Teleférico do Alemão, parado há dez anos, entra na reta final da recuperação
Inaugurado em julho de 2011, operou cinco anos e três meses e parou em outubro de 2016; estações foram saqueadas, e a garantia dos cabos da Poma subiu para dez anos.
Teleférico do Alemão, parado há dez anos, entra na reta final da recuperação: troca dos cabos de sustentação das gôndolas começa na próxima semana, testes seguem até a entrega à Secretaria de Transportes em junho de 2027, e a reabertura ainda não tem data — obra custará R$ 251 milhões, contra os R$ 170 milhões e dois anos prometidos por Cláudio Castro em 2022, e o sistema terá ficado mais tempo desativado do que funcionou
Desativado desde outubro de 2016, quando parou por falta de manutenção em meio à crise financeira do estado do Rio de Janeiro, o Teleférico do Alemão começa a ter os cabos de sustentação das gôndolas trocados na próxima semana. Ainda serão feitos testes com carga e sem carga até a entrega do serviço à Secretaria estadual de Transportes, em junho do próximo ano, e não há previsão de quando os moradores poderão voltar a usar o transporte. Mesmo sem novos imprevistos, as gôndolas terão ficado mais tempo paradas do que funcionando: inaugurado em julho de 2011 como grande obra para a cidade, o teleférico operou apenas cinco anos e três meses. As informações são do InfoMoney.
O custo final da recuperação ficará em R$ 251 milhões, segundo o governo — valor que inclui a reforma das seis estações (Bonsucesso, Adeus, Baiana, Alemão, Itararé e Paineiras), a compra de materiais importados e a instalação da nova tecnologia. Em 2022, a previsão do então governador Cláudio Castro era gastar R$ 170 milhões e retomar o serviço em dois anos; o cronograma não foi cumprido e o orçamento foi revisto. "Os cabos novos são mais resistentes que os originais, tendo uma vida útil de dez anos, o dobro do material inicial. Além disso, as gôndolas passaram por uma modernização. Um novo sistema melhorará a ventilação interna e também impedirá a entrada de água da chuva", disse o secretário estadual de Obras Públicas, Pablo Villarim. A equipe do governador em exercício Ricardo Couto, no cargo desde março, precisou renegociar os contratos da recuperação; uma das preocupações era o prazo de garantia dos cabos dado pela multinacional francesa Poma, fornecedora, que concordou em ampliá-lo de cinco para dez anos sem custo adicional, já que o material não chegou ao Brasil de uma vez. Além de cabos e gôndolas, foram recuperadas as instalações que abrigaram a sede da Unidade de Polícia Pacificadora na estação Alemão e outros órgãos do estado, bem como dispositivos elétricos e eletrônicos: na crise de 2016, contratos com as empresas de segurança foram rescindidos, e os espaços acabaram invadidos e saqueados — fios de cobre e esquadrias de alumínio foram furtados em quase todas as estações; só a de Bonsucesso, mais afastada da comunidade e onde foram armazenadas as 152 gôndolas, ficou mais preservada.
2011: a obra-símbolo do PAC e da pacificação
O teleférico foi inaugurado em julho de 2011 pela presidente Dilma Rousseff e pelo governador Sérgio Cabral como peça central do PAC das Favelas no Complexo do Alemão — 3,5 quilômetros de cabos, seis estações, 152 gôndolas com capacidade para dez passageiros, integração com o trem em Bonsucesso e viagem gratuita para moradores —, inspirado no Metrocable de Medellín; chegou meses após a ocupação militar do complexo, em novembro de 2010, e da instalação das UPPs, e virou cartão-postal da "pacificação", visitado por chefes de Estado e celebridades. Transportava cerca de 10 mil pessoas por dia, mas o custo de operação — pago pelo estado à concessionária — e a queda de receita com a crise de 2015-16 levaram à suspensão em outubro de 2016, enquanto a UPP se desfazia e o tráfico retomava o território. Dez anos depois, a recuperação é feita sob o governo interino de Ricardo Couto, com custo 48% maior que o previsto em 2022 e sem data para o morador subir de novo.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o teleférico é a metáfora perfeita do Rio de Janeiro. "Custou centenas de milhões, funcionou cinco anos, parou por falta de dinheiro para manutenção, foi saqueado — cobre e alumínio levados de todas as estações — e vai custar mais 251 milhões para voltar, sem data. Castro prometeu 170 milhões e dois anos em 2022; saiu para a campanha em março e deixou a conta para um desembargador. O que sobrou de bom: a Poma dobrou a garantia dos cabos de graça, e as gôndolas estavam guardadas em Bonsucesso. O que falta: dizer ao morador do Alemão quando ele vai subir. Enquanto isso, o governo federal e o estado assinam acordo para 'retomar territórios' — o teleférico é a prova de que retomar é fácil e manter é o que ninguém faz", avalia.
