Os alertas vermelhos da campanha de Lula
Fonte da campanha diz à BBC que desgastar Moraes respinga em Lula; intenção de voto está onde estava em janeiro. "Não é polarização, é cristalização."
Os alertas vermelhos da campanha de Lula: de 45% a 43% contra Flávio Bolsonaro no dia do lançamento a 44% a 44% agora, com a crise do Supremo "sequestrando o debate", o caso Lulinha no noticiário e o temor de que o sentimento "contra tudo isso que está aí" contamine o petista — a aposta é o fim da escala 6x1
A primeira metade da campanha eleitoral quase acabou e, até o momento, o saldo parece negativo para o presidente Lula. Em 16 de agosto, no ato de lançamento em São Bernardo do Campo, o petista aparecia à frente de Flávio Bolsonaro no cenário de segundo turno do agregador de pesquisas da BBC News Brasil — 45% a 43%; agora, os dois estão empatados em 44%. A campanha via nesta semana a chance de alívio após dias de pressão pela divulgação de trechos de investigações sobre Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, com pautas positivas como o fim da taxa das blusinhas e o avanço do fim da escala 6x1 — mas a crise no Supremo Tribunal Federal, com o escândalo do Banco Master ao fundo, "atrapalhou, para dizer o mínimo", os planos. As informações são da BBC News Brasil.
A avaliação de uma fonte próxima à campanha, que pediu anonimato, é que a crise pode respingar em Lula pelo sentimento antissistema que tende a ficar mais latente: às vésperas da eleição, o efeito "contra tudo isso que está aí" pode contaminar a candidatura. Além disso, o ministro Alexandre de Moraes é visto pela opinião pública como próximo a Lula, e seu suposto envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro, apontado por investigações da PF tornadas públicas nesta semana, pode afetar a imagem do presidente.
A reação de Lula: "vazamentos seletivos"
De olho nos desdobramentos, Lula foi às redes na quinta-feira (3) dizer que, "diante da gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem um processo que garanta a integridade e a confiança nas investigações". Sem citar nomes, afirmou que "nossa democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos" e que "fica claro que nossos sistemas político e judiciário precisam de reformas profundas. É fundamental que se investigue todo mundo, sem blindagem de ninguém, doa a quem doer". É a fórmula de quem precisa se distanciar sem romper.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a campanha está presa a um ministro que não é dela. "Moraes não é aliado do Planalto — internamente, ninguém o trata assim. Mas o eleitor vê o algoz de Bolsonaro e associa a Lula. Quando o relatório da PF mostra o banqueiro cobrando pagamento ao escritório da mulher do ministro, o respingo é automático. Lula não pode defender Moraes nem atacá-lo: defender é abraçar o escândalo; atacar é perder o STF. A frase 'sem blindagem de ninguém' é o meio-termo possível — e é fraca. A fonte da BBC disse a verdade: a crise sequestrou o debate. E a campanha que precisava falar de 6x1 está falando de Master", avalia.
Dark Horse: a munição que sumiu
A crise, segundo a fonte, também afasta uma munição valiosa: o caso Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. As investigações mostraram que Vorcaro deu dinheiro, a pedido de Flávio, para supostamente financiar o longa. O senador nega irregularidade e diz que a relação com o banqueiro era comercial — estaria cobrando parcelas atrasadas de pagamento prometido ao filme. Para o interlocutor petista, os holofotes sobre os ministros do Supremo afastam o debate sobre a relação de Flávio com o banqueiro — o único fato do escândalo que favorecia Lula.
O cálculo do distanciamento
A situação coloca Lula em posição difícil: há entendimento de que ele deve calcular com cuidado o quanto se distancia de um ministro até então poderoso no STF — o distanciamento serve para "blindar" o presidente, mas não pode causar ruído na relação. É a corda bamba em que a campanha caminha desde terça-feira, quando Mendonça retirou o sigilo do relatório.
