Alemanha acusa Rússia por drone e Europa fala em guerra híbrida
Explosivo não detonou no ataque da madrugada de 4 para 5 de agosto; quase metade dos 151 casos ocorreu no primeiro semestre de 2024.
Alemanha acusa nominalmente a Rússia de lançar um drone carregado de explosivos contra um cargueiro ucraniano no aeroporto de Leipzig, e a Europa passa do temor à constatação: levantamento conta 151 sabotagens, incêndios criminosos e ações atribuídas a Moscou no continente desde 2022 — a Polônia lidera com 31 —, e o IISS soma 144 incidentes com drones em dois anos; analistas alertam que o desgaste da guerra aprofunda a aposta russa na "guerra híbrida de baixo custo"
Há meses os serviços de inteligência europeus repetiam, quase em coro, que a Rússia testava as fronteiras do continente com sabotagens, drones e ciberataques — uma hipótese amplamente compartilhada, mas uma hipótese. Na terça-feira (1º de setembro), o governo alemão tirou o assunto desse terreno: acusou nominalmente Moscou de ter enviado um drone carregado de explosivos contra um avião cargueiro ucraniano no aeroporto de Leipzig, na madrugada de 4 para 5 de agosto, sem que o explosivo chegasse a detonar. A reação em Berlim e nas demais capitais, mesmo entre quem já esperava a confirmação, foi de choque: uma coisa é temer algo em abstrato; outra é vê-lo, de repente, com nome, data e responsável apontados por um governo do G7. As informações são de análise publicada pela Folha.
O caso alemão é o capítulo mais recente de uma escalada que os números desenhavam havia meses. Levantamento do International Centre for Counter-Terrorism, em parceria com o think tank eslovaco Globsec, contabilizou 151 casos de sabotagem, incêndios criminosos e outras ações atribuídas à Rússia na Europa entre fevereiro de 2022 e fevereiro deste ano — quase metade só no primeiro semestre de 2024; a Polônia lidera, com 31 casos, seguida por França, Lituânia, Alemanha, Reino Unido e Estônia. Drones à parte, o britânico International Institute for Strategic Studies soma 144 incidentes desse tipo na Europa nos últimos dois anos, todos ligados a Moscou. O alerta já viera de Vilnius e Varsóvia em julho; a diferença é que agora veio de Berlim, sobre solo alemão, do próprio governo federal — mudança de endereço que consolida nas capitais europeias um temor específico: não o de confronto direto com a Otan, considerado improvável no curto prazo, mas o de uma escalada por essa porta lateral, feita de provocações pequenas o bastante para ficarem impunes, até que uma delas force uma resposta que ninguém planejou dar. Para o analista Maksym Beznosiuk, do Carnegie Endowment, essa lógica só deve se aprofundar: o desgaste econômico e militar da Rússia no quarto ano de guerra não torna o Kremlin mais cauteloso — "essas pressões devem aprofundar a dependência de Moscou de uma guerra híbrida de baixo custo", sobretudo ao longo do flanco leste da Otan.
Leipzig: por que o aeroporto alemão é alvo
O aeroporto de Leipzig-Halle é o maior hub de carga aérea da Alemanha e um dos principais da Europa — base da DHL e ponto de passagem de suprimentos para a Ucrânia, incluindo material militar transportado por cargueiros ucranianos como o atacado em agosto —; já em julho de 2024, pacotes incendiários enviados por serviços russos explodiram em um centro da DHL na cidade, num esquema que, segundo investigações alemãs e polonesas, testava a possibilidade de incendiar aviões de carga em voo. O drone com explosivos contra um avião no pátio é o passo seguinte: ataque direto a uma aeronave em território da Otan, com risco de vítimas e de interrupção de uma rota logística central da guerra. Que o explosivo não tenha detonado é o que separou o episódio de uma crise de outra escala — e é o que permitiu a Berlim tratá-lo como acusação diplomática, e não como agressão que exigisse resposta militar.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a análise captura o dilema europeu com precisão. "Cento e cinquenta e uma sabotagens, 144 incidentes com drones, e a Otan não reage porque cada um, isolado, é pequeno demais para o Artigo 5. Moscou sabe disso e calibra: pacote incendiário, drone que não explode, cabo submarino cortado, incêndio em depósito. A Alemanha nomear a Rússia é a novidade — Berlim passou anos evitando —, e o próprio governo alemão diz que teme não a guerra, mas o dia em que uma provocação dessas mata gente e obriga a responder. Beznosiuk tem razão: a Rússia, quanto mais pressionada na Ucrânia, mais aposta no barato e no negável. A Europa precisa decidir o que faz com 151 casos antes que o 152º seja o que ninguém planejou", avalia.
