Rússia bombardeia aeroportos de Kiev em meio a visita de enviados dos EUA
Espaço aéreo ucraniano está fechado desde 2022, e autoridades avaliavam permitir o pouso da aeronave americana. "Não há ameaça à diplomacia", diz Zelensky.
Rússia bombardeia os aeroportos de Kiev e Boryspil com drones Shahed na madrugada em que se discutia o pouso de enviados de Trump na Ucrânia; Zelensky chama de "reação" à visita de Witkoff e Kushner, e míssil balístico mata cinco numa siderúrgica civil em Kamianske
A Rússia atacou na madrugada deste sábado (5) os aeroportos de Kiev e de Boryspil, cidade vizinha à capital ucraniana, no que o presidente Volodymyr Zelensky classificou como resposta de Moscou à visita de dois enviados dos Estados Unidos ao país. Segundo ele, os bombardeios ocorreram após discussões sobre a possibilidade de os negociadores de paz americanos, Steve Witkoff e Jared Kushner, viajarem de avião à Ucrânia para visita prevista para domingo (6). "Está claro que esses ataques russos aos aeroportos são uma reação às discussões e aos preparativos para a possibilidade de o lado americano usar uma aeronave para viajar à Ucrânia e pousar no Aeroporto de Kiev ou no Aeroporto de Boryspil", escreveu Zelensky no X. A ofensiva usou drones Shahed, de fabricação iraniana. As informações são do g1.
O espaço aéreo da Ucrânia permanece fechado desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022 — visitantes estrangeiros chegam de trem pela Polônia. Ainda assim, autoridades discutiam permitir o pouso de aeronave com a delegação americana, o que seria o primeiro voo civil-diplomático a Kiev em quatro anos e meio.
O simbolismo do pouso
Um avião americano pousando em Boryspil seria mensagem tripla: de que a Ucrânia controla seu espaço aéreo o suficiente para receber voo de alto nível, de que Washington confia nessa garantia, e de que a diplomacia de Trump para encerrar a guerra tem peso para justificar o risco. Atacar os dois aeroportos na madrugada anterior é resposta calculada: torna o pouso impossível ou imprudente, obriga os enviados ao trem e mostra que Moscou define quem entra em Kiev e como.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o ataque é mensagem a Trump, não a Zelensky. "Witkoff e Kushner são os homens de Trump para a paz. Iam pousar em Kiev — o primeiro avião americano na capital desde 2022. Putin bombardeou os dois aeroportos na noite anterior. Não é para matar; é para dizer que a Rússia decide se o enviado do presidente americano chega de avião ou de trem. Zelensky entendeu e disse que a diplomacia continua — porque não pode dizer outra coisa. Trump, que insinua abandonar aliados de Londres a Kiev, vai ler isso como afronta ou como prova de que a Rússia negocia de posição de força? A resposta define a guerra", avalia.
Kamianske: cinco mortos numa siderúrgica civil
Um míssil balístico russo atingiu a usina siderúrgica Kamet Steel, em Kamianske, na região de Dnipro, matando cinco pessoas e paralisando totalmente as operações, informou a Metinvest, maior grupo de mineração e siderurgia da Ucrânia. A empresa afirmou que a fábrica produz ferro-gusa e aço exclusivamente para fins civis e classificou o bombardeio como mais um ataque à infraestrutura industrial do país. A Metinvest, do bilionário Rinat Akhmetov, perdeu a usina Azovstal em Mariupol em 2022 e vem sendo alvo sistemático — a indústria pesada ucraniana é objetivo militar declarado de Moscou.
Kherson, Kharkiv, Sumy, Mykolaiv
Zelensky relatou ainda edifícios residenciais danificados em Kherson, Boryspil e na região de Kharkiv, e drones atingindo centros comerciais em Sumy e Mykolaiv — ataque em ampla frente geográfica, característico das ofensivas noturnas russas de 2026, que combinam centenas de Shaheds com mísseis balísticos e de cruzeiro para saturar a defesa aérea. A dispersão dos alvos dilui a interceptação; os aeroportos de Kiev foram o objetivo político, o restante, a pressão de rotina.