O que o governo tentou: a cesta de Lula
Desde o início do ano, o governo tenta atrair eleitores com estímulos: redução do Imposto de Renda para a classe média, linha de crédito para entregadores, nova versão do Desenrola para negociação de dívidas, programas Gás do Povo e Luz do Povo turbinados. Nada disso levantou significativamente a avaliação: a aprovação passou de 45% em fevereiro para 47% agora, com 50% de desaprovação, segundo o Datafolha. As intenções de voto também não se moveram — 39% no primeiro turno e 46% no segundo em janeiro; 38% e 45% hoje.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, os números contam uma história de imobilidade. "Oito meses de isenção de IR, Desenrola, Gás do Povo, Luz do Povo — e a aprovação subiu dois pontos. A intenção de voto está onde estava em janeiro. A cientista política da UFAL chamou de cristalização: um terço vota em Lula de qualquer jeito, um terço vota em Flávio de qualquer jeito, e o terço do meio não se move com benefício. Se move com humor — e o humor de setembro é 'está tudo podre'. Isso favorece quem está fora. Flávio está fora. Lula está dentro, e dentro do STF por associação. É o pior cenário para um governo que tem economia razoável e não consegue transformá-la em voto", observa.
"Cristalização, não polarização"
Para Luciana Santana, cientista política da Universidade Federal de Alagoas, os números refletem a cristalização do eleitorado: "Não é nem polarização, é cristalização, porque um terço dos eleitores votam em Lula de qualquer jeito e rejeitam qualquer coisa vinda do bolsonarismo, e um terço vota em Flávio e rejeita qualquer coisa da esquerda. Lula não tem conseguido nenhum projeto, programa ou proposta até agora que mude esse cenário. Pode ser que, com a aprovação do fim da escala 6x1, isso mude um pouco o curso."
Escala 6x1: a última arma
A PEC que acaba com a jornada 6x1 — seis dias de trabalho por um de descanso — foi aprovada nesta semana na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, depois de meses travada, e andou após Lula se reaproximar do presidente da Casa, Davi Alcolumbre, encerrando um período de estremecimento. É a pauta com maior apelo popular disponível ao governo — pesquisas mostram apoio majoritário ao fim da escala — e a que a campanha quer votada em plenário antes de outubro. A crise do STF, avalia a fonte, pode atrapalhar o avanço ou o impacto.
Atos em grandes colégios eleitorais
A estratégia de reversão inclui atos em grandes colégios eleitorais — São Paulo, Minas, Rio, Bahia, Pernambuco — com o presidente em campanha de rua, formato em que Lula historicamente rende mais que na comunicação institucional. O objetivo é retomar a narrativa do metalúrgico de São Bernardo, do primeiro dia de campanha, e afastar o noticiário de Brasília.
Lulinha: a pressão que antecedeu
Antes da crise do Supremo, a campanha vinha sob pressão pela divulgação de trechos de investigações sobre o filho mais velho do presidente — caso que a oposição explora e que o Planalto trata como sem relação com o governo. A sequência Lulinha–Master–Moraes é o que a fonte chama de maré negativa: três semanas de noticiário adverso sem que nenhuma pauta positiva conseguisse emplacar.
O que vem: sete semanas
Faltam sete semanas para o primeiro turno. A campanha aposta na votação da 6x1 no Senado, nos atos de rua e no desgaste de Flávio pelo Dark Horse — se o debate voltar a ele. O cenário base do agregador é segundo turno empatado, com vantagem para quem chegar com menos rejeição; e a rejeição, em setembro de 2026, é a variável que a crise do STF mais afeta.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a campanha de Lula tem um problema que não é de campanha. "O governo entregou economia decente, programas sociais e IR menor — e está empatado com o filho de Bolsonaro. Não porque o eleitor não viu; porque o eleitor cristalizado não muda por benefício, e o eleitor do meio está com nojo de Brasília. A crise do STF é o pior cenário porque é nojo puro: banqueiro, ministro, contrato de R$ 131 milhões. A única arma que resta é a 6x1 — uma pauta que fala de trabalho, não de poder. Se o Senado votar até outubro, Lula tem tema. Se não votar, terá sete semanas de Moraes. A campanha sabe. É por isso que a BBC chamou de alerta vermelho", analisa.
Os dados de intenção de voto são do Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil; os de aprovação do governo, do Datafolha. O primeiro turno das eleições de 2026 será em outubro.