R$ 170 milhões para R$ 251 milhões: o estouro
A previsão de 2022 não incluía a extensão dos danos descobertos nas estações, a inflação de materiais importados — cabos, motores e componentes da Poma — e a renegociação de contratos; o valor atual, 48% maior, é considerado definitivo pelo governo. A obra é financiada com recursos do estado e do acordo de recuperação fiscal.
Poma: a fornecedora e a garantia
A francesa Poma, uma das maiores fabricantes de teleféricos do mundo — responsável por sistemas em Medellín, La Paz e estações de esqui —, forneceu o sistema original em 2011 e os cabos novos; a ampliação da garantia de cinco para dez anos, sem custo, foi obtida porque o material chegou em lotes ao longo de meses, e é o ponto que a gestão Couto apresenta como conquista da renegociação.
Testes até junho de 2027: o que falta
Após a troca dos cabos, o sistema passa por testes sem carga, com carga simulada e com operação assistida, além de certificação de segurança, antes de ser entregue à Secretaria de Transportes em junho de 2027; a definição do operador, do modelo de custeio e da data de reabertura ao público depende do governo eleito em outubro, que assume em janeiro.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a pergunta certa não é quando reabre, mas quem paga para funcionar. "O teleférico parou em 2016 porque o estado não tinha dinheiro para a operação — não porque os cabos quebraram. Consertar custa 251 milhões; operar custa dezenas de milhões por ano, com passagem gratuita para o morador. Se o próximo governador não reservar orçamento permanente, o sistema reabre em 2027 e para de novo em 2030. A cidade de Medellín, que inspirou o projeto, opera seus teleféricos há 20 anos porque integrou ao metrô e ao orçamento. O Rio precisa decidir se o Alemão é transporte público ou cartão-postal", observa.
Complexo do Alemão: o território
Conjunto de 13 favelas na zona norte, com cerca de 70 mil moradores, o Alemão foi ocupado pelas forças de segurança em 2010, recebeu UPPs e obras do PAC, e voltou ao controle do Comando Vermelho com o esvaziamento das unidades a partir de 2016; foi um dos alvos da operação policial de outubro de 2025, a mais letal da história do Rio. O teleférico ligava as comunidades ao trem em Bonsucesso e cortava em minutos deslocamentos de uma hora.
Saque das estações: o que foi levado
Com a rescisão dos contratos de segurança em 2016, as estações — inclusive a sede da UPP na estação Alemão — foram invadidas e depredadas: fiação de cobre, esquadrias de alumínio, equipamentos elétricos e eletrônicos desapareceram; a recuperação incluiu a reconstrução dessas instalações, e a estação Bonsucesso, protegida pela distância, preservou as gôndolas.
Medellín e La Paz: os modelos que funcionam
O Metrocable de Medellín, desde 2004, e o Mi Teleférico de La Paz, desde 2014, operam redes de teleféricos integradas ao transporte urbano, com tarifa, orçamento público permanente e manutenção contínua; são as referências que o projeto carioca citou em 2011 e que o Rio não conseguiu replicar na gestão.
Ricardo Couto: o governador interino e a obra
Presidente do Tribunal de Justiça, Couto assumiu o governo em março pela linha sucessória e herdou obras paradas e contratos em revisão; a renegociação com a Poma e a definição do custo final são apresentadas por sua equipe como marco. Sem candidatura, ele entrega o teleférico em testes ao sucessor.
O que o morador pode esperar
Cabos novos a partir da próxima semana, meses de testes, entrega em junho de 2027 e, depois, a decisão do próximo governo sobre operação e data; a promessa original — subir de graça do Alemão a Bonsucesso em 16 minutos — segue sem prazo, dez anos depois de parar.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia deve ser lida como advertência para qualquer obra pública. "Teleférico é tecnologia simples e provada — Medellín opera há 20 anos. O que o Rio não teve foi manutenção, segurança das estações e orçamento de operação. Resultado: cinco anos funcionando, dez parados, 251 milhões para consertar o que o descaso destruiu. A troca de cabos na semana que vem é boa notícia; a ausência de data de reabertura é a notícia de verdade. Que o próximo governador assuma o teleférico como linha de transporte, com orçamento, e não como inauguração", analisa.
O início da troca dos cabos do Teleférico do Alemão, desativado desde outubro de 2016, foi anunciado pelo governo do estado do Rio de Janeiro e noticiado pelo InfoMoney em 5 de setembro de 2026; a entrega do sistema à Secretaria de Transportes está prevista para junho de 2027, sem data de reabertura ao público.