Equador defende ataques dos EUA que afundaram três embarcações
"Não entendo por que o governo dos EUA tem de agir de forma tão arbitrária", diz Rosalba, mulher de um tripulante; barco levava só peixe, afirma.
Equador defende os ataques dos Estados Unidos que interceptaram e afundaram três embarcações equatorianas no Pacífico nesta semana, enquanto famílias dizem que os tripulantes eram pescadores: "Esse é um trabalho realizado por meio da cooperação internacional", diz o ministro do Interior, John Reimberg; Comando Sul liga os barcos à facção Los Choneros, classificada como terrorista, e 28 tripulantes chegaram a Manta pela guarda costeira
O Equador defendeu na sexta-feira (4 de setembro) as operações dos Estados Unidos que interceptaram e afundaram três embarcações equatorianas nesta semana, enquanto parentes de alguns tripulantes afirmam que os homens eram pescadores e acusam Washington de agir sem provas. O episódio é o mais recente de uma campanha cada vez mais ampla dos Estados Unidos contra o tráfico marítimo de drogas no Pacífico, que tem provocado críticas de grupos de direitos humanos e preocupação na América Latina com o uso da força no mar. As informações são da Folha.
Familiares contestaram a versão oficial. A esposa de um dos tripulantes, que se identificou por telefone apenas como Rosalba, 47, disse que os homens estavam pescando quando foram abordados e que nenhuma droga foi encontrada: "Não entendo por que o governo dos EUA tem de agir de forma tão arbitrária", afirmou, acusando Washington de violar os direitos dos pescadores; segundo ela, a embarcação transportava apenas peixes e foi atingida em águas equatorianas, não internacionais — relato que a Reuters não conseguiu verificar. O governo do Equador afirmou que a operação resultou de investigações conjuntas com Washington voltadas ao combate à logística do tráfico ligada a facções criminosas. "Esse é um trabalho realizado por meio da cooperação internacional", disse o ministro do Interior, John Reimberg, à Teleamazonas, acrescentando que as embarcações serviam como pontos flutuantes de reabastecimento para lanchas rápidas que levam drogas ao norte, rumo ao México e aos Estados Unidos. O Comando Sul afirmou que os barcos tinham ligação com Los Choneros, importante facção equatoriana que ganhou proeminência na onda de violência que toma o país e que Washington considera grupo terrorista; um vídeo divulgado pelos militares mostrou, em imagens monocromáticas, agentes se aproximando de uma embarcação e subindo a bordo antes que ela fosse explodida no mar — a Reuters não verificou data ou local. A Marinha equatoriana informou que 28 tripulantes de duas embarcações chegaram a Manta às 15h, a bordo de um navio da guarda costeira.
Do Caribe ao Pacífico: a campanha americana contra os barcos
Desde setembro de 2025, os Estados Unidos atacam embarcações que descrevem como de traficantes — primeiro no Caribe, contra barcos vindos da Venezuela, depois no Pacífico oriental, a rota da cocaína colombiana e equatoriana para o México —, com mais de 200 mortos até agora, segundo contagens de imprensa e organizações; a base jurídica invocada por Washington é a designação de cartéis e facções como organizações terroristas, que permite ao Pentágono tratar tripulantes como combatentes, sem abordagem, prisão ou julgamento. O episódio equatoriano tem uma diferença: ao menos duas das três embarcações foram abordadas antes de serem afundadas — o vídeo mostra agentes subindo a bordo — e 28 tripulantes foram entregues vivos à guarda costeira em Manta, o que sugere operação conjunta com o Equador, e não ataque à distância. É esse formato — abordagem, apreensão, destruição do barco, tripulantes ao país de origem — que o governo Noboa defende como cooperação, e que as famílias, dizendo que os barcos levavam peixe e estavam em águas equatorianas, contestam.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o caso equatoriano é o teste da doutrina americana no Pacífico. "No Caribe, os Estados Unidos afundam barco e não sobra ninguém para contar; no Equador, abordaram, tiraram 28 pessoas e explodiram os barcos. É melhor — mas a pergunta é a mesma: quem decide que um barco de pesca é 'ponto flutuante de reabastecimento'? O Comando Sul diz que é Los Choneros; a mulher do tripulante diz que era peixe e água equatoriana. Nenhum juiz viu prova. O governo Noboa, aliado de Trump e em guerra contra as facções, prefere a cooperação à soberania — e tem razão em parte: o Equador virou o maior exportador de cocaína do mundo e não dá conta sozinho. Mas pescador de Manta afundado por engano é o preço que a doutrina do 'domínio das Américas' cobra, e alguém vai pagar", avalia.
