Eleição pode mudar o rumo de R$ 8,1 bilhões do Mover para montadoras
Programa reservou R$ 19,3 bi entre 2024 e 2028; R$ 4 bi de 2027 e R$ 4,1 bi de 2028 estão em lei e só mudam com o Congresso. Flávio Bolsonaro defende menos exceções tributárias.
Eleição pode mudar o rumo de R$ 8,1 bilhões do Mover para montadoras: Lula mantém política industrial, Zema quer cortar crédito direcionado, Caiado exige contrapartidas e Renan propõe polo elétrico em Camaçari
Quem assumir a Presidência da República em janeiro de 2027 herdará uma política automotiva com pelo menos R$ 8,1 bilhões em créditos financeiros previstos para os dois anos seguintes — e os programas de governo dos principais candidatos mostram diferenças importantes sobre o papel da União em financiar, incentivar ou direcionar investimentos das montadoras. Os recursos fazem parte do Mover, programa criado no governo Lula para estimular pesquisa, desenvolvimento, descarbonização e produção no país, que reservou R$ 19,3 bilhões entre 2024 e 2028: R$ 3,5 bilhões em 2024, R$ 3,8 bilhões em 2025, limite de R$ 3,9 bilhões em 2026, e R$ 4 bilhões e R$ 4,1 bilhões para 2027 e 2028. As informações são da coluna de Paula Gama, no UOL Carros.
Para acessar os benefícios, empresas habilitadas geram créditos financeiros em contrapartida a investimentos e despesas enquadrados no programa — especialmente pesquisa e desenvolvimento e novos projetos de produção —, que podem ser ressarcidos ou usados para compensar débitos tributários federais. Criado para toda a cadeia de mobilidade, incluindo autopeças, o Mover se tornou a principal ferramenta da política industrial para o setor automotivo, sucedendo o Rota 2030, de 2018, e o Inovar-Auto.
Lula: manter o modelo
O programa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende a continuidade de uma política industrial apoiada em instrumentos públicos: combinação de financiamento público e privado, instrumentos fiscais, regulação e compras governamentais para incentivar investimento, inovação e produção nacional, com exigência de contrapartidas e estímulo ao conteúdo produzido no Brasil. Na mobilidade, destaca motores flex e híbridos flex e a expansão de tecnologias de menor emissão — exatamente o que o Mover já incentiva. É a candidatura da continuidade.
Flávio Bolsonaro: menos exceções, setores estratégicos
Flávio Bolsonaro (PL) se distancia no discurso tributário — redução de impostos, desoneração de investimentos e diminuição de exceções tributárias —, mas não propõe abandonar políticas industriais. O programa admite políticas direcionadas a tecnologias e setores estratégicos; na energia e mobilidade, prevê fortalecer biocombustíveis e cadeias da transição energética, e defende maior processamento nacional de minerais e componentes para baterias e veículos eletrificados. A tensão entre "menos exceções" e "setores estratégicos" fica para o eventual governo resolver.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a diferença entre os dois líderes é menor do que a campanha sugere. "Lula e Flávio falam de coisas parecidas com vocabulário diferente: um diz 'política industrial', o outro diz 'setores estratégicos'; um diz 'contrapartida', o outro diz 'desoneração'. Os dois querem bateria nacional, biocombustível e híbrido flex. A diferença real está no instrumento: o PT usa crédito e subsídio; o PL promete usar imposto menor. Para a montadora, o que importa é se os R$ 8 bilhões continuam — e nenhum dos dois disse que não", avalia.
Caiado: incentivo com prazo, meta e contrapartida
Ronaldo Caiado (PSD) defende limites mais rígidos à concessão de benefícios fiscais a montadoras. Seu plano prevê crédito, inovação, compras públicas e financiamento para cadeias estratégicas — indústria de baixo carbono, manufatura avançada, baterias, mobilidade —, mas afirma que os incentivos devem ter prazo, metas e contrapartidas, e não funcionar como proteção permanente a empresas específicas. No capítulo de minerais estratégicos, propõe instalar no Brasil produção de cátodos e baterias, com benefícios condicionados a transferência tecnológica, empregos e exportação de maior valor agregado; no Nordeste, atrair eletrificação do transporte com as mesmas condições. Aposta no híbrido flex como tecnologia brasileira e prevê programa nacional de renovação de ônibus com modelos elétricos, a biometano e a biocombustíveis.
Renan Santos: polo elétrico em Camaçari
O plano de Renan Santos (Missão) se afasta mais claramente do modelo atual. Critica benefícios a setores pouco produtivos e defende reduzir privilégios — mas concentrar, não abandonar, os incentivos em atividades estratégicas. Uma delas é diretamente automotiva: criar no eixo industrial de Aratu e Camaçari, na Bahia, onde fica a fábrica da BYD, um polo de mobilidade elétrica, baterias e semicondutores, articulando investimento privado e instrumentos de desenvolvimento. Trata minerais críticos, terras raras, baterias e componentes como cadeias prioritárias, e propõe trocar incentivos generalizados por política dirigida às tecnologias que considera estratégicas, incluindo a mobilidade elétrica.
