Pular para o conteúdo
Mundo

Da veneração a Trump ao desencanto

"Troquei o caos pela estabilidade; não precisava mais defender o indefensável", escreve Logis; Jennie Gage, do Arizona, via Trump como "um homem de família atendendo a um chamado de Deus".

Capa do artigo Da veneração a Trump ao desencanto
— Foto: The White House from Washington, DC / Wikimedia Commons (Public domain)

Da veneração a Trump ao desencanto: grupo "Leaving MAGA" funciona como programa de apoio a dependentes — do presidente e do movimento que o sustenta — e acolhe quem se arrependeu de ter militado pelo "Faça a América Grande Novamente": criado em 2024 pelo escritor Rich Logis, ex-comentarista da Fox News que trabalhou nas campanhas de 2016 e 2020 e rompeu em 30 de agosto de 2022, após a pandemia e a invasão do Capitólio, o grupo reúne depoimentos de ex-integrantes doutrinados por Rush Limbaugh, Ben Shapiro e Tucker Carlson

A organização funciona como um grupo de apoio a dependentes — no caso, do presidente Donald Trump e do movimento extremista que o sustenta. Criada em 2024, a "Leaving MAGA" (Rompendo com o MAGA) recebe e ajuda quem se arrependeu de ter se aliado a ele e quer se desvencilhar dos métodos violentos e radicais, das teorias de conspiração, da desinformação e da ideologia que cercam o movimento "Faça a América Grande Novamente". As informações são do blog de Sandra Cohen, no G1.

"O que eu diria hoje sobre mim é que me tornei um ser humano renascido", resume o fundador do grupo, o escritor Rich Logis, autor de "One Betrayal Too Many: Why I Left MAGA" ("Traições demais: por que eu deixei o MAGA"). Logis conta que se tornou ativista e admirador fervoroso de Trump em 2015, após enxergar no magnata republicano o disruptor disposto e capaz de destruir a ordem política; engajou-se no MAGA, foi comentarista político na Fox News e no Federalist e participou das campanhas presidenciais de 2016 e 2020. As decepções vieram com a gestão de Trump durante a pandemia de Covid e a invasão de simpatizantes do presidente ao Capitólio; em agosto de 2022, conseguiu desligar-se do movimento. "Foi preciso um ano de uma luta interna emocionalmente exaustiva antes que eu conseguisse deixar o movimento MAGA. Quando finalmente saí, em 30 de agosto de 2022, troquei o caos pela estabilidade. A decisão foi libertadora. Eu não precisava mais defender o indefensável nem justificar o injustificável", escreveu no site da organização. Em depoimentos, ex-integrantes dizem ter sido doutrinados por influenciadores e radialistas de extrema direita, como Rush Limbaugh, Ben Shapiro e Tucker Carlson, e, em comum, afirmam não se arrepender apenas de terem votado em Trump, mas de terem militado por ele com entusiasmo, guiados pela desinformação. Jennie Gage, do Arizona, lembra que via Trump como "um homem de família atendendo a um chamado por Deus para liderar o país" e tinha certeza de que ele havia se convertido ao cristianismo: "O MAGA se tornou minha identidade por completo. Trump era a minha foto de perfil nas redes sociais. Eu postava declarações de amor por ele".

Sair de um movimento como quem sai de uma seita: o que a "Leaving MAGA" revela sobre a psicologia do trumpismo — e sobre o eleitor que Trump perde em 2026

A comparação com um grupo de apoio a dependentes não é figura de linguagem da colunista, mas o modelo explícito da organização: a Leaving MAGA usa a linguagem dos doze passos, oferece encontros virtuais, mentoria de ex-militantes e "histórias de saída" publicadas no site, e parte da premissa — compartilhada por pesquisadores de extremismo como os que estudam a desradicalização de ex-neonazistas e ex-membros de seitas — de que a adesão ao trumpismo, para uma parcela de seus seguidores, não foi escolha política mas identidade total, construída ao longo de anos de consumo diário de rádio, Fox News e redes sociais, sustentada por uma comunidade que exclui quem duvida e por uma cosmovisão em que cada revés do líder é prova de perseguição; sair, nesse quadro, custa família, amigos, igreja e a própria autoimagem, e o "ano de luta interna" de Logis — comentarista pago para defender Trump na televisão — é o retrato do custo. A relevância do grupo em 2026 é política: no segundo mandato, com a guerra do Irã, a queda na aprovação, o custo de vida, o caso Epstein e a fricção com aliados, Trump perde eleitores nas margens — não os fiéis, que a Leaving MAGA descreve como os últimos a sair, mas os que aderiram por raiva ou frustração e que, a dois meses das eleições de meio de mandato, decidem a Câmara e o Senado em estados como o Arizona de Jennie Gage e a Pensilvânia dos data centers; as pesquisas mostram o "MAGA arrependido" como uma fatia pequena, mas concentrada exatamente nos distritos disputados, e os democratas cortejam esses eleitores com candidatos moderados enquanto o próprio Trump os ataca como traidores. Há uma crítica ao modelo, que o portal registra: tratar adversários políticos como dependentes em recuperação patologiza a divergência e pode reforçar, entre os que permanecem, a percepção de que a elite os considera doentes — argumento que Logis rebate dizendo que fala apenas de quem quer sair, e que ninguém é recrutado. Para o Brasil, que viveu seu próprio 8 de janeiro e tem um bolsonarismo estruturado sobre os mesmos pilares — igreja, redes, rádio, a identidade total e o líder perseguido —, o fenômeno da "saída" ainda não tem organização equivalente, mas tem casos individuais que a imprensa registra com frequência crescente; a eleição de outubro, com Flávio Bolsonaro herdando o movimento do pai inelegível, é o teste de quanto dessa identidade se transfere e de quantos, como Logis, chegam à traição de menos — ou de mais.

