'Ulli' pode ser o 1º governante de extrema direita da Alemanha pós-guerra
Eleição estadual é neste domingo (6); Der Spiegel o chama de "o homem mais perigoso do país", e o governo Merz discute negar segredos de Estado à AfD.
"Ulli", o empresário de marketing olfativo de 35 anos que pode ser o primeiro governante de extrema direita da Alemanha desde o nazismo: com mais de 40% nas pesquisas em Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, da AfD, faz campanha de motoneta da Alemanha Oriental e promete deportações em massa
O Financial Times diz que seu sorriso de comercial de pasta de dente lhe dá ar de personagem criado por IA; a Der Spiegel o classifica como "o homem mais perigoso" do país; o Le Monde nota que ele prefere ser chamado de Ulli. Ulrich Siegmund, 35, está sendo escrutinado por boa parte do planeta porque pode se tornar o primeiro político de extrema direita a chegar ao poder na Alemanha desde a Segunda Guerra — desde o nazismo. O passo pode ser dado neste domingo (6), na eleição de Saxônia-Anhalt, estado do leste que compunha a ex-Alemanha Oriental, berço de Lutero, Bismarck e Nietzsche. Pesquisas projetam mais de 40% dos votos para a AfD, a Alternativa para a Alemanha, avaliada pelos serviços de segurança como de "extrema direita comprovada". As informações são da Folha de S.Paulo.
O partido contesta a classificação na Justiça em âmbito federal; no diretório estadual de Siegmund, o rótulo é irreversível — parte dos integrantes é investigada por discurso de ódio, citações nazistas e desobediência à Constituição. O gabinete do primeiro-ministro Friedrich Merz discute como evitar que um eventual governo da AfD tenha acesso a segredos de Estado, e parte do establishment defende que o partido seja proscrito. Se a eleição fosse nacional, 28% escolheriam a AfD.
Saxônia-Anhalt: o estado e a memória
Saxônia-Anhalt, com capital em Magdeburgo, foi palco há três décadas de uma onda de violência de skinheads e neonazistas contra imigrantes, homossexuais e ativistas — os "Anos do Taco de Beisebol", que seguiram a reunificação. É estado de população envelhecida, emigração de jovens, desindustrialização e ressentimento com o Oeste — o terreno em que a AfD cresceu de partido antieuro em 2013 a força dominante do leste. Os 40% projetados seriam o maior resultado da sigla em qualquer eleição.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a eleição de domingo é a mais importante da Europa em 2026. "Não é a Alemanha inteira, é um estado de dois milhões de habitantes. Mas é a primeira vez desde 1945 que a extrema direita pode governar um pedaço do país que inventou o nazismo. A AfD já é o segundo partido nacional, com 28%; Saxônia-Anhalt é o laboratório do que ela faria com poder: deportação em massa, saúde sem estrangeiro, escola sem professor 'político'. Merz discute negar segredos de Estado a um governo eleito — o que mostra o tamanho do dilema democrático. Ulli sorri para a foto. O sorriso é a estratégia", avalia.
"45 ou mais": a maioria segura
"Precisa ser 45 ou mais", diz Siegmund sobre o número de cadeiras que define como "maioria segura" para ser indicado ministro-presidente — cargo equivalente a governador — e governar. Os últimos levantamentos dão à AfD no mínimo 39 assentos. Qualquer resultado abaixo da maioria, prevê a Folha, fará militantes e grupos extremistas irem às ruas reclamar de fraude. Siegmund, até aqui, diz que respeitará o resultado das urnas. Sem maioria própria, o partido dependeria de coalizão que nenhuma outra sigla aceita — o "cordão sanitário" que a Alemanha mantém desde a fundação da AfD.
O programa: deportações, família, igrejas
O discurso é simpático e contido; o programa de governo, radical: deportações em massa de imigrantes em situação irregular, serviços de saúde livres de estrangeiros, definição de família como homem, mulher e filhos, intervenções severas em cultura e educação. Nem as Igrejas Evangélica e Católica escapam — não seriam cristãs o suficiente. Boa parte do programa é inconstitucional ou está fora da alçada de um estado; "a AfD não lida bem com limites", resume a reportagem.
