Pular para o conteúdo
Mundo

"Socialista champagne" é a nova esperança da esquerda para a eleição presidencial francesa de 2027

A esquerda não chega ao segundo turno desde 2012; Glucksmann é criticado por ser pró-Israel, pró-nuclear e pouco radical, e a companheira Léa Salamé deixou o telejornal durante a campanha.

Capa do artigo "Socialista champagne" é a nova esperança da esquerda para a eleição presidencial franc…
— Foto: Adrião / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

"Socialista champagne" é a nova esperança da esquerda para a eleição presidencial francesa de 2027: Raphaël Glucksmann lançou a candidatura escalando uma turbina eólica de 80 metros — "não tenho medo, mal posso esperar para chegar ao topo" — e prometeu uma "revolução ambiental de cem dias" para livrar a França dos combustíveis fósseis; eurodeputado de 46 anos, escritor e fundador do Place Publique, ele enfrenta Le Pen quase certa no segundo turno, Mélenchon crescendo à esquerda e os herdeiros de Macron ao centro

A maioria dos políticos lança suas campanhas de um púlpito. Raphaël Glucksmann começou sua candidatura à Presidência da França escalando uma turbina eólica de 80 metros. "Não tenho medo, mal posso esperar para chegar ao topo", disse, de capacete e arnês; de volta ao solo, prometeu uma "revolução ambiental de cem dias" caso seja eleito em 2027, para combater as mudanças climáticas e livrar a França dos combustíveis fósseis. As informações são da Folha.

Depois de um dos verões mais quentes já registrados no país e de incêndios florestais devastadores, a questão o coloca na linha de frente dos debates públicos, mas a candidatura ao Eliseu enfrenta obstáculos formidáveis: a esquerda francesa não chega ao segundo turno das presidenciais desde 2012, e, com Marine Le Pen, da ultradireita, praticamente certa numa das duas vagas do segundo turno em maio do próximo ano, Glucksmann também será espremido pela esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon, que ganha terreno nas pesquisas, e pelos herdeiros centristas de Emmanuel Macron. Aos 46 anos, escritor e ativista que se tornou eurodeputado, ele lançou seu partido, o Place Publique, em 2018, e ganhou projeção nacional ao liderar uma lista conjunta com os socialistas, terceira colocada nas eleições europeias de dois anos atrás. "Eu não venho do molde político usual", disse à TF1. "Eu não fui assessor parlamentar aos 20 anos nem funcionário de um partido político, eu estava ao lado de pessoas que haviam escapado do genocídio em Ruanda, e de opositores do imperialismo russo na Geórgia e na Ucrânia." "Muitos franceses não acreditam mais na política porque ela não é sincera. É bom ter um recomeço com alguém sincero", disse o aliado Nicolas Mayer-Rossignol, prefeito socialista de Rouen. Uma formação elitista e intelectual, porém, pode não jogar a seu favor, e algumas posições irritam eleitores de esquerda, que o acusam de ser excessivamente pró-Israel, pró-energia nuclear e não suficientemente radical na economia. Ele forma um "casal poderoso" com a companheira Léa Salamé, uma das jornalistas de televisão mais conhecidas da França, que deixou de apresentar seu programa de notícias de horário nobre durante a candidatura; a Paris Match estampou o casal na praia da Córsega na capa em agosto, logo abaixo de imagens de Macron num jet ski. Glucksmann tem um leve ar de "socialista champanhe" que pode prejudicá-lo, disse Daniel Boy, do Sciences Po.

A esquerda francesa em busca de um nome: Glucksmann entre Mélenchon, Le Pen e a herança de Macron

Filho do filósofo André Glucksmann — o ex-maoista que virou "novo filósofo" anticomunista nos anos 1970 e apoiou Sarkozy em 2007 —, Raphaël construiu sua identidade política no exterior: documentarista em Ruanda, assessor do presidente georgiano Saakashvili contra a Rússia, ativista pela Ucrânia desde 2014 e pelos uigures na China, e é essa biografia — atlantista, europeísta, anti-Putin, pró-Ucrânia e, para desgosto de parte da esquerda, favorável a Israel após o 7 de outubro — que o distingue de Mélenchon, cujo France Insoumise é pacifista, crítico da Otan e da União Europeia e, nas eleições de 2024, tornou-se a maior força da esquerda com discurso radical e polêmicas sobre antissemitismo. A eleição de 2027 tem um dado fixo — Le Pen, ou seu sucessor Jordan Bardella se ela for impedida de concorrer pela condenação de 2025, lidera todas as pesquisas e tem vaga quase garantida no segundo turno — e uma pergunta aberta: quem a enfrenta, e a resposta depende de a esquerda escolher um candidato único, o que Mélenchon rejeita, ou de se dividir entre o radical e o moderado e, como em 2017 e 2022, ficar fora de novo; Glucksmann aposta que o eleitor de centro-esquerda, órfão de Macron — que não pode concorrer — e assustado com Mélenchon, o prefira, e que a bandeira do clima, depois do verão de incêndios e calor recorde, mobilize jovens que a esquerda perdeu; contra ele pesam o rótulo de "socialista champagne" — a esquerda de boa origem, de Saint-Germain-des-Prés, que o eleitor popular associa a Hollande e à traição de 2012-17 —, a exposição do casal com Léa Salamé, que a Paris Match transforma em celebridade, e uma economia de reforma, não ruptura, num país em crise fiscal e com o governo caindo a cada orçamento. A turbina eólica é a metáfora que ele escolheu: subir onde os outros não sobem; o risco é o de todo candidato de centro-esquerda europeu em 2026 — ser sincero demais para a política e moderado demais para a rua.

