ONU aprova a troca do mapa-múndi
Mercator infla territórios próximos aos polos, como Europa e América do Norte, e encolhe os da linha do Equador; é a projeção padrão de aplicativos como o Google Maps.
ONU aprova a troca do mapa-múndi: Assembleia Geral vota pela substituição da projeção de Mercator, do século 16, pela Equal Earth, e o Brasil "cresce" — deixa de parecer do tamanho do Alasca, embora seja cinco vezes maior, e a África recupera as proporções reais; vitória da campanha Correct The Map, da União Africana, contra "450 anos de compreensão equivocada do mundo"
A União Africana venceu uma batalha global ao conseguir que a ONU aprovasse uma resolução para mudar o mapa do planeta. A Assembleia Geral das Nações Unidas votou na sexta-feira (4 de setembro) a favor de substituir o mapa-múndi tradicional por um que reflita com maior precisão o tamanho da África, continente que costuma ser retratado como menos importante na cartografia. No novo mapa, chamado Equal Earth, o Brasil também aparece proporcionalmente maior do que na projeção anterior, conhecida como Mercator: nela, o país parece ter dimensão semelhante à do Alasca, embora seja cinco vezes maior que o estado americano; no Equal Earth, o Brasil é bem maior. As informações são da Folha.
A organização que reúne todos os países africanos aderiu há um ano à campanha Correct The Map — "Corrijam o mapa" —, que busca evitar que governos, organizações, escolas e empresas representem o continente como menor do que é. "Pode parecer apenas um mapa, mas na verdade não é", disse à época a vice-presidente da Comissão da União Africana, Selma Malika Haddadi. A projeção de Mercator, criada no século 16 pelo cartógrafo europeu Gerardus Mercator, mostra territórios próximos dos polos — América do Norte e Europa — como maiores do que os situados perto da linha do Equador, como África e América do Sul; foi a solução que ele encontrou para representar um planeta esférico numa superfície plana. Os mapas que seguem Mercator são o padrão de aplicativos como o Google Maps e, possivelmente, os que mais moldaram a imagem mental do planeta. "Durante mais de 450 anos, baseamos nossa compreensão da África e do mundo em um mapa que é equivocado", afirma o site da campanha, que defende que a distorção é questão de "poder e percepção".
Mercator: o mapa dos navegadores que virou o mapa da escola
Publicada em 1569, a projeção de Gerardus Mercator tinha um propósito prático — manter os ângulos, para que uma rota traçada em linha reta no mapa correspondesse a um rumo constante na bússola —, o que a tornou indispensável à navegação por quatro séculos; o preço foi a área: para preservar os ângulos, o mapa estica as latitudes altas, e a Groenlândia, com 2,1 milhões de quilômetros quadrados, aparece do tamanho da África, que tem 30 milhões — catorze vezes maior. O Brasil, cortado pelo Equador, sofre a distorção inversa: seus 8,5 milhões de quilômetros quadrados parecem comparáveis aos 1,7 milhão do Alasca, e a Europa, com um terço da área da América do Sul, parece equivalente. Quando os mapas de parede, os atlas escolares e, no século 21, o Google Maps adotaram Mercator, a ferramenta de navegação virou a imagem do mundo — e a imagem diminuiu sistematicamente os países tropicais.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a votação na ONU é simbólica no melhor sentido. "Gerações de brasileiros cresceram vendo o país do tamanho do Alasca e a Groenlândia do tamanho da África. Não é detalhe: quem parece pequeno no mapa parece pequeno na cabeça — de quem olha de fora e de quem olha de dentro. A União Africana levou um ano para convencer a Assembleia Geral, e conseguiu: a projeção Equal Earth mostra a África com catorze vezes a Groenlândia e o Brasil com cinco vezes o Alasca, porque é assim que é. A resolução não obriga o Google, mas obriga a ONU e sugere às escolas. Se o MEC adotar nos livros didáticos, a próxima geração vai aprender geografia com o Brasil do tamanho certo", avalia.
Equal Earth: a projeção escolhida
Criada em 2018 por três cartógrafos — Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny —, a Equal Earth é uma projeção de áreas equivalentes: preserva a proporção entre os territórios, com formas continentais reconhecíveis e aparência semelhante à do mapa tradicional, o que facilitou sua aceitação; é distribuída livremente e já usada por agências científicas e organizações internacionais.