Shahed: o drone iraniano da Rússia
Os Shahed-136, de fabricação iraniana e agora produzidos também na Rússia sob o nome Geran-2, são drones de ataque de baixo custo — dezenas de milhares de dólares — com alcance de mais de mil quilômetros e ogiva de 50 kg, lançados em enxames para esgotar mísseis antiaéreos muito mais caros. Desde 2022, a Rússia lançou dezenas de milhares deles contra a Ucrânia; a versão a jato, mais rápida, apareceu em 2026 e foi usada em ataque com 12 mortos na região de Kiev nesta semana.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a sequência revela o momento da guerra. "Os EUA mandam negociadores, a Rússia bombardeia o aeroporto, a Ucrânia diz que a diplomacia continua. É o roteiro de uma guerra em que ninguém está ganhando e todos negociam atirando. Witkoff e Kushner vão chegar de trem, como todo mundo desde 2022, e Putin terá provado o ponto. Zelensky, que precisa dos americanos, engole. A siderúrgica com cinco mortos é o custo diário que ninguém mais noticia. Quatro anos e meio de guerra, e a novidade é que o enviado de Trump não pode pousar. Isso mede o quanto a paz está longe", observa.
Witkoff e Kushner: os enviados
Steve Witkoff, empresário imobiliário e enviado especial de Trump, e Jared Kushner, genro do presidente e negociador do Oriente Médio no primeiro mandato, conduzem as tratativas entre Washington, Moscou e Kiev desde 2025 — com reuniões em Riad, Istambul e Moscou, e sem acordo. A visita a Kiev seria a primeira dos dois à Ucrânia e sinal de que a Casa Branca busca fechar termos antes das eleições de meio de mandato americanas, em novembro.
"A Ucrânia responderá"
Zelensky afirmou que a Ucrânia ajustará suas operações em relação ao espaço aéreo russo — referência aos ataques ucranianos de longo alcance com drones contra refinarias, aeródromos e infraestrutura na Rússia, que se intensificaram em 2026 —, mas ressaltou que "não há e não haverá nenhuma ameaça à diplomacia" por parte de Kiev. "A Ucrânia está interessada em aproximar a paz. A Rússia responderá pelo que faz." É a linha de equilíbrio: retaliar militarmente sem dar a Washington motivo para culpar Kiev pelo impasse.
Os aeroportos: Boryspil e Zhuliany
Boryspil, o maior aeroporto da Ucrânia, e Zhuliany, o aeroporto urbano de Kiev, estão fechados ao tráfego civil desde 24 de fevereiro de 2022, com pistas preservadas e infraestrutura mantida para eventual reabertura — que autoridades ucranianas já discutiram para voos limitados sob proteção antiaérea. O ataque de sábado é o primeiro voltado especificamente aos aeroportos em meses e sugere que Moscou monitora as discussões sobre reabertura.
Metinvest: a indústria sob ataque
A Metinvest, maior grupo siderúrgico e minerador da Ucrânia, controlado por Rinat Akhmetov, perdeu em 2022 as usinas Azovstal e Ilyich, em Mariupol, e opera desde então com capacidade reduzida em Zaporizhzhia, Kamianske e Kryvyi Rih — todas sob ataques periódicos. O aço ucraniano, que era o sexto maior exportador mundial antes da guerra, caiu a fração; cada usina atingida é emprego, receita de exportação e capacidade de reconstrução perdidos. A empresa classifica os ataques como parte de estratégia russa de desindustrialização — e Kamianske, com cinco mortos, é o exemplo mais recente.
Guerra e diplomacia em paralelo
A guerra entrou em fase de negociação sob fogo: os EUA pressionam por cessar-fogo, a Europa mantém apoio militar, a Rússia avança lentamente no leste e ataca cidades, e a Ucrânia responde com drones no território russo. Nenhum lado aceita as condições do outro — retirada russa versus reconhecimento de territórios ocupados —, e cada rodada de conversa é precedida ou seguida de ataque. O bombardeio dos aeroportos é o exemplo mais literal.
O que vem: domingo
A visita de Witkoff e Kushner segue prevista para domingo, provavelmente por via terrestre. O conteúdo — proposta de cessar-fogo, garantias de segurança, status de territórios — não foi divulgado. A reação russa ao pouso frustrado, e a ucraniana ao ataque, definirão o tom da reunião.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o episódio é o retrato do poder em 2026. "Um presidente americano manda o genro negociar a paz, e o presidente russo bombardeia a pista onde ele pousaria. Trump vai chamar de falta de respeito ou vai dizer que Putin tem razão em pressionar? Ninguém sabe — e essa incerteza é a arma de Putin. Zelensky está preso entre um aliado imprevisível e um inimigo previsível. Escolheu dizer que a diplomacia não está ameaçada. Está. Cinco mortos numa siderúrgica civil na mesma noite dizem isso. A paz que Witkoff e Kushner trazem de trem é a que a Rússia permite", analisa.
Os ataques russos aos aeroportos de Kiev e Boryspil ocorreram na madrugada de 5 de setembro de 2026. A visita dos enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner à Ucrânia estava prevista para 6 de setembro.