Cury: regimes diferenciados com custo público
Augusto Cury (Avante) avalia que regimes tributários diferenciados são legítimos quando têm finalidade econômica ou social relevante — desde que seus custos sejam públicos e os resultados avaliados. Propõe estimular 10 mil novas indústrias, criar benefícios a exportadores, ampliar financiamento e criar zonas de produção e exportação de maior conteúdo tecnológico. Na mobilidade, considera baterias, veículos elétricos e motores de alta eficiência entre os mercados que devem orientar a política de minerais estratégicos, com políticas tributárias e de crédito, polos de industrialização e incentivos ao processamento de minerais e à fabricação de componentes no Brasil.
Zema: a proposta mais distante
Romeu Zema (Novo) apresenta a proposta mais afastada da política atual: reduzir gradualmente programas de crédito direcionado, citando expressamente linhas subsidiadas do BNDES para setores escolhidos pelo governo, e substituir políticas setoriais por condições horizontais de competição e investimento privado. O programa não menciona extinguir o Mover nem retirar os R$ 8,1 bilhões de 2027 e 2028 — e isso importa: os créditos estão estabelecidos em lei, e para extingui-los ou alterá-los estruturalmente um novo governo precisaria mudar o marco legal no Congresso. Ainda assim, o posicionamento abre a maior dúvida entre os seis programas: um governo que promete diminuir o crédito direcionado manteria o desenho atual dos incentivos automotivos?
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, Zema é o único que assusta a indústria — e é o que menos pode fazer sozinho. "Todos os outros cinco querem incentivo, só discutem a forma. Zema quer acabar com o crédito direcionado, e o Mover é crédito direcionado. Mas os R$ 4 bilhões de 2027 e os R$ 4,1 bilhões de 2028 estão na Lei 14.902, e a lei manda o Executivo colocá-los no Orçamento. Para cortar, precisa de projeto de lei, maioria na Câmara e no Senado, e enfrentar a bancada de Minas, São Paulo, Paraná e Bahia, onde estão as fábricas. É promessa que esbarra no Congresso no primeiro dia", observa.
O que mudou no debate
A comparação dos seis programas revela uma mudança de foco. Durante décadas, o debate sobre incentivos ao setor girava em torno da instalação de fábricas e da produção de veículos. Em 2026, a disputa se espalha pela cadeia: baterias aparecem em planos de diferentes candidatos; minerais críticos e terras raras são tratados como ativos da indústria de elétricos. Caiado aposta no híbrido flex; Renan quer o polo de Camaçari; Cury inclui elétricos entre as aplicações dos minerais brasileiros; Lula associa política industrial à descarbonização e ao conteúdo tecnológico; Flávio combina menos exceções tributárias com apoio a cadeias estratégicas. A questão já não é apenas quanto dinheiro público vai às montadoras, mas que tipo de indústria automotiva o país pretende financiar.
Inovar-Auto e Rota 2030: os antecessores
O Mover é o terceiro programa de incentivo automotivo em pouco mais de uma década. O Inovar-Auto, de 2012 a 2017, concedia desconto de IPI a fabricantes que investissem em engenharia e eficiência no Brasil — e foi condenado pela OMC por discriminar importados, o que forçou seu fim. O Rota 2030, de 2018 a 2023, substituiu o mecanismo por créditos financeiros vinculados a gastos em pesquisa e desenvolvimento, com metas de eficiência energética e segurança, e foi aceito internacionalmente. O Mover herda o desenho do Rota 2030 e adiciona a descarbonização como critério central: o crédito é maior para projetos de eletrificação, biocombustíveis e redução de emissões no ciclo completo, do poço à roda. A continuidade de desenho é o que permite às montadoras planejar investimentos de cinco a dez anos — e o que um governo que rompa o modelo teria de reconstruir.
O que as montadoras entregam em troca
As contrapartidas do Mover incluem investimento mínimo em P&D no Brasil, metas de eficiência energética por frota, requisitos de reciclabilidade e, para os projetos habilitados, produção local. Desde 2024, o programa foi citado como condição de anúncios de investimento por praticamente todas as fabricantes instaladas no país — de Stellantis, Volkswagen e GM a Toyota, Hyundai, BYD e GWM —, somando mais de R$ 100 bilhões em compromissos até 2030, com novas plataformas, motores flex híbridos e fábricas de baterias. É o volume que o próximo governo herda junto com os R$ 8,1 bilhões: retirar o incentivo é colocar os anúncios em xeque.
O Mover e a lei
Os valores de 2027 e 2028 estão inscritos na Lei 14.902, de 2024, que criou o programa e determina que sejam considerados na proposta orçamentária enviada ao Congresso. Isso dá às montadoras previsibilidade — os projetos de P&D e as novas linhas de produção habilitadas contam com o crédito — e dá ao próximo governo um constrangimento: alterar o programa exige lei nova, com o custo político de contrariar um setor que emprega centenas de milhares de pessoas e anunciou, desde 2024, mais de R$ 100 bilhões em investimentos no país condicionados ao Mover.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a eleição decide menos o dinheiro e mais a direção. "Os R$ 8 bilhões vão sair, com qualquer presidente — a lei garante. O que a eleição decide é para onde: híbrido flex ou elétrico puro, bateria nacional ou importada, Camaçari ou Betim, contrapartida de exportação ou de emprego. Cada candidato tem uma resposta, e a indústria vai se adaptar à que vencer. O que ela não pode é ficar sem resposta — e é por isso que o silêncio de Zema sobre o Mover incomoda mais do que qualquer proposta explícita", analisa.
Os programas de governo dos candidatos à Presidência estão registrados no Tribunal Superior Eleitoral. O primeiro turno da eleição será em 4 de outubro de 2026.