Israel toma a colina de Ali Taher
Katz afirma que o grupo xiita usava túneis na colina para lançar drones e mísseis; Israel libertou cinco libaneses como "medida de confiança" nas negociações via EUA.
Israel toma a colina de Ali Taher, declara "concluída a consolidação" da zona de segurança no sul do Líbano e avisa que só sai quando o Hezbollah for desarmado; Irã havia alertado que responderia a ataque à posição, e Cruz Vermelha diz não ter acesso a detidos desde 2023
Israel afirmou nesta sexta-feira (4) que consolidou a "zona de segurança" que ocupa no sul do Líbano após tomar uma colina que servia de posição estratégica ao Hezbollah. O ministro da Defesa, Israel Katz, disse que o avanço "marca a conclusão da fase de consolidação do controle na zona de segurança" e que "Israel não vai se retirar da zona de segurança no Líbano até que o Hezbollah seja desarmado". Segundo Tel Aviv, o grupo havia construído túneis na região para lançar drones e mísseis contra posições israelenses no sul do Líbano e contra o norte de Israel; o Exército agora vai concluir a "neutralização" dos túneis e manter a colina para impedir que o grupo volte. Alguns combatentes foram "eliminados", outros fugiram, segundo os militares. As informações são da Folha de S.Paulo.
O Hezbollah não comentou, e a Reuters não conseguiu verificar a situação de forma independente. Acredita-se que o grupo xiita tenha construído um centro de comando subterrâneo e depósitos de armas dentro da montanha — e o Irã havia advertido os Estados Unidos no mês passado de que responderia com força a um ataque israelense contra as posições de seus aliados na colina.
Ali Taher: por que a colina importa
A colina de Ali Taher, na região de Nabatieh, domina o vale do Litani e as estradas que ligam o sul do Líbano ao interior — posição de observação e lançamento que o Hezbollah usou desde os anos 1990. Tomá-la dá a Israel visão sobre o território que ocupa e nega ao grupo a plataforma de onde partiam drones contra a Galileia. Para Katz, fecha o mapa da zona de segurança: uma faixa de território libanês sob controle israelense, do Mediterrâneo às encostas do Hermon, que o governo declara permanente até o desarmamento do grupo.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a palavra "consolidação" é o dado. "Israel não fala mais em operação, fala em zona de segurança consolidada — e em não sair até o Hezbollah ser desarmado. O Hezbollah não vai se desarmar. Logo, Israel não vai sair. É a repetição de 1985-2000, quando ocupou o sul do Líbano por quinze anos com o mesmo argumento, e saiu sob fogo. A diferença é que agora a ocupação vem depois de uma guerra com o Irã, com o Hezbollah enfraquecido e o Líbano de Aoun negociando com Israel via EUA. Katz está criando o fato consumado antes de qualquer acordo", avalia.
A campanha desde março
Israel ampliou sua presença militar em grandes áreas do sul do Líbano desde março, quando lançou campanha contra o Hezbollah após o grupo atacar o país em retaliação à guerra no Irã. Em seis meses, a operação passou de incursões a ocupação estável, com demolição de vilarejos na faixa fronteiriça — a BBC entrou na área e documentou tropas e demolições apesar do cessar-fogo formal. A "zona de segurança" é o resultado: território libanês sem libaneses, sob controle israelense.
O aviso do Irã
Teerã havia comunicado a Washington, em agosto, que responderia com força a um ataque à colina — advertência que Israel ignorou. Se o Irã cumprir a ameaça, a escalada regional que a guerra de EUA e Israel contra o país iraniano abriu ganha novo capítulo; se não cumprir, confirma-se a leitura de que o Irã, enfraquecido, não tem como proteger seus aliados. A resposta iraniana — ou sua ausência — nos próximos dias será o termômetro.
Detidos: cinco libertados, dezenas sem paradeiro
Nesta sexta, autoridades israelenses transferiram quatro pessoas detidas em Israel ao Líbano por meio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha; um libanês havia sido libertado na quinta. A libertação integra medidas de construção de confiança acordadas nas negociações entre Líbano e Israel mediadas pelos EUA; Tel Aviv afirmou que nenhum dos cinco era do Hezbollah. Um comitê libanês que defende cidadãos sob custódia israelense diz que Israel deteve dezenas de pessoas dentro do Líbano nos últimos seis meses — algumas libertadas, outras ainda presas. O CICV afirmou não ter acesso a nenhuma pessoa detida por Israel desde outubro de 2023: "Muitas famílias no Líbano ainda esperam respostas sobre o destino de entes queridos que podem estar detidos, mortos ou cujo paradeiro permanece desconhecido."
