"EUA em primeiro lugar"
'Décadas de experiência afastadas em grande escala; no longo prazo, isso prejudica o país', diz a AFSA; o porta-voz Tommy Pigott afirma que as demissões seguiram 'todos os requisitos legais'.
"EUA em primeiro lugar": como Trump trocou a diplomacia por aliados políticos e tensionou a relação com o Brasil — cerca de 3 mil dos 14 mil diplomatas de carreira americanos pediram demissão, se aposentaram ou foram forçados a sair em 18 meses, segundo a associação da categoria, e dos 113 nomeados para embaixadas apenas 20 são de carreira; o Departamento de Estado chama a mudança de "reestruturação histórica" para uma diplomacia "mais eficiente, ágil e assertiva", enquanto a crise com Brasília, agravada pela revogação do visto da embaixadora Viotti, se insere no padrão
A atual crise entre Brasil e Estados Unidos, agravada em agosto com a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, ocorre num contexto mais amplo de transformações na diplomacia americana. Especialmente neste segundo mandato, iniciado em 20 de janeiro de 2025, o presidente Donald Trump adota uma política externa descrita por analistas como "transacional" — que busca maximizar os ganhos para os Estados Unidos de forma imediata —, demonstrada por guerras tarifárias e tentativas de influenciar eleições e assuntos domésticos de outros países. As informações são da BBC News Brasil.
Segundo diplomatas americanos e estrangeiros, alguns dos quais comentam de maneira reservada, as mudanças têm sido profundas no Departamento de Estado. A American Foreign Service Association, a AFSA, que representa diplomatas de carreira na ativa e aposentados, calcula que cerca de 3 mil deles, de um quadro de 14 mil, tenham pedido demissão, se aposentado ou sido forçados a sair nos últimos 18 meses. "São diplomatas de carreira com décadas de experiência, que sabem como negociar com governos estrangeiros, têm amplo domínio de línguas estrangeiras e experiência em todas as diferentes áreas da política externa", diz um representante da AFSA. "Todo esse vasto conhecimento e essa experiência estão sendo afastados em grande escala. E, no longo prazo, isso acaba prejudicando o país." O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, diz que a redução faz parte de uma "reestruturação histórica" e que os funcionários foram notificados "em conformidade com todos os requisitos legais": "Essas medidas foram elaboradas minuciosamente para viabilizar uma diplomacia alinhada ao 'America First' que seja mais eficiente, ágil e assertiva". Para a AFSA, há tentativa de politizar o serviço: "Os diplomatas sempre se orgulharam de seu compromisso apartidário com a política externa dos Estados Unidos. Passamos nossa carreira trabalhando tanto para governos democratas quanto republicanos". De acordo com dados da associação até 10 de agosto, a maioria dos 113 nomeados por Trump para postos de embaixador são indicados políticos, e apenas 20 são diplomatas de carreira — com embaixadas sem titular.
Do Itamaraty ao Foggy Bottom: o que a diplomacia transacional de Trump custou ao Brasil em um ano
A relação entre Brasil e Estados Unidos em 2026 é a pior desde a redemocratização, e a reportagem da BBC ajuda a entender por quê: não há, do lado americano, diplomacia no sentido tradicional — negociação por profissionais, canais discretos, interesses de longo prazo —, mas transação conduzida por aliados políticos, com objetivos imediatos e instrumentos de pressão; a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, imposta em 2025 como retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro, a sanção da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, a revogação do visto da embaixadora Viotti em 4 de agosto — gesto inédito contra a chefe de missão de um país com quem não se está em guerra —, a nomeação de Daniel Perez, aliado político sem carreira diplomática, para a embaixada em Brasília, e a exclusão do Brasil da viagem de Marco Rubio à América do Sul, marcada para 8 a 10 de setembro com escalas na Colômbia, no Peru e no Equador, são os capítulos de uma política que trata o Brasil como adversário ideológico a ser punido, e não como parceiro a ser negociado. A saída de 3 mil diplomatas de carreira — mais de 20% do quadro — explica o método: quem conhecia o Brasil, falava português e sabia que o Itamaraty responde melhor a canais discretos do que a ameaças foi demitido, aposentado ou marginalizado, e o Departamento de Estado sob Rubio opera com embaixadores políticos — 93 dos 113 nomeados — e com o Escritório Oval decidindo por post em rede social; a "reestruturação histórica" que Pigott descreve é, na leitura da AFSA, a politização de um serviço que se orgulhava de servir a democratas e republicanos. Para o Brasil, o custo é mensurável: exportadores de café, carne, aço e aviões pagam a tarifa; o setor de tecnologia teme sanções secundárias; a embaixadora trabalha sem visto; e a eleição de outubro, com Flávio Bolsonaro empatado, é acompanhada em Washington como oportunidade de mudar o governo — o tipo de "tentativa de influenciar eleições" que a BBC cita. O Itamaraty, com quadro de carreira intacto, responde com paciência institucional e busca de outros mercados; a pergunta que a reportagem deixa é se a diplomacia profissional americana, quando voltar — se voltar —, encontrará um Brasil que ainda queira negociar.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a reportagem explica a crise com o Brasil melhor do que qualquer nota do Itamaraty. "Três mil diplomatas de carreira fora em 18 meses, 93 embaixadores políticos em 113, e a política externa decidida por quem quer ganho imediato para o eleitor de Trump — é isso que revogou o visto da embaixadora Viotti, impôs a tarifa de 50% e mandou um aliado sem carreira para Brasília. Não é diplomacia; é pressão com verniz. O Brasil tem o Itamaraty, que é o oposto — profissional, lento, apartidário —, e está descobrindo que não adianta negociar com quem não negocia. O portal registra a reportagem da BBC e a lição: quem exporta café de Araras para os Estados Unidos paga hoje o preço de uma política externa feita por post. E outubro decide se Washington vai tratar o Brasil como adversário ou como aliado — dependendo de quem ganhar aqui", avalia.
