Trump amplia a influência na América Latina com petróleo e ataques
Nabep, sediada em Barbados, produz 200 mil barris por dia e quer chegar a 1 milhão em cinco anos; acordo surpreendeu até petroleiras americanas.
Trump amplia a influência na América Latina com petróleo e ataques: governo americano terá 35% da Nabep, empresa do venezuelano Alejandro Betancourt — um dos "bolichicos" enriquecidos com contratos de Chávez e Maduro, investigado na Suíça e na Espanha — e, por ela, o controle de 65 bilhões de barris das reservas da Venezuela; energia, narcotráfico e influência política formam a base da relação com a região, usada para exibir vitórias em meio a "fiascos no Oriente Médio e na Ásia"
Nesta semana, o presidente americano continuou com seu "morde e assopra" ao Brasil, dizendo que mantém uma "boa relação" com o país — sem citar Lula — e elogiando países amigos da região que "estão todos indo para a direita", como Colômbia e Argentina. Esses três vetores — energia, narcotráfico e influência política — se entrelaçam para formar a base da relação de Donald Trump com a América Latina no segundo mandato, e têm sido cada vez mais mobilizados pelo republicano para dar algum sinal de vitória em meio a fiascos no Oriente Médio e na Ásia. As informações são de análise da Folha.
O acordo petrolífero com a Venezuela pegou de surpresa até as petroleiras americanas, várias das quais já operam, e muito, no país: o governo americano terá controle direto de mais de 65 bilhões de barris de reservas venezuelanas por meio de uma parceria com uma empresa privada venezuelana — os Estados Unidos terão participação de 35% na Nabep, a North American Blue Energy Partners, do empresário Alejandro Betancourt. Sediada em Barbados, a Nabep produz cerca de 200 mil barris diários e planeja assumir US$ 5 bilhões — R$ 26 bilhões — em dívidas para elevar a extração a 1 milhão de barris nos próximos cinco anos. A controvérsia: Betancourt ficou famoso por obter contratos com o governo de Hugo Chávez e o regime de Nicolás Maduro para operar no setor energético apesar da então falta de experiência na área, e é alvo há anos de investigações na Suíça e na Espanha, sem nunca ter sido acusado formalmente; integra os conhecidos "bolichicos" — grupo de empresários que enriqueceu pela proximidade com o regime, de "boli", bolivarianos, e "chicos", meninos. Em perspectiva, os Estados Unidos têm cerca de 81 bilhões de barris de reservas; a Venezuela, cerca de 300 bilhões, a maior do planeta — e agora Washington terá controle de 65 bilhões desses. Não à toa, a líder interina do regime de Caracas, Delcy Rodríguez, chamou o acordo de histórico, dizendo que envolve exploração em 17 campos e terá "impacto significativo no renascimento da nossa nação". O governo Trump admite, contudo, que não é um pacto que vá mudar profundamente o preço na bomba de gasolina do americano médio — o foco político do presidente, que continua atolado no estreito de Ormuz.
Betancourt e a Nabep: quem fica com o petróleo de Maduro
Alejandro Betancourt López, de pouco mais de 40 anos, tornou-se bilionário na década de 2010 com a Derwick Associates, empresa que obteve contratos de bilhões de dólares para construir usinas termelétricas na Venezuela de Chávez sem experiência prévia no setor — caso investigado pelo Ministério Público espanhol e por autoridades suíças por suspeita de lavagem e superfaturamento, sem denúncia formal —, e reapareceu como investidor em empresas europeias e como intermediário entre o regime chavista e interesses ocidentais; a Nabep, constituída em Barbados, é o veículo pelo qual ele passa a operar campos venezuelanos com participação direta do governo americano. É esse o desenho que surpreendeu Chevron, Eni e as petroleiras que já produzem no país e esperavam ser as beneficiárias do pós-Maduro: em vez de concessões diretas, Washington entra como sócio minoritário de um "bolichico" — sinal de que a prioridade não é o mercado, e sim o controle político sobre reservas que triplicam as americanas. Para o regime interino de Delcy Rodríguez, é a garantia de sobrevivência com aval americano; para a oposição de María Corina Machado, é a prova de que os Estados Unidos preferem o chavismo domesticado à democracia.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a análise da Folha explica por que Trump precisa da América Latina. "Irã sem vitória, Ormuz fechado, Ásia sem acordo — o presidente precisa mostrar resultado, e o hemisfério é onde ele pode: capturou Maduro, afunda barco no Caribe e no Pacífico, e agora fica com 65 bilhões de barris por meio de um empresário que enriqueceu com Chávez e é investigado na Europa. É a lógica de força e de negócio, sem democracia no meio. O Brasil recebe o 'morde e assopra': boa relação, sem Lula, elogio a quem 'vai para a direita', embaixadora sem visto, fora do roteiro de Rubio. A mensagem é que o Brasil só entra no clube se mudar de lado em outubro. A Venezuela mostra o que o clube oferece: petróleo para os Estados Unidos, sobrevivência para o regime, nada para o povo. Que o eleitor brasileiro leia antes de votar", avalia.