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a frase da Cruz Vermelha é a mais grave do dia. "Três anos sem acesso a nenhum detido. A Cruz Vermelha existe para isso — visitar prisioneiro, confirmar que está vivo, levar notícia à família. Israel fecha a porta desde outubro de 2023, para libaneses e palestinos. Libertar cinco pessoas como 'medida de confiança' enquanto dezenas seguem sem paradeiro é gesto para a mesa de negociação, não para as famílias. O presidente Aoun fala em 'primeiro grupo'; a pergunta é quantos grupos há e quem está na lista", observa.
Aoun e a negociação via EUA
O presidente libanês, Joseph Aoun, eleito em 2025 com apoio ocidental e mandato de reduzir o poder do Hezbollah, disse que os libertados eram um "primeiro grupo" — sinal de que a negociação mediada pelos EUA avança em medidas pontuais enquanto o fundo — retirada israelense e desarmamento do Hezbollah — permanece travado. Netanyahu afirmou que o Líbano devolverá restos mortais de judeus mortos no país na década de 1980, sem nomes ou prazo. São trocas simbólicas que mantêm a mesa aberta.
Desarmar o Hezbollah: a condição impossível
O desarmamento do Hezbollah é exigência da resolução 1701 da ONU, de 2006, nunca cumprida: o grupo é ao mesmo tempo milícia, partido e provedor social da comunidade xiita, e nenhum governo libanês teve força para desarmá-lo. Aoun tenta, com apoio dos EUA e da Arábia Saudita, integrar o arsenal ao Exército; o Hezbollah recusa enquanto Israel ocupar território libanês. É o círculo: Israel não sai sem desarmamento, o Hezbollah não desarma sem saída.
1985-2000: o precedente
Israel manteve uma "zona de segurança" no sul do Líbano de 1985 a 2000, com o Exército do Sul do Líbano como força auxiliar, sob o mesmo argumento — proteger a Galileia. A ocupação alimentou o Hezbollah, que nasceu em 1982 e cresceu combatendo-a; a retirada unilateral de Ehud Barak em 2000 foi celebrada pelo grupo como vitória. A zona de 2026 é a segunda tentativa, contra um Hezbollah mais fraco, mas com a mesma lógica — e o mesmo risco.
Demolições na fronteira
Reportagem da BBC que entrou na área ocupada documentou vilarejos libaneses da faixa fronteiriça demolidos por tropas israelenses apesar do cessar-fogo — casas, mesquitas e estradas —, com moradores impedidos de retornar. O padrão repete o adotado em Gaza e no norte da Cisjordânia: criar uma zona sem população civil ao longo da fronteira, o que Israel chama de segurança e o direito internacional chama de deslocamento forçado. A "zona de segurança" consolidada por Katz é, na prática, essa faixa esvaziada.
O que muda para a região
A consolidação da zona coincide com a eleição israelense de 27 de outubro, com o plano de Ben-Gvir para Gaza e com a pressão dos EUA por acordo Líbano-Israel. Netanyahu chega à campanha com o mapa redesenhado: Gaza devastada, sul do Líbano ocupado, Irã atacado. Para o Líbano, é território perdido e negociação a partir de posição de fraqueza; para o Irã, a prova de que suas advertências não têm peso.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a notícia é sobre o que a palavra "cessar-fogo" passou a significar. "Há cessar-fogo formal entre Israel e Líbano. Dentro dele, Israel toma colina, demole vilarejo, mantém dezenas de detidos sem Cruz Vermelha e declara zona permanente. O Líbano libera comunicado, os EUA mediam, e o Irã ameaça e não faz. Cessar-fogo virou o nome do período em que só um lado atira. O Brasil, que tem a maior comunidade libanesa fora do Líbano — milhões de descendentes —, deveria ter voz nisso. Tem silêncio. É o custo de uma diplomacia que só olha para Gaza", analisa.
Israel declarou concluída a consolidação da "zona de segurança" no sul do Líbano em 4 de setembro de 2026, após tomar a colina de Ali Taher. As negociações entre Líbano e Israel, mediadas pelos Estados Unidos, seguem sem acordo sobre retirada israelense ou desarmamento do Hezbollah.