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Crise migratória em Ceuta leva milhares às ruas na Espanha

Protestos foram convocados pela federação de municípios dominada pelo PP; o governo Sánchez acusa a direita de explorar a crise, e uma petição apartidária soma 65 mil assinaturas.

Capa do artigo Crise migratória em Ceuta leva milhares às ruas na Espanha
— Foto: Diego Delso / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Crise migratória em Ceuta leva milhares às ruas do exclave espanhol no Norte da África e a atos em Madri, Barcelona e Bilbao: quase cinco semanas após a entrada em massa de imigrantes vindos do Marrocos, mais de 10 mil pessoas, entre elas menores desacompanhados, seguem em acampamentos improvisados, ruas e praias da cidade de 80 mil habitantes — "Ceuta não está à venda, Ceuta deve ser defendida", gritavam manifestantes no Dia de Ceuta, com cartazes pedindo à Europa que os salve "de nosso governo traidor"

Moradores de Ceuta, exclave espanhol no Norte da África, foram às ruas na quarta-feira (2 de setembro) para protestar contra a forma como Madri lida com a crise migratória provocada pela entrada em massa de imigrantes vindos do Marrocos. Milhares marcharam pelas ruas da cidade de cerca de 80 mil habitantes, num protesto que coincidiu com o Dia de Ceuta; agitando bandeiras espanholas e soprando apitos, gritavam: "Ceuta não está à venda, Ceuta deve ser defendida". As informações são da Folha.

Um cartaz dizia "SOS. Europa, salve-nos de nosso governo traidor", alguns exigiam "expulsar os invasores" e outros pediam a renúncia do primeiro-ministro Pedro Sánchez; manifestações ocorreram também em Madri, Barcelona e Bilbao. Quase cinco semanas após a onda migratória, mais de 10 mil migrantes, incluindo menores de 18 anos desacompanhados, continuam em acampamentos improvisados ou espalhados pelas ruas e praias, o que provoca protestos quase diários de moradores que criticam a resposta do governo — parte defende o retorno dos migrantes aos países de origem ou a transferência para outras regiões da Espanha. "A resposta foi inadequada, tardia e, para completar, envolveu uma completa negligência do dever por parte do governo. Não podemos ser cidadãos de segunda classe, e nossa fronteira não pode ser deixada de lado", disse o professor David Hernández, de 45 anos. Em meio ao aumento das tensões, moradores atacaram e destruíram um acampamento na praia de El Trampolín, e houve prisões de marroquinos acusados de atirar pedras e garrafas contra patrulhas do Exército. Os protestos em toda a Espanha foram convocados pela federação de municípios FEMP, dominada pelo Partido Popular, principal força conservadora de oposição; o governo de esquerda de Sánchez se afastou da iniciativa e acusou a direita de explorar politicamente a crise — "isso não se trata de defender Ceuta e os ceutenses, mas de atacar o governo", disse o ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, à rádio RNE. Um abaixo-assinado da iniciativa cidadã "Por Ceuta", que pede respeito aos direitos humanos de moradores e imigrantes, retorno ordenado de quem não tem direito de permanecer e reforço da segurança, já soma quase 65 mil assinaturas e afirma não ter vínculo político.

Ceuta, a fronteira da Europa na África: por que 10 mil pessoas em cinco semanas viraram crise nacional

Ceuta e Melilla, as duas cidades espanholas na costa marroquina, são as únicas fronteiras terrestres da União Europeia com a África e, há décadas, o ponto de pressão migratória mais sensível do continente — cercas de dez metros, lâminas, patrulhas conjuntas com o Marrocos e, quando Rabat quer pressionar Madri, aberturas súbitas: em maio de 2021, após a Espanha acolher um líder saariano para tratamento médico, o Marrocos deixou 10 mil pessoas cruzarem em dois dias, e a Espanha respondeu com o Exército na praia e devoluções em massa; a onda de agosto de 2026, de dimensão semelhante, repete o padrão — entrada a nado e pela cerca durante dias, com menores desacompanhados em número recorde, que a lei espanhola e europeia impede de devolver —, e encontra um governo Sánchez enfraquecido, uma oposição do PP e do Vox em campanha permanente e uma cidade de 80 mil habitantes onde 10 mil recém-chegados acampam em praias e ruas por cinco semanas, com a tensão que a destruição do acampamento de El Trampolín e as pedras contra o Exército ilustram. A disputa política é clara: o PP convoca protestos em toda a Espanha pela federação de municípios que controla, com a bandeira de "defender Ceuta"; o governo diz que é ataque disfarçado e que a solução — distribuição dos migrantes pelas comunidades autônomas, devolução dos adultos sem direito a asilo, acordo com o Marrocos — depende de cooperação que o PP nega nas regiões que governa; e a petição "Por Ceuta", apartidária, com 65 mil assinaturas, mostra que há uma maioria local que quer direitos humanos e ordem ao mesmo tempo — a posição que nenhum partido representa. O pano de fundo europeu é o Pacto de Migração e Asilo, aprovado em 2024 e em implementação em 2026, que prevê solidariedade entre países e triagem nas fronteiras externas, e que Ceuta testa antes de todos; e o marroquino, em que Rabat usa a fronteira como instrumento de negociação sobre o Saara Ocidental, pesca e investimentos. Para a Espanha, que teve na imigração o tema da eleição de 2023 e terá de novo, Ceuta é o laboratório da Europa — e o palco em que Sánchez pode perder o pouco que lhe resta.

