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Conflitos

Ben-Gvir apresenta plano para esvaziar Gaza em sete anos

Ministro sob sanção de seis países diz que o plano "é realista" e que há nações "dispostas" a acolher, sem citar quais; deslocamento forçado é crime de guerra.

Capa do artigo Ben-Gvir apresenta plano para esvaziar Gaza em sete anos
— Foto: Kobi Gideon / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Ben-Gvir apresenta plano para esvaziar Gaza em sete anos: 250 mil palestinos "incentivados a emigrar" no primeiro ano e os 2 milhões restantes nos seis seguintes; proposta de "forte caráter eleitoral" a sete semanas do pleito israelense é chamada pelo Hamas de deslocamento forçado

O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, apresentou na quinta-feira (3) um plano para expulsar todos os palestinos da Faixa de Gaza e enviá-los ao exterior: 250 mil no primeiro ano e os cerca de 2 milhões restantes ao longo dos seis seguintes. Do partido de ultradireita Poder Judaico, Ben-Gvir descreveu o projeto — de "forte caráter eleitoral", com pleito geral marcado para 27 de outubro — como "realista": "Temos que incentivar a emigração dos habitantes de Gaza", disse, afirmando que não se trata de obrigar os palestinos a abandonar suas terras e que vários países estão "dispostos" a acolhê-los, sem especificar quais. O Hamas pediu nesta sexta-feira (4) que países árabes e muçulmanos se oponham ao que classificou como tentativa de deslocamento forçado. As informações são da Folha de S.Paulo.

O deslocamento forçado de civis de território ocupado é crime de guerra segundo a Convenção de Genebra. Para os palestinos, qualquer tentativa de expulsão remete à Nakba — "catástrofe" —, o êxodo de 1948 após a fundação do Estado de Israel. Ben-Gvir é aliado fundamental na frágil coalizão do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, e suas declarações já provocaram condenações internacionais.

O plano: 250 mil no primeiro ano

A proposta prevê a saída de 250 mil pessoas em doze meses — mais de 10% da população do território, devastado por quase três anos de guerra — e o esvaziamento completo em sete anos. Não há detalhes sobre mecanismos, destinos ou financiamento; a fórmula de "incentivar a emigração" é a mesma usada por Ben-Gvir e pelo ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, desde 2024, quando passaram a defender publicamente a "emigração voluntária" como solução para Gaza. O ministro da Defesa, Israel Katz, do Likud, afirmou que o governo tem planos para deslocar os palestinos, mas aguarda decisão dos Estados Unidos sobre para onde levá-los.

Para , editor do portal, a fala de Katz é mais grave que a de Ben-Gvir. "Ben-Gvir é extremista assumido, sancionado por seis países, proibido de entrar na França. O que ele diz choca, mas não surpreende. O que surpreende é o ministro da Defesa, do partido de Netanyahu, dizer que o governo tem plano de deslocamento e só espera os EUA definirem o destino. Isso tira a ideia do campo da provocação eleitoral e a coloca no campo da política de Estado. Quando o Likud fala em 'para onde', a pergunta 'se' já foi respondida. A comunidade internacional deveria ouvir Katz, não Ben-Gvir", avalia.

Eleição em 27 de outubro

Israel vai às urnas em sete semanas, em disputa apontada como muito acirrada e sem clareza sobre se a coalizão atual continuará no poder. O plano de Ben-Gvir é lido como peça de campanha para o eleitorado da ultradireita — que defende a reocupação de Gaza com assentamentos — e como pressão sobre Netanyahu para não ceder em negociações de cessar-fogo ou de reconstrução que pressuponham a permanência dos palestinos.

"30 a 40 por dia": o histórico de declarações

Em 16 de agosto, Ben-Gvir disse que Israel deveria matar "de 30 a 40" pessoas todos os dias em Gaza e construir assentamentos no território — fala que levou a condenações até da Alemanha, que por sua responsabilidade no Holocausto evita se posicionar contra Israel; o chanceler Friedrich Merz afirmou por porta-voz que "declarações que ferem o direito internacional e a dignidade humana não são aceitáveis". Em junho, durante ataques entre Israel e Hezbollah, escreveu: "Para cada lágrima de uma mãe israelense, mil mães libanesas precisam chorar. Todo o Líbano precisa queimar!". Em novembro de 2023: "Quando digo que o Hamas precisa ser eliminado, isso também inclui aqueles que cantam, aqueles que apoiam e aqueles que distribuem doces. Todos são terroristas." Em 2019, defendeu expulsar cidadãos israelenses de origem árabe "não suficientemente leais".