Energia: o vetor do petróleo
Além da Venezuela, Washington pressiona por acesso ao petróleo da Guiana, do Equador e da Argentina, e usa o controle das reservas venezuelanas como contrapeso à Opep e ao Golfo, onde a guerra contra o Irã encareceu o barril; o acordo com a Nabep não muda o preço na bomba americana, como o próprio governo admite, mas muda a geopolítica: os Estados Unidos passam a deter, por procuração, a maior reserva do planeta.
Narcotráfico: o vetor da força
Ataques a barcos no Caribe e no Pacífico, designação de cartéis e facções como terroristas, cooperação com Equador e Colômbia, pressão sobre o México — o combate ao tráfico é a justificativa para presença militar e para operações como a que capturou Maduro em janeiro. Mais de 200 mortos em embarcações e famílias de pescadores contestando são o custo que a Folha registra.
Influência política: o vetor das eleições
Trump elogia governos "de direita" — Milei, Kast, De la Espriella, Fujimori, Noboa — e pune os que não se alinham: tarifas e sanções ao Brasil de Lula, silêncio com o México de Sheinbaum, hostilidade a Petro. A viagem de Rubio a Colômbia, Peru e Equador na próxima semana consolida o eixo; o Brasil, maior economia da região, fica de fora.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a escolha de Betancourt é o detalhe revelador. "Havia Chevron, Eni, ExxonMobil — empresas com capacidade, capital e reputação. Trump escolheu um bolichico investigado na Suíça e na Espanha, com empresa em Barbados, para ser o sócio do governo americano em 65 bilhões de barris. Por quê? Porque Betancourt é o intermediário do regime de Delcy: quem garante que o chavismo entrega o petróleo é quem enriqueceu com o chavismo. É pragmatismo sem verniz. Para o mercado, é risco; para a Venezuela, é a continuidade da elite que quebrou o país, agora com sócio em Washington. A Folha diz que surpreendeu até as petroleiras americanas. O portal diz que não deveria surpreender ninguém que acompanhou o primeiro mandato", observa.
Bolichicos: a elite que sobreviveu a Maduro
O termo designa os jovens empresários que, nos anos 2000 e 2010, ganharam contratos públicos bilionários na Venezuela bolivariana — energia, alimentos, câmbio — e transferiram fortunas para Miami, Madri e Genebra; vários foram sancionados ou investigados, alguns condenados. A entrada de um deles como sócio do governo Trump indica que a transição venezuelana preserva a elite econômica do regime.
Delcy Rodríguez: "renascimento da nação"
A líder interina apresentou o acordo como histórico e prometeu impacto no "renascimento" da Venezuela; para o regime, é reconhecimento americano e receita; para a oposição, é a venda do subsolo em troca de permanência no poder — Trump e Delcy concordaram que não há condições para eleições. A Folha e María Corina apontam a contradição.
81 bilhões x 300 bilhões: a aritmética das reservas
Os Estados Unidos, maior produtor mundial, têm cerca de 81 bilhões de barris de reservas provadas; a Venezuela, com produção mínima, tem 300 bilhões, quase todos de óleo pesado no Orinoco; controlar 65 bilhões — o equivalente a 80% das reservas americanas — dá a Washington alavanca sobre preços e oferta por décadas, mesmo que a produção demore a crescer.
O Brasil no "morde e assopra"
"Boa relação" com o país, sem citar o presidente; tarifa parcial mantida; visto da embaixadora revogado; ausência no roteiro de Rubio — o tratamento ao Brasil combina cortesia retórica e pressão prática, à espera do resultado de outubro. Lula responde com telefonemas e silêncio; Flávio Bolsonaro, com promessa de alinhamento.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a análise deveria ser lida como mapa do que vem depois da eleição. "Se o Brasil 'for para a direita', como Trump elogia, o modelo é o venezuelano e o colombiano: cooperação militar, acesso a recursos, alinhamento político — com os Estados Unidos como sócio e árbitro. Se não for, o modelo é o atual: tarifa, visto, isolamento. Nenhum dos dois é bom para um país do tamanho do Brasil, que deveria negociar de igual para igual. A Folha descreve os vetores; o portal acrescenta o que falta na análise: o Brasil ainda pode escolher não ser vetor de ninguém, e essa escolha está na urna", analisa.
A análise da Folha sobre a ampliação da influência de Donald Trump na América Latina, com o acordo que dá aos Estados Unidos 35% da Nabep e o controle de 65 bilhões de barris de reservas venezuelanas, foi publicada em 4 de setembro de 2026. A empresa de Alejandro Betancourt é sediada em Barbados e produz cerca de 200 mil barris por dia.