Groenlândia, Rússia, Canadá: os que encolhem
Na projeção de Mercator, a Rússia — 17 milhões de quilômetros quadrados, o maior país do mundo — aparece com quase o dobro do tamanho real em relação aos trópicos, o Canadá parece maior que os Estados Unidos e a Groenlândia rivaliza com a África; na Equal Earth, a Rússia continua a maior, mas encolhe visivelmente, o Canadá volta à proporção e a Groenlândia assume o tamanho de ilha grande, menor que a Argentina. A Antártida, que em Mercator se estende como faixa infinita na base do mapa, ganha contorno real. O efeito visual mais imediato é o deslocamento do "centro de gravidade" do mapa para o sul.
Google Maps e a projeção nas telas
O Google Maps usa a Web Mercator, variante da projeção clássica, porque ela preserva ângulos e formas locais — o que faz ruas e quarteirões parecerem corretos em qualquer zoom —; em 2018, a versão para computador passou a mostrar o globo tridimensional quando o usuário reduz o zoom ao máximo, atenuando a distorção, mas o aplicativo de celular e as versões incorporadas em sites seguem em Mercator. Trocar a projeção de um serviço de navegação é tecnicamente complexo e não está nos planos anunciados; a resolução da ONU mira mapas de referência, atlas, salas de aula e documentos oficiais.
Por que a África liderou
Com 30 milhões de quilômetros quadrados — maior que China, Estados Unidos, Índia e boa parte da Europa somados —, o continente é o mais encolhido por Mercator; a União Africana vinculou a campanha à luta contra a percepção de irrelevância que afeta investimento, diplomacia e autoestima, e mobilizou 55 países na Assembleia Geral.
O Brasil no novo mapa
Quinto maior país do mundo, o Brasil aparece na Equal Earth com a dimensão real em relação a Canadá, Estados Unidos, Austrália e Europa; a Amazônia, cortada pelo Equador, deixa de parecer uma faixa e ganha a extensão que tem — equivalente à Europa Ocidental. Rússia e Canadá encolhem visivelmente.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a mudança tem efeito prático além da estética. "Mapas orientam decisão: onde investir, onde há gente, onde há floresta. Um mapa que dobra o tamanho do hemisfério norte e reduz o sul pela metade cria uma ilusão sobre onde está o mundo — e o mundo, em população, agricultura e biodiversidade, está nos trópicos. A ONU adotar a Equal Earth em seus documentos, relatórios e salas de negociação muda o cenário em que se discute clima, comércio e ajuda. O Google vai demorar, porque Mercator serve à navegação em tela; mas o mapa de parede da sala de aula pode mudar amanhã", observa.
O que a resolução muda — e o que não muda
A resolução da Assembleia Geral orienta o sistema ONU a adotar a Equal Earth em publicações e materiais e recomenda a países e organizações que façam o mesmo; não tem força de lei sobre empresas ou governos. O Google Maps, que usa Mercator por ser conforme — preserva ângulos e ruas —, não anunciou mudança.
Outras alternativas: Peters, Robinson, Winkel
A projeção de Gall-Peters, dos anos 1970, já preservava áreas, mas distorcia formas e enfrentou resistência; Robinson e Winkel Tripel, usadas pela National Geographic, equilibram área e forma sem preservar nenhuma; a Equal Earth combina a fidelidade de área com formas aceitáveis — razão de sua adoção.
Educação: os livros didáticos
Cartógrafos e professores de geografia defendem que escolas apresentem várias projeções e expliquem a distorção; o Programa Nacional do Livro Didático pode incorporar a Equal Earth nas próximas edições, se o Ministério da Educação assim orientar. Alguns países africanos já a adotaram no currículo.
"Poder e percepção": o argumento
A campanha sustenta que o mapa que encolhe África e América do Sul reforça a ideia de que esses continentes importam menos — e que corrigir a imagem é parte da correção das relações; críticos dizem que é simbolismo. A ONU, ao votar, tomou partido do símbolo.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o episódio é raro exemplo de diplomacia que muda a paisagem. "Uma campanha de um ano, liderada por 55 países africanos, conseguiu que a Assembleia Geral trocasse o mapa do mundo. Não custou dinheiro, não gerou guerra, não precisou de veto de ninguém — e muda o que bilhões de pessoas vão ver na parede. O Brasil ganhou de carona: cresce no mapa sem ter feito nada, porque estava do lado certo do Equador. Talvez seja o momento de o Itamaraty perceber que o país aparece maior quando se junta ao Sul global do que quando tenta parecer Europa", analisa.
A resolução da Assembleia Geral da ONU que substitui a projeção de Mercator pela Equal Earth como mapa-múndi de referência foi aprovada em 4 de setembro de 2026 e noticiada pela Folha em 5 de setembro. A campanha Correct The Map é liderada pela União Africana.