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Conflitos

Ucrânia acusa Rússia de bombardear QG de sua agência de segurança

Drone atingiu o gabinete do major-general Oleksandr Poklad dias antes da visita dos enviados de Trump, Witkoff e Kushner; Rússia não se manifestou.

Capa do artigo Ucrânia acusa Rússia de bombardear QG de sua agência de segurança
— Foto: Tschechoslowakei / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Ucrânia acusa Rússia de bombardear QG do Serviço de Segurança em Kiev e de tentar matar o chefe da agência; ataque deixa 12 feridos e Zelensky promete resposta "apropriada, concreta e proporcional"

A Ucrânia acusou a Rússia de bombardear, nesta sexta-feira (4), o quartel-general do Serviço de Segurança ucraniano (SBU), em Kiev, e de tentar assassinar o chefe da agência, o major-general Oleksandr Poklad. O ataque deixou 12 feridos, segundo o governo da capital. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou que o drone teve como alvo o gabinete de Poklad, com quem conversou após o ataque, classificou a ação como escalada "de grandes proporções" e prometeu resposta "apropriada, concreta e proporcional". A Rússia não havia se manifestado até a última atualização. As informações são do g1.

Uma espessa coluna de fumaça preta subiu sobre a região central de Kiev depois do ataque, e várias ambulâncias atenderam no local. As identidades dos feridos não foram divulgadas, e não se sabia se havia membros do SBU entre eles. O prédio fica em área central, próximo a repartições do governo e a zonas residenciais — o que explica o número de feridos civis.

O que é o SBU

O Serviço de Segurança da Ucrânia é a principal agência de inteligência do país. Herdeiro da filial ucraniana da KGB soviética, reorganizado após a independência de 1991, o SBU acumula funções de contrainteligência, combate ao terrorismo, segurança interna e, desde 2022, operações ofensivas contra a Rússia. É a agência por trás de algumas das ações mais audaciosas da guerra — entre elas a "Operação Teia de Aranha", de junho de 2025, em que drones contrabandeados em caminhões e lançados de dentro do território russo destruíram dezenas de bombardeiros estratégicos em bases militares a milhares de quilômetros da fronteira.

É também o SBU que investiga colaboracionismo, prende agentes russos, coordena sabotagens e conduz a guerra de informações. Seu chefe é, por definição, um dos homens mais protegidos e mais visados da Ucrânia. Um ataque ao gabinete dele é, na leitura de Kiev, tentativa de decapitar a agência.

Para , editor do portal, o alvo diz mais que o dano. "Em quatro anos e meio de guerra, a Rússia bombardeou usinas, hospitais, prédios residenciais, mas raramente mirou o coração do governo em Kiev. Atacar o QG do SBU, no gabinete do diretor, é mudança de doutrina: é dizer que a cúpula ucraniana é alvo legítimo. Se a Ucrânia responder na mesma moeda — e ela tem capacidade, a Teia de Aranha provou —, a guerra entra numa fase de ataques a lideranças que nenhum dos dois lados vai conseguir controlar", avalia.

Prédios do governo: raramente atingidos

Durante a guerra, prédios do governo ucraniano raramente foram alvejados ou danificados em ataques com drones e mísseis, embora Kiev seja atacada com frequência. A capital tem a defesa antiaérea mais densa do país, e os ataques russos costumam se concentrar em infraestrutura energética, instalações militares e — de forma indiscriminada — em áreas residenciais atingidas por destroços ou por mísseis que escapam à interceptação. Um drone chegar ao gabinete do chefe do SBU indica ou falha da defesa ou um ataque de precisão planejado para explorar uma brecha — as duas hipóteses preocupam o governo ucraniano.

Timing: a visita dos enviados de Trump

O ataque ocorre dias antes da chegada a Kiev, prevista para o fim de semana, dos enviados especiais do governo Trump para o conflito, Steve Witkoff e Jared Kushner, que devem visitar também a Rússia na tentativa de destravar negociações. Zelensky classificou a agressão como "rejeição da diplomacia". Atualmente, não há indícios de que negociações concretas estejam em andamento: as posições — a Rússia exigindo reconhecimento dos territórios ocupados e neutralidade ucraniana; a Ucrânia exigindo retirada e garantias de segurança — seguem incompatíveis.

A leitura em Kiev é que Moscou ataca justamente para demonstrar força antes da visita — e para testar se Washington reagirá. A leitura alternativa, ouvida entre analistas, é que o ataque é resposta a operações ucranianas recentes em território russo, entre elas o atentado contra um general russo acusado de ordenar o ataque a um hospital infantil, baleado na cabeça dias antes.