Para , editor do portal, Ceuta é o retrato de uma Europa sem resposta para a própria fronteira. "Dez mil pessoas numa cidade de 80 mil, cinco semanas em praia e rua, menores que a lei proíbe devolver, Exército apedrejado, morador queimando acampamento — e o debate em Madri é se o protesto é 'de verdade' ou 'do PP'. Os dois têm razão: a crise é real, e a direita a explora. O que não existe é solução: o Marrocos abre a torneira quando quer, a União Europeia promete pacto que não chegou, e as regiões espanholas do PP recusam receber quem chegou. O portal registra a petição apartidária de 65 mil assinaturas — direitos humanos, retorno ordenado, segurança — como a única posição sensata na história, e observa que é a que nenhum político defende, porque não elege", avalia.

A onda de agosto: como 10 mil entraram

Durante dias, migrantes — a maioria marroquinos e subsaarianos, com centenas de menores — cruzaram a fronteira a nado, pela cerca e pelos espigões, aproveitando afrouxamento da vigilância marroquina que Madri atribui a pressão política de Rabat; a Espanha reforçou o Exército e a Guarda Civil, mas a lei impede devolver menores e exige processar pedidos de asilo.

Os menores desacompanhados: o nó jurídico

Crianças e adolescentes sem adultos não podem ser devolvidos e ficam sob tutela da cidade autônoma, cujos centros estão lotados; a distribuição pelas comunidades autônomas, prevista em lei de 2025, é resistida por regiões governadas pelo PP e pelo Vox — o impasse que mantém os menores nas ruas de Ceuta.

El Trampolín: a violência dos moradores

A destruição de um acampamento na praia por vizinhos e as prisões de marroquinos por atirar pedras contra patrulhas mostram a escalada; organizações de direitos humanos alertam para ataques xenófobos, e a polícia investiga os dois lados; é o clima que os protestos "quase diários" traduzem.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o Marrocos é o ator que ninguém nomeia nas ruas. "Ceuta é espanhola desde 1580 e marroquina na cabeça de Rabat, que usa a fronteira como arma: abre quando quer pressionar por Saara Ocidental, pesca ou dinheiro, e fecha quando recebe. Foi assim em 2021 e é assim agora. A Espanha não pode devolver menor, não consegue repatriar adulto sem acordo marroquino, e a Europa promete solidariedade que Hungria e Polônia bloqueiam. O protesto grita contra Sánchez porque é o alvo disponível; o responsável está do outro lado da cerca. O portal registra e lembra que fronteira usada como chantagem é o padrão também na Venezuela, na Bielorrússia e na Turquia — e que a resposta europeia é sempre a mesma: nenhuma", observa.

PP x Sánchez: a crise como campanha

A FEMP, controlada pelo PP, convocou atos em Madri, Barcelona, Bilbao e Ceuta; o governo os classificou como partidários; o Vox pede fechamento total da fronteira e devoluções em massa; Sánchez, com maioria frágil e eleições no horizonte, enfrenta a imigração como tema central — o mesmo que impulsionou a direita em toda a Europa.

Precedentes: 2021 e a diplomacia da cerca

Em maio de 2021, o Marrocos permitiu a entrada de cerca de 10 mil pessoas em 48 horas após a Espanha acolher o líder da Frente Polisário para tratamento; a crise só terminou quando Madri mudou sua posição sobre o Saara Ocidental em 2022, em favor de Rabat — o precedente que sugere que a onda de 2026 tem preço político.

Pacto europeu de migração: o teste

Aprovado em 2024 e em implementação, prevê triagem rápida nas fronteiras externas, distribuição solidária entre Estados-membros e devoluções aceleradas; Ceuta é o primeiro grande teste, e a lentidão da resposta europeia — sem realocação e sem fundos adicionais — alimenta o "governo traidor" dos cartazes e a demanda por que "a Europa nos salve".

"Por Ceuta": a voz apartidária

A iniciativa cidadã com 65 mil assinaturas pede respeito aos direitos de moradores e imigrantes, retorno ordenado de quem não tem direito de ficar e reforço de segurança — combinação que rejeita tanto a xenofobia dos ataques a acampamentos quanto a omissão; é a posição majoritária que os protestos partidários não representam.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a imagem de Ceuta é a de uma Europa que promete e não entrega. "Cartaz pedindo à Europa que salve a cidade do próprio governo, Exército apedrejado, morador queimando barraca de imigrante, criança na praia há cinco semanas — é o que acontece quando a fronteira vira arma e a política, palco. A Espanha não tem solução sozinha; a Europa não quer ter. O portal registra o Dia de Ceuta de 2026 e observa que o Brasil, com fronteira aberta a venezuelanos em Roraima desde 2018, aprendeu a distribuir pelo país — a 'interiorização' que a Espanha não consegue fazer porque suas regiões recusam. Há lições daqui para lá", analisa.

Os protestos em Ceuta e em cidades espanholas contra a gestão da crise migratória pelo governo Pedro Sánchez ocorreram em 2 de setembro de 2026, Dia de Ceuta, e foram noticiados pela Folha em 3 de setembro; mais de 10 mil migrantes vindos do Marrocos, incluindo menores desacompanhados, permanecem em acampamentos improvisados no exclave espanhol quase cinco semanas após a entrada em massa.

Fontes e referências

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