"Precisamos de muito mais do que dinheiro"
Mensagem em vídeo vem oito meses após a captura de Maduro em operação militar americana; Chevron e Eni assinaram contratos em Caracas na quarta.
"Precisamos de muito mais do que dinheiro", diz María Corina Machado após o acordo petrolífero sem precedentes entre Washington e o regime interino de Delcy Rodríguez, que dá à Casa Branca o controle de 65 bilhões de barris em 17 campos: do exílio no Panamá, a Nobel da Paz afirma que "o patrimônio do nosso solo não pertence a um regime ilegítimo", defende a aliança com os Estados Unidos, mas exige transparência e um governo democrático — Trump e Delcy concordaram que o país não está pronto para eleições
A líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, afirmou na quinta-feira (3 de setembro) que a Venezuela "precisa de muito mais do que dinheiro", após o acordo petrolífero sem precedentes firmado entre os Estados Unidos e o regime interino de Delcy Rodríguez. Em vídeo gravado no exílio e publicado no X, María Corina disse que "o setor petrolífero é apenas uma parte da imensa reconstrução" da Venezuela, que "exige investimentos colossais". "Em um país com as dimensões e a fragilidade institucional da Venezuela, nenhum setor poderá funcionar de forma isolada", afirmou a líder, que deixou Caracas de forma clandestina em dezembro para receber o Nobel e vive atualmente no Panamá. As informações são da Folha.
O acordo dá à Casa Branca o controle de 65 bilhões de barris de petróleo bruto em 17 campos em diferentes regiões do país. "Tudo isso confere à Venezuela um valor estratégico extraordinário, tanto para a segurança nacional dos EUA quanto para a estabilidade do hemisfério. Mas o patrimônio do nosso solo não pertence a um regime ilegítimo, pertence ao povo venezuelano", disse María Corina. Após a assinatura de acordos com multinacionais como Chevron e Eni, na quarta-feira (2), em Caracas, Trump e Delcy concordaram que o país não está pronto para realizar eleições. A mensagem foi divulgada oito meses após a captura do ex-ditador Nicolás Maduro em uma operação militar americana. María Corina defendeu a aliança com Washington, mas afirmou que o país deve trabalhar "sob os princípios inegociáveis de transparência absoluta, legalidade e eficiência" — o que "só é possível com a legitimidade e a estabilidade oferecidas por um governo sério e democrático". A oposição e observadores independentes afirmam que houve fraude de Maduro na eleição presidencial de 2024 e reivindicam a vitória de Edmundo González, candidato apoiado por María Corina, que fora inabilitada e não pôde concorrer. Em agosto, teve início um diálogo entre o regime chavista e parte da oposição com vistas a uma transição democrática, mas María Corina não foi convidada; ela promete voltar à Venezuela, mas especialistas afirmam que Washington não vê seu retorno com bons olhos.
A Venezuela oito meses depois de Maduro
A captura de Nicolás Maduro por forças americanas, em janeiro, encerrou 25 anos de chavismo no comando formal do país — mas não o chavismo: Delcy Rodríguez, vice-presidente e figura central do regime, assumiu um governo interino reconhecido por Washington como interlocutor, manteve as Forças Armadas e o aparato de segurança e passou a negociar diretamente com a Casa Branca o que Trump sempre disse querer da Venezuela: o petróleo. Os acordos de quarta-feira em Caracas — Chevron, Eni e o arranjo que entrega ao governo americano o controle de 17 campos com 65 bilhões de barris, a maior reserva do planeta — são a contrapartida: sanções aliviadas, investimento e reconhecimento em troca de acesso ao subsolo e de estabilidade, sem eleições no horizonte. É esse desenho — transição sem urna, comandada pelo regime que a oposição chama de ilegítimo e pelo governo estrangeiro que o derrubou — que María Corina contesta do Panamá, com o peso do Nobel e sem convite para a mesa em que o futuro do país está sendo decidido.
Para Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a fala de María Corina é a de quem venceu e foi deixada de fora. "Ela ganhou a eleição de 2024 por meio de Edmundo González, ganhou o Nobel, viu Maduro ser capturado — e o resultado é Delcy Rodríguez no palácio, Trump com 65 bilhões de barris e um acordo de que 'o país não está pronto para eleições'. O vídeo é elegante: apoia a aliança com Washington, cobra transparência, lembra que o petróleo é do povo. Mas o recado é claro: os Estados Unidos trocaram a democracia venezuelana pelo petróleo venezuelano, e o chavismo sem Maduro serve melhor a esse negócio do que uma oposição com Nobel. O Brasil, que reconheceu a fraude de 2024 sem reconhecer González, assiste de longe a uma transição que não é transição — é troca de gerente", avalia.
