Stellantis testa em Minas picape híbrida inédita derivada do SUV Leapmotor C10
Protótipo apelidado de "Stradão" roda em Curvelo; motor 1.5 funciona só como gerador e será flex a partir de 2027. Marca de venda — Fiat, Ram ou Leapmotor — ainda não está definida.
Stellantis testa em Minas picape híbrida inédita derivada do SUV Leapmotor C10, com portas da Fiat Strada e tração traseira: 215 cv, bateria de 28,4 kWh e 4,73 m de comprimento
A Stellantis estuda lançar no Brasil uma picape médio-compacta monobloco construída sobre a plataforma do SUV Leapmotor C10 Reev, o híbrido de autonomia estendida da marca chinesa controlada pelo grupo. Os testes já acontecem no centro de desenvolvimento da Stellantis em Curvelo, Minas Gerais, com um protótipo que combina a base e os itens visuais do SUV com portas e parte da carroceria da Fiat Strada — o que rendeu ao veículo, internamente, o apelido de "Stradão". As informações são da coluna Autos Segredos, do UOL Carros.
O protótipo mantém a configuração de tração traseira do C10 — o que faria dela a primeira picape médio-compacta monobloco com esse arranjo no mercado brasileiro. A última picape de tração traseira vendida no país foi a Chevrolet Chevy 500, décadas atrás, e era compacta. Ainda não há definição sobre tração integral: o C10 é 4x2, e a picape pode manter a configuração ou ganhar um segundo motor no eixo dianteiro.
Como funciona o híbrido do C10
O sistema é o do C10 Reev, sigla para "range extended electric vehicle", veículo elétrico de autonomia estendida. A movimentação fica inteiramente a cargo do motor elétrico traseiro, enquanto o propulsor 1.5 aspirado a gasolina, de ciclo Atkinson, funciona exclusivamente como gerador — nunca aciona as rodas. O conjunto entrega 215 cv e 32,6 kgfm de torque, alimentado por bateria de fosfato de ferro-lítio (LFP) de 28,4 kWh, com recarga por fonte externa: é, portanto, um híbrido plug-in. A partir de 2027, o motor gerador passará a ser flex, o que abre a possibilidade de rodar com etanol como fonte de energia da bateria.
Na prática, o motorista dirige um carro elétrico — resposta imediata, silêncio, torque instantâneo — com a segurança de um tanque de combustível que recarrega a bateria em viagem. É o arranjo que a BYD popularizou no Brasil com o Song Pro e o King, e que a Leapmotor adota como bandeira: elétrico no dia a dia, sem ansiedade de autonomia na estrada.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a picape faz sentido justamente pela mecânica. "Picape é o veículo que mais precisa de torque em baixa e o que mais roda em estrada — dois pontos onde o híbrido de autonomia estendida brilha: o motor elétrico dá o torque, o gerador garante a estrada. E tração traseira em picape é o arranjo clássico de quem carrega peso na caçamba. A Stellantis não está improvisando; está usando o C10 como base porque a base é boa. O 'Stradão' é a Strada que a Fiat não conseguiria fazer com motor a combustão", avalia.
Dimensões: entre a Strada e a Toro
Por usar a plataforma do C10, a picape deve ter dimensões próximas às do SUV: cerca de 4,73 metros de comprimento, 1,90 metro de largura e 2,82 metros de entre-eixos — a altura será superior aos 1,68 metro do SUV, por conta da caçamba e da suspensão elevada. É um tamanho intermediário entre a Fiat Strada (4,47 m) e a Fiat Toro (4,95 m), o que posiciona o veículo como uma picape médio-compacta: maior e mais espaçosa que a Strada, mais barata e ágil que a Toro. Suspensão McPherson na dianteira e multilink independente na traseira, ambas com barra estabilizadora, seguem o projeto do SUV.
Fiat, Ram ou Leapmotor?
A questão em aberto é a marca. A Stellantis pode vender a picape como Fiat — herdeira natural da Strada e da Toro, líderes de segmento —, como Ram, que a marca americana usa no Brasil para picapes de perfil mais robusto, ou como Leapmotor, consolidando a chinesa como marca de eletrificados do grupo no país. Cada escolha tem lógica: Fiat garante volume e rede; Ram, margem e imagem; Leapmotor, identidade tecnológica. A decisão deve depender do posicionamento de preço e da estratégia de eletrificação do grupo para 2027.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a marca é a decisão mais importante do projeto. "Se for Fiat, vai vender 5 mil por mês e canibalizar a Toro. Se for Leapmotor, vai vender 800 e ensinar o mercado sobre a marca. Se for Ram, vai custar R$ 250 mil e ninguém vai entender uma Ram de tração traseira com portas de Strada. Meu palpite: Fiat, com nome novo, produzida em Betim, para brigar com a BYD Mako. A Stellantis não pode deixar a chinesa lançar picape híbrida no Brasil sem resposta — e o C10 é a resposta pronta", observa.
