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Conflitos

Porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln atraca na Tailândia depois de 250 dias sem parar em porto

Bares da Walking Street projetam vídeos para atrair clientes que não vêm; militares que pouparam salários por nove meses são "oportunidade excepcional".

Capa do artigo Porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln atraca na Tailândia depois de 250 dias sem par…
— Foto: iMahesh / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln atraca na Tailândia depois de 250 dias sem parar em porto — recorde — e libera quase 5 mil militares americanos em Pattaya, a "cidade do pecado" que rejeita o apelido: desviado do Pacífico para o Golfo Pérsico quando Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, no fim de fevereiro, o navio chega a uma cidade esvaziada pelo mesmo conflito, que afastou turistas e derrubou o consumo

Após um período recorde de 250 dias no mar sem parada em um porto, o porta-aviões nuclear americano USS Abraham Lincoln atracou na Tailândia na quarta-feira (2 de setembro). A parada perto da cidade de Pattaya proporciona aos quase 5 mil militares a bordo um descanso muito esperado. Pattaya é famosa pela vida noturna e pelo turismo sexual, o que lhe rendeu o apelido de "Cidade do Pecado" — rótulo frequentemente usado pela mídia e rejeitado pelas autoridades tailandesas. As informações são da Folha.

Para os militares americanos, Pattaya evoca memórias históricas: quando os marinheiros cansados entrarem nos bares e restaurantes, estarão seguindo os passos das centenas de milhares de soldados que foram à cidade em busca de descanso e lazer durante a Guerra do Vietnã — presença que transformou uma tranquila vila de pescadores em uma das cidades mais famosas e frenéticas do mundo para festas. Hoje, os becos iluminados com néon que levam à praia estão muito mais tranquilos do que o normal; os bares da famosa Walking Street ainda projetam vídeos de mulheres dançando para atrair visitantes, mas não há muitos clientes — os que aparecem são, na maioria, famílias do Oriente Médio, mais interessadas no vendedor de sorvete turco do que nas casas noturnas. A guerra dos Estados Unidos com o Irã afetou o turismo e o consumo, prejudicando duramente os negócios locais; agora, a perspectiva de receber milhares de militares que economizaram seus salários no mar durante quase nove meses é uma oportunidade excepcional para a região, que reforça o policiamento. O porta-aviões partiu de San Diego em novembro passado para uma missão planejada para durar seis meses no Pacífico e no Mar da China Meridional, mas foi desviado para o Golfo Pérsico depois que Estados Unidos e Israel iniciaram operações militares contra o Irã, no fim de fevereiro.

250 dias no mar: o que a guerra contra o Irã fez com a Marinha americana

Um porta-aviões da classe Nimitz é uma cidade flutuante de 5 mil pessoas, 90 aeronaves e dois reatores nucleares, projetada para ficar meses em operação — mas não sem escalas: a tripulação precisa de porto para descanso, reabastecimento de víveres e manutenção, e as implantações normais duram seis a sete meses com paradas a cada seis ou oito semanas. O Lincoln saiu de San Diego em novembro de 2025 para uma missão de rotina no Pacífico; em fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, foi enviado ao Golfo Pérsico e ali ficou, lançando aeronaves, defendendo-se de drones e mísseis iranianos e evitando portos por segurança — 250 dias sem tocar terra, marca inédita na Marinha americana e sintoma de uma guerra que consumiu um quarto dos Tomahawks do país, prendeu Trump "no estreito de Ormuz" e esgotou navios e tripulações. A escala em Pattaya, a milhares de quilômetros do Golfo, indica que o Lincoln foi finalmente substituído — e que a Marinha precisou levar seus marinheiros ao lugar mais distante possível da guerra para que descansassem.

Para , editor do portal, a reportagem conta a guerra pelo lado que ninguém mostra. "Cinco mil marinheiros, 250 dias sem pisar em terra, desviados de uma missão de seis meses no Pacífico para o Golfo, e o descanso é numa cidade que a mesma guerra esvaziou — os turistas do Oriente Médio sumiram, a Walking Street projeta vídeo para ninguém, e o sorvete turco vende mais que a casa noturna. É a economia de guerra em miniatura: o conflito no Irã quebra o turismo na Tailândia e a Marinha americana, sem querer, vai consertar com o salário acumulado de nove meses de tripulação. Pattaya viveu isso no Vietnã e virou o que virou. A Folha registra que a cidade rejeita o apelido e reforça a polícia. Vai precisar das duas coisas", avalia.