A motoneta Simson e a nostalgia
A campanha não será lembrada por discursos, mas pelos passeios pelo estado puxando caravanas a bordo de uma motoneta Simson — relíquia da Alemanha Oriental, símbolo dos "bons tempos", quando o russo era ensinado nas escolas e todos tinham emprego e habitação garantidos. O partido promete tudo de volta, sem explicar como. Stasi, repressão — isso é memória histórica, "mal ensinada nas escolas por professores que insistem em se meter em política". Serão tolhidos, promete o partido. O que importa na campanha, nota a Folha, são as memórias afetivas, processadas em cortes no TikTok.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a Simson é a chave. "Siegmund nasceu em 1990, depois do Muro. Não viveu a Alemanha Oriental — vende a nostalgia dela a quem viveu. Motoneta, emprego garantido, russo na escola: é a memória editada de uma ditadura, sem a Stasi. É o mesmo mecanismo do 'antigamente era melhor' em toda parte, com a diferença de que aqui o 'antigamente' é um Estado policial. E funciona porque o leste alemão se sente perdedor da reunificação há 35 anos. A AfD não criou o ressentimento; colheu. Ulli é o colhedor com sorriso", observa.
De marketing olfativo à política
Nascido em 1990, Siegmund se formou em psicologia corporativa e criou uma empresa de marketing olfativo com mais de 200 fragrâncias — "Le Patron", com notas de limão, maçã verde, cravo e canela, para escritórios e salas de espera. Filiou-se aos 18 à CDU, o partido democrata-cristão de Merz e Merkel; pulou para a AfD em 2014, na crise do euro, e elegeu-se deputado estadual dois anos depois. Viralizou na pandemia ao reclamar nas redes do confinamento e das restrições sanitárias — e ganhou peso no partido.
A reunião da "reimigração"
Em 2024, virou herói da militância após ser flagrado por site investigativo em reunião com empresários discutindo "reimigração" — eufemismo para deportação forçada. O relato foi resgatado pela imprensa nos últimos dias: Siegmund explicava a estratégia de parecer "um cara completamente normal, alguém com quem as pessoas pudessem se identificar"; decisões cruciais deveriam ser tomadas "nos bastidores"; a mudança tinha de ser rápida, e a vida dos imigrantes em Saxônia-Anhalt, pouco atrativa. Na semana passada, comerciantes de origem estrangeira no estado alertaram para as consequências práticas dessa política.
Merz e o dilema do Estado
O governo federal de Friedrich Merz, com recordes negativos de popularidade, discute como lidar com um governo estadual da AfD: negar acesso a informações sensíveis, restringir cooperação em segurança, ou seguir o caminho da proscrição — processo constitucional que exige prova de que o partido atenta contra a ordem democrática, e que dividiria o país. Se a AfD chegar ao Executivo pela primeira vez, Merz será ainda mais pressionado — e a eleição federal de 2029 se aproxima com a sigla em 28%.
Weidel, 2029 e 2033
Siegmund não é o nome do partido para 2029; aliados dizem que Berlim é plano para 2033 — está na fila atrás de Alice Weidel, a líder nacional. Antes, precisa governar Saxônia-Anhalt: mostrar que a AfD administra, ou confirmar que não sabe. O mandato estadual seria vitrine e teste — e a Europa inteira assistiria.
O que muda para a Europa
Um governo da AfD num estado alemão seria o marco da normalização da extrema direita no país central da União Europeia — depois de Itália, Holanda, Áustria e Hungria. Para Bruxelas, é a confirmação de que o cordão sanitário alemão, o último de peso, começa a ceder. Para a Rússia, que a AfD trata com simpatia, é ganho estratégico. Para os imigrantes de Magdeburgo, é a pergunta sobre ficar ou sair.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, o Brasil conhece o roteiro. "Candidato jovem, sorriso de propaganda, TikTok, nostalgia de um passado autoritário editado, promessa de mudança rápida 'nos bastidores', e a imprensa chamando de perigoso — o que vira ativo. A Alemanha está vivendo em 2026 o que o Brasil viveu em 2018 e vive de novo em 2026. A diferença é o peso da história: lá, extrema direita no poder remete a 1933. Siegmund sabe disso e por isso é simpático. A Der Spiegel o pôs na capa como o homem mais perigoso; ele autografou os exemplares. Quem já viu esse filme sabe que o sorriso dura até a posse", analisa.
A eleição estadual de Saxônia-Anhalt, na Alemanha, ocorre em 6 de setembro de 2026. Pesquisas projetam mais de 40% dos votos para a AfD, que tem Ulrich Siegmund como candidato a ministro-presidente.