Quatro anos e meio de guerra

A invasão russa em larga escala começou em fevereiro de 2022. Desde então, a frente se estabilizou em uma guerra de atrito no leste e no sul, com avanços russos lentos e custosos, ataques ucranianos de longo alcance com drones a refinarias e bases na Rússia, e bombardeios russos sistemáticos à infraestrutura civil ucraniana. Centenas de milhares de soldados mortos e feridos dos dois lados, milhões de deslocados e uma economia ucraniana dependente de ajuda ocidental compõem o quadro. Não há perspectiva de fim: nem vitória militar decisiva nem acordo aceitável para ambos.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o ataque ao SBU se encaixa numa escalada de setembro. "Na mesma semana: drones russos na fábrica da Coca-Cola na Ucrânia, general russo baleado, Alemanha testando míssil balístico, e agora o QG do SBU. Cada lado sobe um degrau e chama de resposta. Witkoff e Kushner vão chegar a Kiev com a fumaça ainda no ar — e vão a Moscou em seguida. O que eles vão ouvir nas duas capitais é a mesma coisa: 'foi o outro que começou'. Diplomacia nesse ambiente não é mediação; é contenção de danos", observa.

A resposta prometida

Zelensky não detalhou o que seria uma resposta "apropriada, concreta e proporcional". O repertório ucraniano inclui ataques com drones de longo alcance a instalações militares e de inteligência russas, operações do próprio SBU em território inimigo e ações contra a infraestrutura de petróleo que financia a guerra. Um ataque simbólico — ao prédio do FSB, sucessor da KGB, em Moscou, por exemplo — seria a resposta "proporcional" literal, e é o tipo de escalada que o governo americano tenta evitar às vésperas da missão diplomática.

Teia de Aranha: o precedente

A operação de junho de 2025 é a referência para entender por que o SBU é alvo. Ao longo de mais de um ano, agentes ucranianos contrabandearam drones de pequeno porte para dentro da Rússia, escondidos em compartimentos de caminhões com teto retrátil, e os estacionaram próximos a bases aéreas a milhares de quilômetros da Ucrânia — na Sibéria, no Ártico, no extremo oriente. Em um único dia, os drones foram lançados simultaneamente e destruíram ou danificaram dezenas de bombardeiros estratégicos, parte da frota que a Rússia usa para lançar mísseis de cruzeiro contra cidades ucranianas — e que não tem como repor. Foi a operação de inteligência mais audaciosa da guerra e mostrou que o SBU alcança qualquer ponto do território russo. A resposta de Moscou, na leitura ucraniana, chegou agora: ao gabinete de quem a planejou.

A defesa aérea de Kiev

A capital ucraniana é protegida pela concentração mais densa de sistemas antiaéreos do país — baterias Patriot americanas, sistemas europeus de médio alcance e unidades móveis contra drones —, o que faz da maioria dos ataques russos a Kiev um exercício de saturação: dezenas ou centenas de drones e mísseis lançados ao mesmo tempo, na esperança de que alguns passem. Um drone atingir com precisão o gabinete do chefe do SBU indica que a Rússia ou identificou uma brecha na cobertura, ou usou um vetor de difícil detecção, ou combinou o ataque com informação de inteligência sobre a rotina do alvo. Cada hipótese exige do SBU uma investigação interna — e é exatamente o efeito desestabilizador que um ataque desse tipo busca.

Witkoff e Kushner: a missão

Steve Witkoff, empresário do setor imobiliário e negociador de confiança de Trump, e Jared Kushner, genro do presidente e arquiteto dos Acordos de Abraão no primeiro mandato, foram encarregados de destravar o conflito ucraniano após rodadas anteriores sem resultado. A visita a Kiev e a Moscou, no mesmo fim de semana, busca aproximar posições sobre cessar-fogo, territórios e garantias de segurança — os três nós que nenhuma negociação desde 2022 conseguiu desatar. O ataque ao SBU altera o clima da missão: chegam a uma capital atacada, com o presidente prometendo retaliação, e seguem para a capital que a Ucrânia acusa de ter ordenado o ataque.

Poklad: o alvo

Oleksandr Poklad assumiu o comando do SBU em meio à guerra, com a missão de profissionalizar e "limpar" uma agência historicamente infiltrada por interesses russos — o SBU prendeu dezenas de seus próprios agentes por colaboracionismo desde 2022. Sob seu comando, a agência se tornou instrumento ofensivo, e a Operação Teia de Aranha foi sua vitrine. O fato de o gabinete dele ter sido o alvo — e de Zelensky ter feito questão de dizer que conversou com ele depois — é a mensagem ucraniana de que a tentativa falhou.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a guerra de inteligência é a que menos aparece e mais decide. "A Teia de Aranha destruiu bombardeiros que a Rússia não consegue repor. O ataque ao SBU é a Rússia dizendo que sabe quem planejou e onde ele senta. Essa é a guerra que importa em 2026: não o quilômetro de trincheira no Donbass, mas quem consegue atingir o cérebro do outro. E é uma guerra sem regras escritas — não há Convenção de Genebra para drone em gabinete de diretor de inteligência", analisa.

O governo ucraniano informou que o número de feridos no ataque ao QG do SBU pode ser atualizado. A visita de Steve Witkoff e Jared Kushner a Kiev está mantida para este fim de semana, segundo a Casa Branca.

Fontes e referências

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