Pattaya: da vila de pescadores ao Vietnã e ao néon

A 150 quilômetros de Bangcoc, na província de Chonburi, Pattaya era vila de pescadores até 1959, quando os primeiros soldados americanos da base de U-Tapao chegaram para descanso; durante a Guerra do Vietnã, centenas de milhares de militares em "R&R" — rest and recreation — criaram a indústria de bares, hotéis e prostituição que definiu a cidade e que o governo tailandês tenta, há décadas, diversificar com parques, resorts familiares e eventos. Hoje recebe milhões de visitantes por ano — russos, chineses, indianos, árabes —, e a Walking Street é, ao mesmo tempo, atração e constrangimento oficial.

"Cidade do Pecado": o rótulo que a Tailândia rejeita

Autoridades tailandesas investem em campanhas para apresentar Pattaya como destino de família, esportes aquáticos e convenções, e criticam a imprensa estrangeira pelo apelido; a prostituição é ilegal no país, mas tolerada, e o turismo sexual segue parte da economia local. A chegada de 5 mil militares reacende o dilema — e a reportagem registra o reforço policial como resposta.

Guerra no Irã e turismo asiático: o efeito colateral

Turistas do Oriente Médio — do Golfo, sobretudo — eram parcela crescente dos visitantes de Pattaya; a guerra reduziu voos, renda e disposição para viajar, e famílias árabes que ainda chegam gastam menos. Somada à queda de russos, afetados por sanções, e de chineses, com a economia desacelerada, a cidade vive uma das piores temporadas da década — e vê no porta-aviões um alívio.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a escala revela um dado militar relevante. "Porta-aviões não fica 250 dias sem porto por escolha; fica porque não há substituto e porque o Golfo não é lugar para atracar com o Irã atirando. A Marinha americana tem onze porta-aviões e mal consegue manter dois em operação prolongada; o Lincoln bateu recorde porque a guerra exigiu e a frota não deu conta. Levar a tripulação para descansar na Tailândia — e não no Bahrein ou em Dubai — diz onde é seguro e onde não é. Pattaya ganha; o Pentágono deveria estar preocupado com o desgaste de navio e gente. A Folha fez reportagem de costumes; o portal lê como reportagem de logística de guerra", observa.

Nove meses de salário: a conta que a cidade espera

Marinheiros embarcados recebem salário integral e adicional de mar, com pouco onde gastar; 5 mil pessoas com economias de nove meses numa cidade de bares e hotéis baratos representam milhões de dólares em poucos dias — o comércio local, segundo a Folha, trata a escala como oportunidade excepcional. É o mesmo mecanismo que, nos anos 1960 e 1970, construiu a Pattaya moderna.

Policiamento reforçado: o que a cidade teme

Brigas, acidentes, golpes e incidentes com moradores acompanham escalas de grandes contingentes militares; a polícia tailandesa e a polícia militar americana coordenam patrulhas conjuntas, horários de recolhimento e áreas restritas — protocolo padrão em portos que recebem porta-aviões, de Yokosuka a Manila.

Mar da China Meridional: a missão que ficou para trás

O Lincoln deveria patrulhar o Pacífico e o Mar da China Meridional, onde os Estados Unidos disputam com a China a liberdade de navegação; o desvio para o Golfo deixou a região com menos presença americana por meses — lacuna que Pequim observou. A escala na Tailândia, aliada tradicional, é também sinal de retorno à Ásia.

O que vem: volta a San Diego

Após a escala, o Lincoln deve retornar a San Diego para manutenção prolongada — implantações desse tamanho exigem meses de estaleiro —, e a tripulação será parcialmente renovada; a Marinha avalia os efeitos de 250 dias contínuos sobre equipamentos e pessoal, com relatos de fadiga e desgaste.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a reportagem é sobre gente. "Cinco mil pessoas, oito meses sem pisar em terra, numa guerra que o presidente chama de 'fichinha'. Chegam a uma cidade que vive de festa e está vazia, com dinheiro no bolso e cansaço no corpo. Pattaya vai receber como recebeu no Vietnã — e vai reclamar como reclamou. A Folha conta com humor e precisão; o portal acrescenta que, do outro lado do mundo, a mesma guerra deixou o petroleiro iraniano atacado em Kharg e o preço do combustível mais alto em Araras. É tudo a mesma história", analisa.

A atracação do porta-aviões USS Abraham Lincoln na Tailândia, após 250 dias no mar, ocorreu em 2 de setembro de 2026 e foi relatada pela Folha em 3 de setembro; o navio havia sido desviado do Pacífico para o Golfo Pérsico após o início das operações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, no fim de fevereiro de 2026.

Fontes e referências

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