Os números da AFSA: 3 mil saídas, 20 de carreira em 113
De um quadro de 14 mil diplomatas, cerca de 3 mil deixaram o serviço em 18 meses — por demissão, aposentadoria ou pressão —; dos 113 embaixadores nomeados por Trump até 10 de agosto, 93 são indicados políticos e 20 de carreira, proporção invertida em relação à média histórica de 70% de profissionais; dezenas de embaixadas seguem sem titular.
"Reestruturação histórica": a versão do Departamento de Estado
O porta-voz Tommy Pigott defende que os cortes seguiram a lei e visam uma diplomacia "eficiente, ágil e assertiva" alinhada ao "America First"; o secretário Marco Rubio conduziu a reorganização, fechando escritórios de direitos humanos e democracia e concentrando decisões — o modelo transacional que analistas descrevem.
A crise com o Brasil: tarifa, Magnitsky, Viotti, Perez
Tarifa de 50% desde 2025, sanção a Moraes, revogação do visto da embaixadora em 4 de agosto, nomeação de Daniel Perez para Brasília, exclusão do Brasil da viagem de Rubio à região — a sequência que a BBC contextualiza como aplicação ao Brasil de uma política que trata aliados por afinidade ideológica.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a politização do serviço diplomático é o dano mais duradouro. "Embaixador político sempre existiu — doadores em Paris e Londres —, mas 93 em 113 é outra coisa: é o Departamento de Estado virando extensão da campanha. Quem sai são os que falavam português, árabe, mandarim, e que sabiam que sanção sem estratégia gera inimigo. O que fica é quem concorda. A AFSA está certa: o prejuízo é de longo prazo, e aparece quando os Estados Unidos precisarem de um aliado que humilharam. O portal registra e observa que o Brasil, com o Itamaraty intacto, tem vantagem institucional que deveria usar — com paciência, não com bravata", observa.
Política externa transacional: o conceito
Maximizar ganhos imediatos — comerciais, eleitorais, simbólicos — em cada relação, sem prioridade para alianças de longo prazo ou instituições multilaterais; guerras tarifárias, retirada de acordos, pressão sobre eleições e uso de vistos e sanções como moeda são os instrumentos; analistas a contrastam com a diplomacia de interesse nacional permanente que os profissionais praticavam.
Embaixadas sem titular: o efeito prático
Postos vagos ou ocupados por encarregados de negócios reduzem a capacidade de negociação, de coleta de informação e de proteção a cidadãos americanos; aliados na Europa e na Ásia relatam dificuldade de interlocução, e países como o Brasil recebem indicados políticos cuja missão é pressionar, não construir.
O Itamaraty e a resposta brasileira
Com carreira preservada e tradição apartidária, a diplomacia brasileira responde com institucionalidade — notas, reciprocidade seletiva, busca de mercados na Ásia e na Europa, articulação no Brics —; a exclusão da viagem de Rubio e o visto de Viotti são absorvidos como parte de um ciclo que Brasília espera que termine com a política americana, não com a brasileira.
Outubro no Brasil, novembro nos Estados Unidos
A eleição brasileira, com Lula e Flávio empatados, é vista em Washington como chance de realinhamento; a legislativa americana, com a gasolina recorde e a guerra do Irã impopular, pode mudar o Congresso; os dois calendários definem se a crise bilateral se aprofunda ou se dissolve — e a diplomacia profissional, de ambos os lados, terá de reconstruir o que a transacional desfez.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a reportagem deveria ser lida por quem acha que a crise com os Estados Unidos é culpa do Brasil. "Três mil diplomatas demitidos, embaixador político em quase toda embaixada, política externa por post — o Brasil não é exceção, é exemplo de um método aplicado ao mundo inteiro. A diferença é que aqui tem eleição em outubro e um candidato que Washington prefere. O portal registra a análise da BBC e o alerta da AFSA: quem destrói a diplomacia profissional não a reconstrói em um mandato. O café de Araras vai pagar 50% por um tempo — e o Itamaraty, com razão, vai esperar", analisa.
A reportagem da BBC News Brasil sobre as transformações na diplomacia americana no segundo mandato de Donald Trump — com cerca de 3 mil diplomatas de carreira fora do serviço em 18 meses e apenas 20 profissionais entre 113 embaixadores nomeados, segundo a AFSA — foi publicada em 5 de setembro de 2026, no contexto da crise com o Brasil agravada pela revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti em agosto.