmou Juan Battaleme, cientista político e ex-secretário de Assuntos Internacionais para a Defesa do governo Milei, enquadrando a postura na "doutrina Donroe" — a versão trumpista da Doutrina Monroe, baseada na supremacia americana sobre a América Latina. Tomás Mugica, diretor do Centro de Estudos Internacionais da Universidade Católica Argentina, é mais cético: "A questão Malvinas serve a Trump para pressionar o Reino Unido, para que cumpra as suas demandas em relação ao financiamento da Otan e à colaboração na guerra no Irã." Por isso, diz, "é necessário ser bastante cuidadoso quanto às expectativas" de mudança americana.

Milei em queda: 34% de aprovação

Milei aborda o tema em momento de queda de popularidade, a pouco mais de um ano das eleições em que buscará segundo mandato: pesquisas apontam 34% de aprovação e 55% de desaprovação. "Existe um consenso muito amplo no conjunto da população, mas também entre as elites políticas, quanto à legitimidade da reivindicação de soberania por parte da Argentina", diz Mugica — o que faz das Malvinas a única bandeira capaz de unir governo e oposição em Buenos Aires.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, Milei e Trump usam as ilhas para fins que não são as ilhas. "Trump quer que Londres gaste mais em defesa e ajude no Irã; ameaça as Malvinas como alavanca. Milei tem 55% de rejeição e eleição em 2027; agita as Malvinas como bandeira. Nenhum dos dois quer guerra — Milei não tem Marinha para isso, e Trump não quer romper com a Otan. Mas a retórica tem consequência: a Rockhopper caiu 6%, o Sea Lion pode atrasar, e a Argentina pode punir empresas que operam em seu mar. O petróleo é o único que sofre de verdade", observa.

1982: a guerra e o que ficou

A junta militar argentina invadiu as Malvinas em abril de 1982; o Reino Unido, sob Margaret Thatcher, enviou uma força-tarefa e retomou as ilhas em 74 dias, com cerca de 650 mortos argentinos e 255 britânicos. A derrota derrubou a ditadura argentina; a vitória reelegeu Thatcher. Desde então, o Reino Unido mantém guarnição permanente, e os cerca de 3.500 habitantes votaram em referendo de 2013, com 99,8%, por permanecer britânicos — o argumento de Streeting. A Argentina sustenta que os ilhéus são população implantada e que a autodeterminação não se aplica.

A ONU e a resolução de 1965

A disputa é reconhecida oficialmente por resolução da Assembleia Geral da ONU de 1965, que pede aos dois países negociação pacífica e abstenção de decisões unilaterais. A Argentina cita a resolução para contestar a exploração de petróleo; o Reino Unido responde com o referendo. As perfurações anunciadas e a base naval são, cada uma a seu modo, decisões unilaterais.

Terra do Fogo: a base em Ushuaia

A Terra do Fogo é a província argentina mais austral, com Ushuaia — a cidade mais ao sul do mundo — como porta de entrada para a Antártida e ponto de apoio à pesca e ao turismo no Atlântico Sul. Uma base naval ali reforça a presença argentina na rota das Malvinas, a cerca de 600 km, e na projeção sobre o setor antártico reivindicado pelo país. A Marinha argentina, sucateada desde a crise de 2001 e abalada pela perda do submarino ARA San Juan em 2017, opera com poucos navios de grande porte; a base é mais sinal político do que capacidade militar imediata.

Punir empresas: o que a Argentina pode fazer

A Argentina tem lei que prevê sanções a empresas que explorem hidrocarbonetos na plataforma continental argentina sem autorização — o que, na leitura de Buenos Aires, inclui as águas ao redor das Malvinas. As punições vão de multas a proibição de operar no país; na prática, atingem empresas com negócios na Argentina, não as que só operam nas ilhas. Navitas e Rockhopper não têm ativos argentinos relevantes, o que limita o alcance da ameaça.

O que muda para o Brasil

O Brasil apoia historicamente a reivindicação argentina no Mercosul e na ONU, e tensão militar no Atlântico Sul afeta diretamente a área que a Marinha brasileira chama de "Amazônia Azul". Uma base naval argentina na Terra do Fogo e a presença britânica reforçada nas ilhas aumentam a militarização de uma região que o Brasil prefere desmilitarizada — e a hipótese de os EUA se afastarem de Londres altera o equilíbrio de uma disputa que Brasília sempre tratou como diplomática.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a crise revela uma ordem em mudança. "Quarenta anos de aliança Reino Unido–EUA, e Trump insinua que não defenderia as Malvinas. Isso não é sobre a Argentina — é sobre o fim da garantia americana como algo automático. Londres ouviu, e Milei ouviu. O Atlântico Sul, que era o mar mais tranquilo do mundo, ganha base naval, petroleira israelense e presidente americano imprevisível. O Brasil, que tem a maior costa da região, deveria estar conversando com os dois lados — e não está. Se a regra virou 'cada um por si', o Brasil precisa saber o que quer no seu próprio oceano", analisa.

A base naval anunciada por Javier Milei na Terra do Fogo não tem cronograma divulgado. A perfuração do campo Sea Lion pela Navitas Petroleum e pela Rockhopper Exploration está prevista para os próximos meses, segundo as empresas.

Fontes e referências

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