Eleições de meio de mandato nos EUA começam em meio a disputa judicial
Carolina do Norte enviou as primeiras cédulas; governo Trump pede regras mais rígidas à Suprema Corte, juíza bloqueia mudanças e democratas têm alta chance de retomar a Câmara. Votação é em 3/11.
Eleições de meio de mandato nos EUA começam com envio de cédulas pelo correio e disputa judicial sobre as regras do voto à distância
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos começaram oficialmente nesta sexta-feira (4), com o envio das primeiras cédulas pelo correio na Carolina do Norte, no leste do país. O início da votação à distância ocorre em meio a uma disputa judicial sobre as regras do voto postal, que opõe o governo de Donald Trump — empenhado em manter o controle do Congresso — à oposição democrata, e que já passou pela Suprema Corte e por uma juíza federal em poucas semanas. As informações são do G1.
Os americanos vão escolher os ocupantes dos 435 assentos da Câmara dos Representantes e de cerca de um terço das cadeiras do Senado. A votação presencial está marcada para 3 de novembro em todo o país, mas o voto pelo correio — que se tornou uma das principais formas de participação nas eleições americanas — começa dois meses antes, estado a estado, conforme cada um envia suas cédulas.
A batalha pelas regras do voto postal
O governo Trump voltou a pedir nesta semana que a Suprema Corte autorize, em caráter de urgência, a adoção de regras mais rígidas para o voto pelo correio enviado pelo Serviço Postal dos Estados Unidos. Entre as medidas propostas está a ampliação do uso de códigos de barras nos envelopes das cédulas — exigência que, segundo o governo, aumentaria a rastreabilidade e a segurança do processo.
Os democratas acusam o governo republicano de criar dificuldades para os eleitores com as novas exigências, que na prática tornariam o voto postal mais complexo e sujeito a invalidação por erro de preenchimento. A Suprema Corte autorizou parcialmente mudanças nas regras. Uma juíza federal, no entanto, voltou a bloquear as medidas por considerar que não há tempo suficiente para colocá-las em prática antes da eleição — decisão que mantém, por ora, as regras anteriores em vigor enquanto as cédulas já circulam.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a disputa é sobre quem vota, não sobre como. "Nos Estados Unidos, o eleitor que vota pelo correio tem perfil diferente do que vota presencialmente — e os dois partidos sabem exatamente qual perfil favorece cada um. Toda regra que dificulta o voto postal reduz a participação de um lado; toda regra que facilita, aumenta. O código de barras no envelope é um detalhe técnico com consequência eleitoral direta. É por isso que virou caso de Suprema Corte", avalia.
O que está em disputa: Câmara e Senado
As pesquisas apontam alta probabilidade de que os democratas retomem o controle da Câmara dos Representantes, onde todas as 435 cadeiras estão em jogo. A disputa pelo Senado deve ser mais apertada: os republicanos têm atualmente 53 das 100 cadeiras, contra 47 dos democratas, e para assumir o controle da Casa os democratas precisam conquistar ao menos quatro cadeiras a mais do que os republicanos nas vagas em disputa.
A empresa de projeções Decision Desk HQ projetou a possibilidade de um Senado dividido igualmente, com 50 cadeiras para cada partido. Nesse cenário, o vice-presidente republicano, JD Vance, teria o voto de desempate — o que manteria os republicanos com o controle efetivo da Casa mesmo sem maioria numérica.
Um referendo sobre Trump
Republicanos e democratas tratam a eleição como um referendo sobre o governo Trump. A aprovação do presidente está no nível mais baixo de seu mandato: seis em cada dez americanos dizem desaprovar sua gestão. As eleições são marcadas pela inflação e pela guerra no Irã — dois temas que pesam contra o partido no poder —, e o resultado vai definir quanto espaço Trump terá para avançar com sua agenda nos dois últimos anos de mandato.
Eleições de meio de mandato costumam representar uma derrota para o partido do presidente: historicamente, o eleitorado usa a ocasião para impor um contrapeso ao Executivo. A pergunta que domina as projeções não é se os republicanos perderão terreno, mas quanto — e se a perda será suficiente para tirar deles o controle das duas Casas.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o cenário tem precedentes claros. "Presidente com 60% de desaprovação, inflação alta e guerra impopular no meio do mandato. Essa combinação, na história americana, quase sempre custou a Câmara ao partido do presidente. A novidade não é a tendência, é a reação: o governo está tentando mudar as regras do jogo enquanto o jogo já começou. Isso diz muito sobre a leitura que a Casa Branca faz das pesquisas", observa.