Para , editor do portal, a frase de Logis vale mais que muitas análises. "'Eu não precisava mais defender o indefensável nem justificar o injustificável' — é o que sente quem sai de um movimento que virou identidade. Um comentarista da Fox levou um ano para conseguir; uma dona de casa do Arizona tinha Trump como foto de perfil. A Leaving MAGA trata isso como dependência, e é assim que funciona: não se convence ninguém com fato, se acolhe quem começou a duvidar. O portal registra o blog de Sandra Cohen porque o Brasil conhece o padrão — o 8 de janeiro, a família dividida no almoço, o pastor no púlpito — e ainda não tem quem acolha quem quer sair. A eleição de outubro vai dizer quantos são", avalia.

Rich Logis: de militante a fundador

Ativista trumpista desde 2015, comentarista na Fox News e no The Federalist, participante das campanhas de 2016 e 2020; decepcionou-se com a pandemia e com o Capitólio, rompeu em 30 de agosto de 2022 após um ano de conflito interno, escreveu "One Betrayal Too Many" e fundou a Leaving MAGA em 2024 — "um ser humano renascido".

O método: apoio, mentoria, histórias de saída

Encontros virtuais, mentoria de ex-integrantes, depoimentos publicados e a linguagem dos grupos de dependentes; a premissa é que a adesão ao MAGA, para muitos, foi identidade total, e que sair exige suporte para lidar com a perda de comunidade, família e autoimagem — o modelo da desradicalização.

Jennie Gage e a fé em Trump

A moradora do Arizona via no presidente "um homem de família atendendo a um chamado por Deus", acreditava em sua conversão ao cristianismo, tinha-o como foto de perfil e postava declarações de amor; seu relato ilustra a fusão entre religião, redes sociais e identidade política que o grupo tenta desfazer.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a organização tem um limite e uma força. "O limite: chamar o eleitor adversário de dependente é o tipo de coisa que faz o eleitor adversário se fechar mais. A força: quem procura o grupo já duvidou, e para esse, a metáfora é exata — comunidade, ritual, líder infalível, punição a quem sai. O portal registra e observa que o trumpismo e o bolsonarismo são fenômenos de identidade antes de serem programas; e que os dois países vão às urnas nos próximos dois meses com movimentos que perderam parte da base e mantêm o núcleo. A Leaving MAGA cuida da parte; a política decide o núcleo", observa.

Limbaugh, Shapiro, Carlson: a doutrinação

Ex-integrantes citam o rádio de Rush Limbaugh, os podcasts de Ben Shapiro e a televisão de Tucker Carlson como fontes de uma visão de mundo consumida diariamente por anos; o arrependimento, dizem, não é do voto, mas da militância entusiasmada guiada por desinformação.

O eleitor arrependido e as eleições de novembro

Pequena mas concentrada em distritos disputados — Arizona, Pensilvânia, Michigan —, a parcela de ex-apoiadores de Trump é cortejada por democratas moderados e atacada pelo presidente como traidora; com guerra, custo de vida e aprovação em queda, é a margem que pode decidir a Câmara e o Senado.

A crítica ao modelo: patologizar a divergência

Tratar adversários políticos como dependentes em recuperação pode reforçar, entre os que permanecem, a sensação de desprezo da elite; Logis responde que o grupo atende apenas quem procura sair e não recruta — a distinção entre acolhimento e conversão que a organização tenta manter.

O paralelo brasileiro: 8 de janeiro e outubro

O bolsonarismo compartilha com o MAGA a identidade total, a igreja, as redes e o líder perseguido; casos individuais de "saída" aparecem na imprensa, sem organização equivalente; a eleição de 4 de outubro, com Flávio herdando o movimento, testa quanto da identidade se transfere e quantos rompem.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o texto de Sandra Cohen é um retrato do custo humano da polarização. "Ninguém entra num movimento achando que vai precisar de grupo de apoio para sair. Logis entrou por raiva da ordem política, Gage por fé; os dois saíram com a vida social destruída. É o preço da política como identidade, e o Brasil paga a mesma conta em cada família dividida desde 2018. O portal registra a Leaving MAGA não como curiosidade americana, mas como espelho: em outubro, milhões de brasileiros vão votar em quem lhes deu identidade, e alguns vão sair depois — sozinhos, porque aqui ainda não há quem acolha", analisa.

O relato sobre a organização "Leaving MAGA", fundada em 2024 pelo escritor Rich Logis para apoiar ex-simpatizantes de Donald Trump que romperam com o movimento, foi publicado no blog de Sandra Cohen, no G1, em 3 de setembro de 2026; Logis, ex-comentarista da Fox News e participante das campanhas de 2016 e 2020, deixou o MAGA em 30 de agosto de 2022, e depoimentos como o de Jennie Gage, do Arizona, descrevem a militância como identidade total construída sobre desinformação.

Fontes e referências

Leia também