Los Choneros: a facção que virou "terrorista"
Nascida nos anos 1990 em Manta e Chone, na província de Manabí, a facção controla presídios, portos e rotas de cocaína no litoral equatoriano em aliança com o cartel de Sinaloa; seu líder, "Fito", fugiu da prisão em 2024, foi recapturado em 2025 e extraditado aos Estados Unidos. Washington a designou organização terrorista em 2025, junto com Los Lobos — o que abriu caminho para ataques militares a seus supostos barcos.
Equador: de país tranquilo a rota da cocaína
Entre a Colômbia e o Peru, maiores produtores de coca, e com portos no Pacífico — Guayaquil, Manta, Esmeraldas —, o Equador tornou-se na década de 2020 a principal saída da cocaína para Estados Unidos e Europa; a taxa de homicídios multiplicou por oito, facções tomaram presídios e cidades, e o presidente Daniel Noboa declarou "conflito armado interno" em 2024 e busca apoio militar americano, inclusive com a proposta de reabrir bases estrangeiras.
Manta: a cidade dos pescadores e da antiga base americana
Maior porto pesqueiro do Equador — atum, sobretudo —, Manta abrigou uma base aérea americana de vigilância antidrogas até 2009, quando o governo de Rafael Correa a fechou; Noboa propôs reabri-la, e a chegada dos 28 tripulantes pela guarda costeira à cidade tem simbolismo: é onde pesca e narcotráfico se misturam, e onde a presença americana volta pela porta do mar.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o vídeo monocromático é a peça central. "Os militares americanos mostram agentes subindo no barco e depois a explosão — e a Reuters não consegue verificar data nem local. É a mesma coreografia que o presidente colombiano usou com os sacos mortuários e que Bukele usa com presos: imagem como prova, sem processo. A diferença é que aqui houve abordagem e 28 pessoas vivas, o que permite fazer o que o Caribe não permite: perguntar a elas. Se eram pescadores, a Justiça equatoriana pode dizer; se eram de Los Choneros, também. O portal registra que o único caminho para separar peixe de cocaína é o tribunal — e que ninguém em Quito ou Washington parece interessado nele", observa.
Os 28 tripulantes: o que acontece com eles
Entregues à Marinha equatoriana e levados a Manta, os tripulantes das duas embarcações abordadas serão ouvidos pela Promotoria; se houver indício de ligação com facções, respondem por narcotráfico; se não, são liberados — e as famílias prometem ação por danos. O destino da terceira embarcação e de sua tripulação não foi detalhado.
Direitos humanos: as críticas
Organizações como Human Rights Watch e Anistia Internacional classificam os ataques a barcos como execuções extrajudiciais e pedem investigação; governos latino-americanos, incluindo o Brasil, o México e a Colômbia de Petro, protestaram em 2025; os aliados de Trump — Equador, Argentina, agora Colômbia — defendem. A ONU pediu esclarecimentos sobre a base legal.
Cooperação ou soberania: o dilema equatoriano
Noboa aposta que apenas com apoio americano o Equador enfrenta facções que superam suas forças; críticos apontam que ceder o mar e reabrir bases entrega a segurança nacional a outro país e expõe pescadores. O caso desta semana é o primeiro em que famílias contestam publicamente a versão conjunta dos dois governos.
Rubio na região: a viagem da próxima semana
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, visita Equador, Colômbia e Peru entre 8 e 10 de setembro para "fortalecer alianças" e discutir o "combate conjunto ao narcoterrorismo"; o encontro com Noboa deve consolidar a cooperação marítima que afundou os três barcos — e que o "domínio das Américas" anunciado por Washington pretende ampliar.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia deve ser lida junto com as outras da semana. "Presidente colombiano com cadáveres, Milei exaltando Pinochet, Rubio viajando para consolidar o 'domínio das Américas', e três barcos equatorianos afundados com o aplauso de Quito. É um continente sendo reorganizado pela força, com aliados que aceitam porque estão em guerra com facções e não têm alternativa. O Brasil, fora do roteiro de Rubio, tem a chance de ser a alternativa — se quiser. Enquanto isso, a mulher do pescador de Manta pergunta por que os Estados Unidos agem 'de forma tão arbitrária'. A resposta é que ninguém os impede", analisa.
A defesa do governo equatoriano às operações americanas que afundaram três embarcações no Pacífico foi feita em 4 de setembro de 2026 e noticiada pela Folha; o Comando Sul dos Estados Unidos atribuiu os barcos à facção Los Choneros, e 28 tripulantes foram levados a Manta pela guarda costeira equatoriana.