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Ofensiva de Trump sobre o petróleo da Venezuela ameaça dívida de ao menos US$ 10 bilhões com a China

EUA controlam ativos venezuelanos desde a captura de Maduro e falam em concessão de 100 anos; China, que emprestou US$ 60 bi lastreados em petróleo, reage com cautela.

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— Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Ofensiva de Trump sobre o petróleo da Venezuela ameaça dívida de ao menos US$ 10 bilhões com a China: secretário de Energia diz que Pequim não terá receita da nova produção, e "Doutrina Donroe" mira afastar "atores estrangeiros malignos" do hemisfério

A Venezuela tornou-se campo de testes das ambições de Donald Trump no hemisfério ocidental — e mais uma fonte de rivalidade com a China. Depois de anunciar planos para assumir o controle de mais de 65 bilhões de barris das reservas de petróleo venezuelanas, o governo americano deixou claro que era só o começo: o próximo passo é afastar a China e potências como a Rússia, classificadas pela Casa Branca como "atores estrangeiros malignos", numa ofensiva para garantir que "a predominância americana em nosso hemisfério nunca mais seja questionada". Washington pretende agora reestruturar a dívida da Venezuela, que inclui bilhões devidos à China — e o secretário de Energia, Chris Wright, afirmou que Pequim não terá direito a nenhuma receita da nova produção venezuelana. As informações são da Folha de S.Paulo.

A campanha é apresentada como o capítulo mais recente da chamada "Doutrina Donroe", incorporada à Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que estabelece o direito unilateral americano de impedir que potências rivais tenham propriedade ou controle de "ativos estrategicamente vitais" nas Américas. Sob essa bandeira, retirar campos de petróleo de empresas chinesas é oportunidade geopolítica de alinhá-los aos interesses de Washington.

Como os EUA chegaram ao petróleo venezuelano

O controle americano sobre os ativos venezuelanos seguiu-se à captura, no início de 2026, do então presidente Nicolás Maduro — operação que encerrou o regime chavista e abriu caminho para um governo alinhado a Washington. Desde então, os EUA negociaram participação de 35% na North American Blue Energy Partners, empresa do empresário venezuelano Alejandro Betancourt, com acesso a 17 campos de petróleo, e anunciaram um acordo de concessão por 100 anos cujos campos os dois governos ainda não identificaram publicamente. Não está claro até que ponto projetos ligados à China estão incluídos.

Para , editor do portal, a Venezuela é o laboratório de uma nova política hemisférica. "A Doutrina Monroe de 1823 dizia à Europa para não intervir nas Américas. A 'Donroe' diz à China que os ativos estratégicos do hemisfério são americanos por direito — e a Venezuela é onde isso está sendo testado, porque Maduro caiu e não há governo para resistir. Um acordo de concessão por 100 anos, participação em empresa privada com 17 campos, e a declaração de que a China não recebe um centavo da nova produção: é anexação econômica com verniz jurídico. O resto da América do Sul deveria ler isso com atenção", avalia.

A dívida: de US$ 60 bilhões a US$ 10 bilhões

A China começou a financiar projetos de infraestrutura e energia na Venezuela em 2007, no governo de Hugo Chávez. Dados públicos indicam que bancos estatais chineses haviam concedido mais de US$ 60 bilhões (R$ 306 bilhões) em empréstimos lastreados em petróleo até 2015 — o modelo "óleo por dinheiro", em que Caracas pagava em barris. Com as sanções americanas a partir de 2019, a China tornou-se a maior compradora do petróleo venezuelano e principal credora. Caracas deixou de divulgar as obrigações após a moratória de 2017, mas estimava-se que a dívida total com a China fosse de ao menos US$ 10 bilhões (R$ 51,2 bilhões) em 2025 — vinculada a barris que não foram entregues.

"Menos provável que a dívida seja paga"

"O acordo torna menos provável que a dívida seja paga em um futuro próximo", disse Michal Meidan, chefe de pesquisa sobre energia chinesa do Oxford Institute for Energy Studies. "Será interessante ver se isso será sequer abordado mais tarde neste mês, durante o encontro entre Trump e Xi, mas duvido." A eliminação do canal de receita — a nova produção — pelo qual a dívida seria paga é, na prática, um calote induzido por terceiro: os EUA não repudiam a dívida venezuelana com a China, mas tornam impossível pagá-la com petróleo.