Para , editor do portal, Glucksmann é a aposta de uma esquerda que precisa reinventar-se para não ser engolida. "A França tem Le Pen no segundo turno desde 2017 e a esquerda fora dele desde 2012 — porque se divide entre Mélenchon, que assusta o centro, e socialistas que ninguém lembra. Glucksmann é a tentativa de um nome novo: pró-Europa, pró-Ucrânia, pró-clima, anti-Putin, e — herança do pai — sem medo de discordar da própria esquerda sobre Israel e nuclear. Subiu numa turbina de 80 metros para dizer isso. O portal registra a candidatura e o obstáculo: 'socialista champagne' é o insulto que gruda em quem tem biografia intelectual e companheira famosa num país que quer punir elite. Se ele unir a esquerda, enfrenta Le Pen; se não, a França terá, pela quarta vez, segundo turno sem esquerda — e o Brasil, que assiste à sua própria polarização, sabe o que isso custa", avalia.

Glucksmann: biografia de um candidato atípico

Nascido em 1979, filho de André Glucksmann, jornalista e documentarista, assessor na Geórgia, ativista pela Ucrânia e pelos uigures, fundador do Place Publique em 2018, eurodeputado desde 2019 e líder da lista socialista nas europeias de 2024, com 14% e o terceiro lugar; escritor de ensaios sobre democracia e Europa; casado com Léa Salamé.

A turbina e a "revolução de cem dias"

O lançamento escalando uma eólica de 80 metros sintetiza a plataforma: transição energética acelerada, fim dos combustíveis fósseis, investimento em renováveis e nuclear — posição que o distingue dos verdes antinucleares —, com um pacote de cem dias; o verão de 2026, com calor recorde e incêndios, dá urgência ao tema.

Le Pen no segundo turno: o dado fixo

A líder do Reagrupamento Nacional, ou Jordan Bardella caso a inelegibilidade por desvio de fundos europeus seja mantida, lidera as pesquisas com folga e é dada como certa numa das vagas de maio de 2027; a disputa real é pela segunda vaga — entre esquerda, centro e direita tradicional.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, o problema de Glucksmann é o mesmo da esquerda moderada em todo o Ocidente. "Ele é o candidato que o editorial gosta e a periferia não conhece: intelectual, europeísta, com companheira apresentadora de TV e capa de Paris Match na praia. Mélenchon fala com quem está bravo; Le Pen, com quem tem medo; Glucksmann, com quem lê. É pouco para ganhar eleição na França de 2027, com governo caindo a cada orçamento e a extrema direita a um passo do Eliseu. O portal registra e observa que a esquerda francesa, como a brasileira, precisa decidir se quer vencer ou ter razão — e que subir em turbina é bonito, mas não substitui uma aliança com Mélenchon que os dois recusam", observa.

Mélenchon e a divisão da esquerda

O líder do France Insoumise, com base entre jovens, periferias e o voto muçulmano, é o maior obstáculo interno: rejeita primárias, mantém candidatura própria e acusa Glucksmann de "social-liberal" e pró-Israel; sem união, as pesquisas indicam que nenhum dos dois passa ao segundo turno.

Os herdeiros de Macron: o centro sem dono

Com Macron impedido de concorrer, ex-primeiros-ministros como Édouard Philippe e Gabriel Attal disputam o espaço centrista, também de olho no eleitor de Glucksmann; a fragmentação do centro e da esquerda é o que favorece Le Pen — e o que o "socialista champagne" tenta superar atraindo os macronistas desiludidos.

Léa Salamé e o "casal poderoso"

A jornalista mais conhecida da TV francesa afastou-se do telejornal de horário nobre para evitar conflito de interesses; a capa da Paris Match, ao lado de Macron de jet ski, mostrou o casal como celebridade — trunfo de visibilidade e alvo da crítica de elitismo que o rótulo de Daniel Boy sintetiza.

Israel, nuclear, economia: as críticas da esquerda

Glucksmann condenou o Hamas e defendeu Israel após o 7 de outubro, criticando depois a ofensiva em Gaza; apoia a energia nuclear como parte da transição; e propõe reformas econômicas sem ruptura com a União Europeia — posições que o afastam do France Insoumise e dos verdes, mas o aproximam do eleitor de centro.

Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a candidatura tem um mérito raro. "Num tempo em que político sobe em palanque para gritar, Glucksmann subiu numa turbina para dizer que o clima é a pauta. É sincero, como diz o prefeito de Rouen, e é insuficiente, como diz o professor do Sciences Po. A França vai decidir em 2027 se a extrema direita chega ao poder, e a esquerda decide antes se vai unida ou dividida. O portal registra o 'socialista champagne' e torce, sem ilusão, para que a turbina o leve mais alto do que as pesquisas — porque a alternativa, Le Pen no Eliseu, é notícia para o mundo inteiro", analisa.

O lançamento da candidatura de Raphaël Glucksmann à Presidência da França em 2027, com a escalada de uma turbina eólica e a promessa de uma "revolução ambiental de cem dias", foi analisado pela Folha em 3 de setembro de 2026; o eurodeputado do Place Publique, de 46 anos, disputa a vaga da esquerda no segundo turno de maio de 2027 contra Jean-Luc Mélenchon e os herdeiros de Emmanuel Macron, com Marine Le Pen favorita.

Fontes e referências

Leia também