65 bilhões de barris e 17 campos: o que o acordo entrega
A Venezuela tem as maiores reservas provadas de petróleo do mundo — mais de 300 bilhões de barris, a maior parte de óleo pesado na Faixa do Orinoco —, e a produção, que chegou a 3 milhões de barris por dia nos anos 1990, caiu para menos de 1 milhão sob sanções, corrupção e colapso da PDVSA; o acordo transfere ao governo americano o controle operacional de 17 campos com 65 bilhões de barris, com Chevron, Eni e outras multinacionais como operadoras e a receita dividida entre o regime interino e os investidores. É a maior transferência de controle sobre recursos de um país a outro desde as nacionalizações do século 20 — na direção inversa.
Delcy Rodríguez: a interina que ficou
Vice de Maduro desde 2018, ex-chanceler e ex-presidente da Assembleia Constituinte, Delcy Rodríguez comanda o governo interino com o apoio dos militares e o reconhecimento pragmático de Washington; conduz o diálogo com parte da oposição, assina os acordos petrolíferos e concordou com Trump em adiar eleições. Para a oposição de María Corina, é a continuidade do regime sob outro nome.
Chevron e Eni: as operadoras
A Chevron, única grande americana que permaneceu na Venezuela sob licença especial durante as sanções, amplia operações; a italiana Eni, presente no gás offshore, entra nos campos de petróleo; outras multinacionais negociam. Os contratos assinados em Caracas na quarta-feira formalizam a abertura que Maduro tentou e não conseguiu, agora sob tutela americana.
Na leitura de Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o acordo redefine o que os Estados Unidos entendem por transição. "Trump derrubou Maduro pela força, negociou com quem ficou e decidiu, junto com ela, que a Venezuela não está pronta para votar. É a doutrina do 'domínio das Américas' que Rubio anunciou, em prática: primeiro o petróleo, depois a segurança, a democracia quando der. María Corina — que os Estados Unidos celebraram como heroína até o Nobel — virou inconveniente, porque eleição livre poderia colocá-la no poder e ela não assinaria contrato de 65 bilhões de barris com essa cara. O vídeo do Panamá é o primeiro sinal de que a oposição venezuelana entendeu que o aliado tem outra agenda", observa.
Eleições adiadas: "o país não está pronto"
Trump e Delcy concordaram que não há condições para eleições — argumento de instabilidade, de reconstrução institucional e de segurança —; a oposição vê manobra para consolidar o regime interino e o acordo petrolífero antes de qualquer voto. Não há calendário, e o diálogo de agosto com parte da oposição discute regras sem data.
O diálogo de agosto: quem está na mesa
Setores da oposição moderada — partidos que negociaram com Maduro em Barbados em 2023 — sentaram-se com o regime interino sob mediação internacional; María Corina, o Vente Venezuela e Edmundo González ficaram de fora, o que, para analistas, revela a preferência de Washington por uma transição negociada com o chavismo, sem a líder mais popular do país.
Nobel da Paz e exílio: a trajetória recente
Laureada em outubro de 2025 pela luta pela democracia, María Corina viveu escondida na Venezuela após a eleição de 2024, saiu clandestinamente em dezembro para receber o prêmio em Oslo e fixou-se no Panamá; promete voltar, mas a captura de Maduro e o arranjo com Delcy tornaram seu retorno politicamente inconveniente para Washington, segundo especialistas.
Brasil e a Venezuela: a posição de Brasília
O governo Lula não reconheceu a reeleição de Maduro em 2024, mas também não reconheceu González, e manteve relações com Caracas; após a operação americana, criticou a intervenção e defendeu solução venezuelana. O acordo petrolífero coloca o Brasil diante de uma Venezuela sob tutela americana na fronteira norte — com Roraima recebendo migrantes e a Petrobras observando os campos.
Petróleo e preço: o efeito global
A reabertura de 65 bilhões de barris ao investimento ocidental, se a produção voltar a 2 ou 3 milhões de barris por dia, pressiona o preço do petróleo para baixo no médio prazo e reduz a dependência americana do Oriente Médio — motivo estratégico que María Corina reconhece ao falar em "segurança nacional dos EUA". Para a Opep e para o Brasil, exportador, é concorrência.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a frase do título é a mais importante do dia. "'Precisamos de muito mais do que dinheiro.' A Venezuela perdeu um quarto da população para a emigração, tem instituições destruídas, polícia política, presos políticos e uma economia que só existe pelo petróleo. Trump resolveu o petróleo. María Corina lembra que o resto — Justiça, eleição, Estado — não se compra com Chevron. Ela pode estar sendo deixada de fora, mas está falando a verdade que ninguém em Caracas ou Washington quer ouvir agora. Se a Venezuela virar um poço de petróleo administrado pelos Estados Unidos com gerente chavista, a oposição terá vencido a eleição e perdido o país", analisa.
O vídeo de María Corina Machado sobre o acordo petrolífero entre os Estados Unidos e o governo interino venezuelano foi publicado em 3 de setembro de 2026 e noticiado pela Folha; os contratos com Chevron e Eni foram assinados em Caracas em 2 de setembro, e a captura de Nicolás Maduro ocorreu oito meses antes, em operação militar americana.