151 casos: o mapa da sabotagem
O levantamento do ICCT e da Globsec reúne incêndios em depósitos e fábricas de armamento, sabotagem de ferrovias usadas para suprimentos à Ucrânia, vandalismo de monumentos, ataques a cabos submarinos no Báltico, recrutamento de criminosos locais pela internet e operações de espionagem; a Polônia, corredor logístico da ajuda a Kiev, lidera com 31, e a concentração no primeiro semestre de 2024 coincide com a ofensiva russa em Kharkiv e a decisão europeia de ampliar a ajuda militar.
144 drones: os incidentes que o IISS contou
Sobrevoos de bases, aeroportos e usinas por drones não identificados, incursões no espaço aéreo da Polônia, da Romênia e dos países bálticos, e — como em Leipzig — drones armados; em setembro de 2025, caças da Otan derrubaram drones russos sobre a Polônia, no primeiro engajamento direto da aliança desde o início da guerra. A contagem do IISS exclui esses do inventário de sabotagens por serem de outra natureza — e por serem mais numerosos.
Guerra híbrida: o que é e por que é "de baixo custo"
Ações abaixo do limiar da guerra convencional — sabotagem, desinformação, ciberataques, pressão migratória, assassinatos —, executadas por serviços de inteligência com intermediários descartáveis, que permitem negar autoria e evitar retaliação formal; custam pouco, exigem poucos recursos militares e produzem medo, divisão política e custos de segurança desproporcionais no alvo. É a ferramenta que Moscou usa contra a Europa desde 2014 e intensificou com a guerra.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a resposta europeia está sendo construída — e é o que Moscou testa. "A Otan mandou Tomahawk para a Noruega, a Alemanha nomeou a Rússia, a Polônia derrubou drone em 2025, a Noruega apreendeu navio russo em Svalbard. A Europa está respondendo, peça por peça, sem declarar guerra. O risco que a análise aponta é o do acidente: um drone que explode, um cargueiro que cai, um cabo que apaga um país báltico — e a resposta que ninguém planejou vira obrigação. A Rússia aposta que a Europa hesita; a Europa aposta que a Rússia não quer a guerra total. Os dois podem estar certos até o dia em que um erra. Enquanto isso, Witkoff e Kushner negociam em Moscou como se nada disso existisse", observa.
Polônia, França, Lituânia: os mais atingidos
A Polônia, com 31 casos, sofreu incêndios em centros comerciais e depósitos e sabotagem ferroviária; a França viu ataques a infraestrutura antes das Olimpíadas de 2024 e vandalismo coordenado; a Lituânia, incêndios em lojas e pressão na fronteira com Belarus; o Reino Unido, incêndio em depósito ligado à Ucrânia com condenações de recrutados pela Wagner. Todos expulsaram diplomatas russos.
Cabos submarinos e o Báltico
Desde 2023, cabos de energia e telecomunicações entre Finlândia, Estônia, Suécia e Alemanha foram danificados por navios da "frota fantasma" russa arrastando âncoras; a Otan lançou a operação Sentinela do Báltico para patrulhar. É a sabotagem de maior impacto potencial — e a mais difícil de provar.
A resposta alemã: de Scholz a Merz
O governo de Friedrich Merz, mais assertivo que o de Olaf Scholz, nomeou a Rússia, convocou o embaixador, ampliou o orçamento de defesa e discute derrubar drones sobre território alemão — medida que exige mudança legal. A acusação de Leipzig é o ponto mais alto dessa virada.
Artigo 5: o limiar que ninguém quer testar
A cláusula de defesa coletiva da Otan aplica-se a "ataque armado"; sabotagens e drones sem vítimas não a acionam, e é justamente nessa zona cinzenta que a Rússia opera. A aliança discute se ações híbridas cumulativas podem configurar ataque — debate sem consenso, que a Rússia explora.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a análise deve ser lida no Brasil como lição sobre negação plausível. "Cento e cinquenta e um casos, e a Rússia não admite nenhum. É o método: agir pequeno, negar tudo, deixar que o alvo gaste com segurança e brigue internamente sobre a resposta. A Alemanha demorou dois anos para dizer o nome. O portal registra a data — 1º de setembro de 2026 — porque é quando a Europa parou de fingir que não sabia. O que vem depois depende de Moscou errar a mão ou de a Europa decidir que 151 já é demais. Nenhum dos dois cenários é bom; o segundo, pelo menos, é escolha", analisa.
A acusação do governo alemão contra a Rússia pelo drone com explosivos lançado contra um cargueiro ucraniano no aeroporto de Leipzig foi feita em 1º de setembro de 2026, e a análise sobre a escalada de sabotagens na Europa foi publicada pela Folha em 3 de setembro. O levantamento do ICCT e da Globsec contabiliza 151 casos entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026.