O vídeo de IA e a prisão

No começo da semana, Ben-Gvir publicou — e depois apagou — vídeo gerado por inteligência artificial comemorando a fome de prisioneiros palestinos no sistema prisional israelense, que ele administra. As imagens mostram supostos terroristas contentes ao serem condenados, imaginando regalias, e o ministro apertando um botão que retira os benefícios; os presos entram gordos numa linha de montagem e saem magros, famintos e em prantos. Críticos compararam a prisão do vídeo a um campo de concentração nazista.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o vídeo explica o plano. "Um ministro que faz vídeo de IA celebrando gente faminta na prisão que ele comanda, e apaga quando percebe o que fez, está dizendo quem é. O plano de expulsar 2 milhões é a versão em política pública da mesma mentalidade. O problema de Israel não é ter um Ben-Gvir — toda democracia tem seu extremista. É que ele é ministro, é peça da coalizão e é quem Netanyahu precisa para governar. Enquanto isso durar, o plano não é de um homem; é do governo. E a eleição de outubro é onde Israel decide se continua", observa.

Sanções: seis países e a França

Ben-Gvir está sob sanção de Reino Unido, Austrália, Canadá, França, Irlanda e Noruega. A diplomacia francesa o proibiu de entrar no país após ele publicar vídeo de ativistas da flotilha humanitária a Gaza detidos com as mãos amarradas e a testa no chão, com a legenda "bem-vindos a Israel, é assim que tratamos os apoiadores do terrorismo" e o hino israelense em volume alto. É situação rara: um ministro em exercício de país aliado do Ocidente sancionado por parceiros do próprio Ocidente.

Direito internacional: o que diz Genebra

A Quarta Convenção de Genebra proíbe transferências forçadas, individuais ou em massa, de população de território ocupado, "qualquer que seja o motivo"; o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional classifica a deportação ou transferência forçada de população como crime contra a humanidade. A fórmula da "emigração voluntária" em território sem água, comida, hospitais ou casas é o que juristas chamam de coerção por condições — e é o argumento do Hamas e de organizações de direitos humanos contra o plano.

Nakba: a memória de 1948

Cerca de 700 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de suas casas em 1948, na guerra que se seguiu à criação de Israel — evento que os palestinos chamam de Nakba e que fundou a questão dos refugiados, hoje com milhões de descendentes em Gaza, na Cisjordânia, na Jordânia, no Líbano e na Síria. Boa parte da população de Gaza é formada por refugiados de 1948 e seus descendentes; um novo êxodo seria, para eles, a segunda catástrofe.

A aritmética da coalizão

Netanyahu governa com maioria estreita no Knesset, dependente do Poder Judaico de Ben-Gvir e do Sionismo Religioso de Smotrich — partidos que, juntos, dão os assentos sem os quais a coalizão cai. É essa dependência que explica por que o primeiro-ministro não demite um ministro sancionado por seis aliados ocidentais e por que propostas como a expulsão de Gaza são toleradas: romper com Ben-Gvir antes de 27 de outubro significaria ir às urnas sem governo. Depois da eleição, a conta muda — e é por isso que o plano é lido como tentativa de fixar a agenda antes que ela seja reescrita.

Gaza hoje: 2 milhões entre ruínas

A população de Gaza, estimada em cerca de 2,1 milhões antes da guerra, vive majoritariamente deslocada dentro do próprio território, em acampamentos e prédios parcialmente destruídos, com acesso restrito a água, comida e atendimento médico. A ONU estima que a maior parte das moradias foi danificada ou destruída. É nesse contexto que a fórmula de "incentivar a emigração" é lida por organizações humanitárias como coerção: quem não tem casa, hospital nem escola não escolhe livremente partir.

A posição dos EUA

A referência de Katz a uma decisão americana sobre o destino dos palestinos remete à proposta de Donald Trump, em 2025, de "assumir" Gaza e realocar a população em países vizinhos — rejeitada por Egito, Jordânia e Arábia Saudita. Não há, até o momento, país que tenha aceitado publicamente receber palestinos de Gaza em escala. A "disposição" de países que Ben-Gvir menciona sem nomear não tem confirmação.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Brasil tem posição a manter. "O Brasil reconhece o Estado palestino, chamou a guerra de genocídio e levou Israel ao debate na ONU. O plano de Ben-Gvir é a materialização do que o Itamaraty denunciava. A resposta brasileira deve ser a mesma da Alemanha — que é a mais difícil de dar e por isso a mais importante: não é aceitável. Sem ambiguidade. O que acontece em Gaza em outubro depende de eleitores israelenses; o que o mundo diz sobre isso depende de cada chancelaria. O Brasil já disse; cabe repetir", analisa.

O plano apresentado por Itamar Ben-Gvir em 3 de setembro de 2026 não foi formalmente adotado pelo governo israelense. As eleições gerais em Israel estão marcadas para 27 de outubro.

Fontes e referências

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