A corrida das picapes híbridas
A picape da Stellantis não chega sozinha. A BYD prepara a Mako, picape derivada de seus SUVs híbridos, para o mercado brasileiro; a GWM desenvolve picape monobloco a partir do Haval; e a Ford, a Toyota e a Chevrolet estudam eletrificar Ranger, Hilux e S10. O segmento de comerciais leves — 50 mil unidades por mês no Brasil, quase um quinto do mercado — é o último em que a oferta chinesa ainda é pequena, e todas as marcas sabem que será o próximo campo de batalha. A vantagem da Stellantis é a plataforma pronta, a fábrica em Betim e a rede Fiat.
Tração traseira: o retorno de um arranjo
A tração traseira, hoje rara em veículos de passeio brasileiros, é o arranjo natural de uma picape carregada: o peso na caçamba pressiona o eixo traseiro e aumenta a aderência justamente das rodas que impulsionam o veículo. Foi assim com a Chevy 500 e é assim com as picapes médias de chassi, todas 4x2 traseiras na versão básica. No híbrido de autonomia estendida, o motor elétrico fica no eixo traseiro por projeto — o C10 já é assim —, e a picape herda a configuração sem custo adicional. A eventual tração integral viria com um segundo motor elétrico na dianteira, solução simples do ponto de vista mecânico e comum nos elétricos chineses, que decidiria se o veículo mira o uso rural e fora de estrada ou permanece urbano e rodoviário.
Curvelo: o laboratório
O centro de desenvolvimento de Curvelo, a 170 quilômetros de Belo Horizonte, é o campo de provas da Stellantis na América do Sul: pistas de alta velocidade, terra, pavé, subidas, calor e poeira — as condições que uma picape brasileira enfrenta. É lá que o "Stradão" roda com portas de Strada e frente de C10, coletando dados de suspensão, arrefecimento, consumo e durabilidade. O uso de peças emprestadas em protótipos é prática comum: o que interessa nesta fase é a mecânica e a plataforma, não o visual definitivo.
Leapmotor: a chinesa da Stellantis
A Leapmotor é uma fabricante chinesa de elétricos fundada em 2015, em Hangzhou, que se destacou pela verticalização — desenvolve internamente motores, baterias, eletrônica e software — e por preços agressivos no mercado chinês. Em 2023, a Stellantis comprou cerca de 20% da empresa e criou com ela a Leapmotor International, joint venture controlada pelo grupo europeu com direitos exclusivos de fabricar e vender os veículos da marca fora da China. É por essa via que o C10 chegou ao Brasil em 2025, importado, e é por ela que a Stellantis pode produzir localmente modelos Leapmotor em suas fábricas — Betim, Goiana ou Porto Real — sem depender de importação. A picape testada em Curvelo é o primeiro sinal de que a plataforma chinesa vai virar produto desenvolvido no Brasil.
Monobloco x chassi: por que importa
A picape monobloco — carroceria e estrutura integradas, como num carro de passeio — oferece conforto, dirigibilidade e economia superiores às picapes de chassi sobre longarinas, como Hilux e Ranger, mas com menor capacidade de carga e reboque. É a receita da Strada e da Toro, que dominam o segmento, e é a que faz sentido para o híbrido: a bateria de 28,4 kWh cabe no assoalho de uma plataforma de SUV. Uma picape de chassi híbrida exige projeto muito mais caro — o que explica por que Toyota e Ford demoram.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o motor flex em 2027 é o detalhe decisivo. "Híbrido plug-in que recarrega a bateria com etanol é o produto que o Brasil pede há dez anos e que ninguém entregou. A Stellantis vai ter isso no C10 em 2027 e, se a picape sair, nela também. Uma picape que roda elétrica na cidade e queima etanol na estrada para gerar energia é imbatível em custo por quilômetro — e é tecnologia que a BYD ainda não tem. Se a Fiat acertar o preço, muda o segmento", analisa.
A Stellantis não confirmou oficialmente o projeto nem prazo de lançamento. O Leapmotor C10 Reev, base da picape, é vendido no Brasil e deve receber o motor gerador flex em 2027.