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ONU aprova por 164 votos resolução para "corrigir o mapa"

Iniciativa liderada por Togo e apoiada pela União Africana defende a projeção "Terra Igual"; texto diz que distorções têm efeitos cognitivos e geopolíticos.

Capa do artigo ONU aprova por 164 votos resolução para "corrigir o mapa"
— Foto: Bmamlyuk / Wikimedia Commons (CC0)

ONU aprova por 164 votos resolução para "corrigir o mapa": Assembleia Geral incentiva abandono da projeção de Mercator, que infla Groenlândia e Europa e encolhe África e América Latina; só os Estados Unidos votaram contra

A Assembleia Geral da ONU aprovou nesta sexta-feira (4), por 164 votos a favor, uma resolução que busca mudar a forma como o mundo é representado nos mapas. Os Estados Unidos foram o único país a votar contra. O texto incentiva a adoção de uma projeção cartográfica que reduza as distorções entre as dimensões dos continentes, tem o nome de "Corrija o mapa" e conta com apoio da União Africana. O alvo principal é a projeção de Mercator, criada no século 16 para facilitar a navegação marítima e ainda usada em materiais educacionais, mapas digitais, meios de comunicação e documentos oficiais. As informações são do g1.

O problema está no tamanho: na projeção de Mercator, áreas próximas aos polos aparecem maiores do que são, e regiões próximas à linha do Equador ficam proporcionalmente menores. Na prática, África e América Latina parecem menores em relação ao norte da Europa e à América do Norte — a Groenlândia, com 2,1 milhões de km², aparece do tamanho da África, que tem 30 milhões.

Por que Mercator distorce

Gerardus Mercator publicou sua projeção em 1569 com um objetivo prático: permitir que navegadores traçassem rotas de rumo constante como linhas retas. Para isso, esticou progressivamente as latitudes conforme se afastam do Equador — o que preserva ângulos e formas locais ao custo de inflar as áreas polares. Para quem cruzava o Atlântico com bússola, era perfeito; para representar o tamanho relativo dos continentes, é o pior modelo possível. Sobreviveu por inércia: virou o mapa das salas de aula, dos atlas e, no século 21, dos mapas digitais, que o adotaram porque preserva formas em qualquer zoom.

Para , editor do portal, a resolução corrige um erro de 450 anos com uma votação. "Todo mundo que estudou geografia viu a Groenlândia do tamanho da África e o Brasil menor que o Alasca. É mentira cartográfica — o Brasil tem cinco Alascas. A ONU está dizendo o óbvio: mapa que ensina proporção errada ensina mundo errado. Cento e sessenta e quatro países concordaram; os EUA votaram contra, o que diz mais sobre Washington em 2026 do que sobre cartografia. O Brasil, que é o quinto maior país do mundo e nunca pareceu isso no mapa, tem todo interesse em adotar o Terra Igual amanhã", avalia.

Efeitos cognitivos e geopolíticos

A resolução argumenta que mapas não são só ferramentas de localização: ajudam a formar a maneira como as pessoas enxergam o mundo. Segundo o texto, as distorções podem ter efeitos cognitivos, educacionais, culturais e até geopolíticos, e a permanência dessas representações pode perpetuar uma visão desequilibrada entre regiões. Estudos de psicologia mostram que pessoas estimam a importância de países em parte pelo tamanho que veem no mapa — e a África encolhida é a metáfora visual do continente marginalizado.

Terra Igual: a alternativa

A alternativa apoiada pela iniciativa é a projeção "Terra Igual" (Equal Earth), criada em 2018 por cartógrafos americanos, eslovenos e alemães e adotada pela União Africana. É uma projeção de área equivalente — cada continente aparece com tamanho proporcional ao real — com formas suavizadas que evitam o aspecto "esmagado" de projeções anteriores como a de Gall-Peters. A França começou a usar o Eckert IV, de escala semelhante, em documentos do Ministério do Interior.

Togo lidera: "verdade científica"

Antes da votação, o ministro das Relações Exteriores de Togo, Robert Dussey, país que lidera a iniciativa, afirmou que a decisão representa uma defesa da "verdade científica" e que a discussão vai além da cartografia: trata da maneira como povos e territórios são percebidos. A resolução se vincula ao Pacto para o Futuro, aprovado pelos países-membros em 2024, que prevê ações para enfrentar desigualdades históricas e estruturais.

Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o voto americano é o dado político. "Cento e sessenta e quatro a um. Nem a Rússia, nem a China, nem Israel votaram contra — só os EUA. É a posição de um governo que trata qualquer iniciativa da União Africana como agenda 'woke' e qualquer mudança de padrão como ataque. Mas o mapa não é ideologia: a África tem 30 milhões de km², e a Groenlândia, 2. Votar contra isso é votar contra a régua. O mundo seguiu em frente sem Washington — e essa é a notícia que se repete na ONU de 2026", observa.

O que muda — e o que não muda

A aprovação não significa abandono imediato de Mercator: a resolução incentiva governos, organizações internacionais e instituições a considerar modelos mais precisos, sem obrigar. Na prática, a mudança acontece quando ministérios da Educação trocam os mapas escolares, quando agências de notícias mudam seus gráficos e quando os mapas digitais oferecem a opção. Google Maps adotou o globo 3D em zoom afastado em 2018 justamente para escapar da distorção; em zoom próximo, Mercator continua, porque preserva formas.

Nenhum mapa plano é perfeito

Representar uma esfera num plano exige sacrificar algo: área, forma, distância ou direção. Mercator preserva forma e direção e destrói área; Terra Igual preserva área e distorce levemente forma nas bordas; projeções como a de Robinson, usada pela National Geographic por décadas, são compromissos que distorcem tudo um pouco. Não existe mapa "certo" — existe mapa adequado ao uso. A resolução da ONU não proíbe Mercator para navegação, onde ele é insubstituível; pede que, para representar o mundo às pessoas, se use um que não minta sobre tamanho.

Comparar é fácil: as ferramentas

Sites como The True Size Of permitem arrastar um país sobre outro na projeção de Mercator e ver o tamanho real: o Brasil cobre quase toda a Europa; a Índia, que parece pequena, é maior que a Escandinávia inteira; a República Democrática do Congo tem o tamanho da Europa ocidental. São ferramentas usadas em escolas e redações para mostrar a distorção — e o material de apoio que a resolução deve estimular em currículos escolares.

Gall-Peters: a tentativa anterior

Nos anos 1970, o historiador alemão Arno Peters popularizou uma projeção de área equivalente — na verdade criada por James Gall no século 19 — como resposta política ao "eurocentrismo" de Mercator. Foi adotada por organizações de desenvolvimento e pela Unesco, mas criticada por cartógrafos pelo aspecto alongado dos continentes. O Terra Igual é a resposta técnica a essa crítica: mesma fidelidade de área, formas mais naturais. É por isso que a União Africana o escolheu.

O Brasil no mapa

Em Mercator, o Brasil — 8,5 milhões de km² — parece menor que a Groenlândia e comparável ao Alasca (1,7 milhão). No Terra Igual, aparece como o que é: o quinto maior país do mundo, maior que toda a Europa ocidental somada. Para um país que tem na dimensão territorial um argumento diplomático e econômico, a correção é favorável. O IBGE, que produz a cartografia oficial, usa projeções de área equivalente em seus atlas temáticos há décadas; o mapa escolar, porém, ainda é majoritariamente Mercator.

Educação: o mapa da sala de aula

A mudança mais concreta é a escolar. Gerações aprenderam geografia com um mapa que ensinava a Europa maior e a África menor do que são; trocar o mapa da parede é a intervenção mais barata para corrigir a percepção. Ministérios da Educação de países africanos já iniciaram a substituição; a resolução da ONU dá respaldo para que outros — Brasil incluído — façam o mesmo nos próximos ciclos de compra de material didático.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, é a notícia mais simples e mais profunda da semana. "Não é guerra, não é eleição, não é juro. É um mapa. Mas é o mapa que cada criança vê todo dia na parede da escola e que diz a ela, sem palavras, quem é grande e quem é pequeno no mundo. A ONU decidiu que o mapa vai contar a verdade. Custou 450 anos e uma votação de 164 a 1. O Ministério da Educação brasileiro pode trocar o mapa no próximo PNLD. Seria a política pública mais barata e mais honesta do ano", analisa.

A resolução "Corrija o mapa" foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU em 4 de setembro de 2026, por 164 votos a favor e um contra. A projeção "Terra Igual" é a alternativa apoiada pela iniciativa e pela União Africana.

Fontes e referências

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