A reação chinesa: contida

Até agora, Pequim responde com cautela. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, afirmou que os "direitos e interesses legítimos" da China na Venezuela "devem ser protegidos" e que "a cooperação entre China e Venezuela é protegida pelo direito internacional. Ela não envolve nenhum terceiro." Às vésperas da primeira visita de Estado de Xi Jinping aos EUA em mais de uma década, prevista para setembro, as duas potências evitam confrontos abertos — mesmo divergindo sobre comércio, Irã e agora Venezuela.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a contenção chinesa é cálculo, não fraqueza. "A China reduziu a exposição à Venezuela anos atrás — o petróleo venezuelano era 4% das importações chinesas em 2025 e zero desde a queda de Maduro. Os US$ 10 bilhões de dívida são perda contábil que Pequim já provisionou. O que a China não quer é transformar a Venezuela em briga pública semanas antes de Xi ir a Washington negociar tarifa e Taiwan. Vai engolir a perda venezuelana e cobrar em outro lugar — talvez no Brasil, no Peru, na Argentina, onde tem muito mais em jogo", observa.

"Exclusão coercitiva": o precedente

Christian Reyes, analista de risco político baseado em Pequim, resume o que muda: "A Venezuela não é necessariamente um precedente para a expropriação direta, mas pode ser um precedente para a exclusão coercitiva. Os Estados Unidos estão cada vez mais dispostos a definir partes da relação econômica da região com a China como uma questão de segurança e a usar sua considerável influência para fazer valer essas linhas vermelhas." Uma postura americana mais intervencionista corre o risco de colidir com os interesses chineses na América do Sul — porto de Chancay no Peru, mineração no Chile e na Argentina, energia e agronegócio no Brasil.

Quem perde na China: as refinarias de Shandong

O impacto econômico mais concreto recai sobre as refinarias independentes da província de Shandong, que dependiam do petróleo pesado venezuelano como matéria-prima para betume — o asfalto. A perda desses suprimentos, somada às interrupções do petróleo iraniano, apertou o mercado doméstico chinês de betume e impulsionou os contratos futuros. Para as estatais CNPC e CNOOC, que desenvolveram projetos na faixa do Orinoco, e para investidores privados como a Concord Resources, os riscos de operar na Venezuela já eram conhecidos — a turbulência não surpreende, dizem analistas.

O Orinoco: a maior reserva do mundo

A Venezuela tem as maiores reservas provadas de petróleo do planeta — mais de 300 bilhões de barris, a maior parte na faixa do Orinoco, óleo extrapesado que exige tecnologia e investimento para extrair e refinar. Sob Chávez e Maduro, a produção desabou de mais de 3 milhões de barris por dia para menos de 1 milhão, por má gestão, corrupção e sanções. Os 65 bilhões de barris que os EUA pretendem controlar são uma fração das reservas, mas uma fração enorme — comparável às reservas totais de países como Nigéria ou Líbia.

Maduro capturado: o contexto

A ofensiva sobre o petróleo só foi possível porque, no início de 2026, uma operação americana capturou Nicolás Maduro, encerrando 13 anos de governo e mais de duas décadas de chavismo. O episódio — que Washington apresentou como cumprimento de mandado por narcotráfico e que boa parte da América Latina classificou como intervenção — deixou a Venezuela sem governo capaz de resistir e abriu o caminho para que os Estados Unidos assumissem, na prática, a gestão dos ativos petrolíferos. Desde então, nenhum carregamento venezuelano chegou à China, e a reestruturação da economia do país passou a ser conduzida em coordenação com o Departamento de Energia americano. É esse vácuo de soberania que transforma a Venezuela no laboratório da "Doutrina Donroe".

O Brasil na encruzilhada

"A América do Sul há muito é uma encruzilhada geopolítica onde os interesses da China e dos EUA se cruzam e, às vezes, colidem", disse Liao Na, da GL Consulting. Para o Brasil, vizinho da Venezuela e maior parceiro comercial da China na região, a Doutrina Donroe é aviso: Washington considera que pode definir como questão de segurança a presença chinesa em ativos que julgue estratégicos — portos, minerais críticos, energia, telecomunicações. O discurso de Lula no 7 de Setembro, de que "nenhum país pode tutelar o Brasil" sobre com quem comercia, é resposta a exatamente isso.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a Venezuela é o aviso e o Brasil é o alvo de longo prazo. "Ninguém em Washington perde o sono com US$ 10 bilhões de dívida venezuelana com a China. O que interessa é o precedente: o hemisfério é zona de exclusão. Hoje é a Venezuela sem governo; amanhã é a pressão sobre o Peru pelo porto de Chancay, sobre o Chile pelo lítio, sobre o Brasil pelo nióbio e pelas terras raras que o Senado acabou de regulamentar. A 'Donroe' é doutrina para a região inteira, testada onde não há quem reclame. O Brasil tem quem reclame — e vai precisar", analisa.

O encontro entre Donald Trump e Xi Jinping está previsto para setembro, em Washington. Os governos dos EUA e da Venezuela não divulgaram a lista dos campos de petróleo abrangidos pelo acordo de concessão de 100 anos.

Fontes e referências

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