Como funciona o voto pelo correio nos EUA
Diferentemente do Brasil, onde a votação é concentrada em um único dia e em urnas eletrônicas, o sistema americano é descentralizado: cada estado define suas próprias regras de registro, prazos e formas de votar. O voto pelo correio permite que o eleitor receba a cédula em casa, preencha, assine e devolva pelo Serviço Postal ou em urnas de coleta — com prazos que variam entre os estados.
A modalidade cresceu de forma expressiva nas últimas eleições e passou a ser objeto de disputa política permanente, com um partido defendendo sua ampliação como forma de facilitar a participação e o outro cobrando restrições em nome da segurança. A Carolina do Norte, que abre o calendário, é tradicionalmente um dos primeiros estados a enviar cédulas e, por ser um estado disputado, funciona como termômetro inicial.
Por que o resultado pode demorar
O voto pelo correio tem uma consequência prática que se tornou tema político nos Estados Unidos: a contagem. Em muitos estados, as cédulas postais só começam a ser apuradas no dia da eleição ou depois dele, e as que chegam nos dias seguintes — dentro do prazo de postagem — são somadas posteriormente. Isso significa que os resultados divulgados na noite de 3 de novembro podem mudar nos dias subsequentes, à medida que os votos postais são contabilizados. Em disputas apertadas, como a projetada para o Senado, a definição pode levar dias ou semanas, e é nesse intervalo que costumam surgir contestações judiciais e acusações de irregularidade.
As regras sobre códigos de barras e verificação de envelopes que o governo tenta impor afetam justamente essa etapa: cédulas que não atendam às novas exigências poderiam ser invalidadas na apuração, o que explica a urgência com que ambos os lados levaram a questão à Justiça antes do início do envio.
O que dizem as pesquisas por Casa
A distinção entre Câmara e Senado é central para entender as projeções. Na Câmara, com todas as 435 cadeiras em disputa e distritos redesenhados a cada década, a maré nacional tende a se refletir com mais fidelidade — daí a alta probabilidade de virada democrata. No Senado, apenas cerca de um terço das cadeiras está em jogo, e o mapa de quais estados votam este ano define quem tem vantagem estrutural; é por isso que, mesmo com Trump em baixa, a Casa pode permanecer republicana ou terminar empatada em 50 a 50.
O contexto: tensões dentro do governo
O início da votação coincide com um momento de turbulência na administração. Trump nomeou nesta semana um secretário interino para o Exército após uma crise entre o antecessor e o chefe do Pentágono, segundo o G1. No exterior, a Holanda retirou toneladas de ouro dos Estados Unidos e as transferiu para Londres, citando "instabilidade geopolítica" — um gesto simbólico de desconfiança de um aliado tradicional.
Há ainda um movimento de desgaste entre a própria base do presidente: grupos organizados ajudam ex-apoiadores a se afastar do movimento MAGA, com depoimentos de arrependimento que se tornaram tema de reportagens. Nada disso decide a eleição por si só, mas compõe o ambiente em que ela começa.
O que esperar até novembro
Nos próximos dois meses, outros estados seguirão a Carolina do Norte no envio de cédulas, e a disputa judicial sobre as regras do voto postal deve continuar — com possibilidade de novas decisões da Suprema Corte. As pesquisas serão atualizadas semanalmente, e os dois partidos concentrarão recursos nos estados e distritos onde a diferença é menor.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o resultado interessa diretamente ao Brasil. "Um Congresso democrata limita o Trump que impôs tarifas ao Brasil, que classificou facções brasileiras como terroristas e que pressiona a América Latina com petróleo e força militar. Não muda a política externa dele, mas muda quanto ele consegue fazer sem negociar. Para Brasília, uma Câmara democrata em janeiro é um interlocutor a mais em Washington — e, nos últimos dois anos, faltou interlocutor", analisa.
A votação presencial em 3 de novembro definirá a composição do Congresso que tomará posse em janeiro de 2027 e acompanhará Trump até o fim de seu mandato.