Uma mulher à frente da ONU seria o fim de uma injustiça de 80 anos
Fala-se numa indicação com dois quesitos inéditos — América Latina e Caribe, e uma mulher —, mas tudo pode mudar; tabelas de "encorajamento" lembram pesquisas, e observadores vigiam até a.
Uma mulher à frente da ONU seria o fim de uma injustiça de 80 anos: com Guterres deixando o cargo, a escolha velada do Conselho de Segurança já teve duas votações secretas — Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente da Costa Rica, venceu a primeira; Carolyn Rodrigues-Birkett, ex-ministra da Guiana, a segunda — e ainda tem Michelle Bachelet, candidata do Brasil e do México, o argentino Rafael Grossi, da AIEA, e o ugandense Olara Otunnu, num processo em que vence quem alcançar nove votos sem veto dos cinco membros permanentes
Alguém duvida que, em oito décadas, mulheres notáveis poderiam ter liderado, e renovado, as Nações Unidas? A pergunta abre a coluna da jornalista Laura Greenhalgh, ex-editora-executiva de O Estado de S. Paulo e âncora do podcast Mundo, Vasto Mundo, na Folha, de onde são as informações, sobre a sucessão de António Guterres na secretaria-geral da ONU. Fala-se numa indicação a partir de dois quesitos inéditos: alguém da região da América Latina ou Caribe, e uma mulher; porém, tudo pode mudar nessa escolha um tanto quanto velada do Conselho de Segurança, com cinco membros permanentes e dez rotativos.
Já foram feitas duas votações secretas, e sabe-se lá quantas mais virão: na primeira, Rebeca Grynspan, economista e ex-vice-presidente da Costa Rica, levou a melhor; na segunda, Carolyn Rodrigues-Birkett, ex-ministra da Guiana, passou à frente; e um competidor retardatário, o diplomata Olara Otunnu, de Uganda, exibe fôlego. Há outros competidores, entre eles a ex-presidente chilena e ex-Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos Michelle Bachelet, candidata do Brasil e do México, e o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica. As consultas continuam até que alguém atinja nove votos favoráveis, sem nenhum veto dos membros permanentes; a partir daí, o nome pode seguir para referendo da Assembleia-Geral. Hoje, tabelas internas e não oficiais, divididas em votos de encorajamento, desencorajamento ou "sem opinião", lembram pesquisas eleitorais, numa disputa em que novos nomes ainda podem surgir; observadores anotam tudo, até mudanças súbitas nos perfis dos candidatos na Wikipedia — procura-se, por exemplo, um tópico intitulado "Controvérsias" na biografia de Grynspan. Nem tão emocionante, porém crucial, é pensar no que se espera de quem comandará a organização: Guterres deixa o posto após enfrentar pandemia, guerras, limpezas étnicas e autocracias, com esforço inegável pela reforma interna; em 80 anos, a ONU acumulou milhares de mandatos, parte deles caducou, e o órgão amarga cortes orçamentários dramáticos. O secretário-geral fez muito, escreve a colunista, mas talvez frustre pelo que deixou de fazer, como empregar todos os meios de evitar o extermínio na Faixa de Gaza.
Nove homens em 80 anos: a sucessão de Guterres entre a rotação regional, o veto das potências e a candidatura brasileira de Bachelet
A ONU teve nove secretários-gerais desde 1946 — Lie, Hammarskjöld, U Thant, Waldheim, Pérez de Cuéllar, Boutros-Ghali, Annan, Ban e Guterres —, todos homens, e apenas um latino-americano, o peruano Pérez de Cuéllar, entre 1982 e 1991; a rotação regional informal e a pressão de campanhas como a "1 for 8 Billion" tornaram 2026 o ano em que a combinação América Latina + mulher deixou de ser aspiração e virou critério tácito, com a Costa Rica lançando Grynspan — economista, ex-chefe da Unctad, com trânsito em Washington e Pequim —, a Guiana lançando Rodrigues-Birkett — ex-chanceler, ex-embaixadora na ONU, do Caribe anglófono que nunca teve um secretário-geral —, e Brasil e México apostando em Bachelet, ex-presidente duas vezes, ex-chefe da ONU Mulheres e ex-Alta Comissária de Direitos Humanos, cujo perfil progressista e o histórico de críticas a Israel, à China e aos Estados Unidos em Genebra são, ao mesmo tempo, sua credencial e seu risco de veto; do outro lado, Grossi, da AIEA, é o candidato que a guerra do Irã tornou visível — negociador entre Washington, Teerã e Moscou sobre o programa nuclear, com respeito das potências e desconfiança dos que o veem como técnico, homem e argentino de Milei —, e Otunnu, ex-chanceler de Uganda e ex-representante para crianças em conflitos armados, é a alternativa africana caso a rotação latino-americana naufrague. O processo — "straw polls" secretos no Conselho, com cédulas de encoraja/desencoraja/sem opinião, e cédulas coloridas para distinguir os vetos dos permanentes na fase final — é o mesmo desde 1981 e favorece o candidato que ninguém odeia, mais que o que muitos admiram: Trump, que desfinanciou a ONU, ameaça veto a qualquer nome "woke"; China e Rússia rejeitam quem os criticou em direitos humanos — o calcanhar de Bachelet —; França e Reino Unido pressionam por uma mulher; e o Brasil, que apoia Bachelet e disputa há décadas um assento permanente, joga a sua diplomacia num nome chileno em vez de um brasileiro. O que a colunista aponta como crucial — o que se espera da organização — é o que a disputa menos discute: uma ONU com orçamento cortado por Washington, mandatos caducos, incapaz de impedir Gaza, a Ucrânia, o Sudão ou a guerra do Irã, e cuja reforma do Conselho de Segurança, prometida há 30 anos, não avança; a primeira secretária-geral herdaria a instituição mais fraca de sua história, e a injustiça de 80 anos, se corrigida, viria com a conta. Para o Brasil, que sediou a COP30, a cúpula do Brics e que mantém a candidatura ao Conselho, a sucessão é a chance de mostrar que a "América Latina unida" existe além do discurso — e Bachelet, Grynspan e Rodrigues-Birkett, três candidatas da região, são a prova de que ela ainda não existe.
Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a coluna aponta a injustiça e a armadilha. "Oitenta anos, nove homens, uma mulher nunca — e três candidatas latino-americanas disputando entre si, enquanto Grossi e Otunnu esperam que a região se divida. O Brasil apoia Bachelet; a Costa Rica, Grynspan; a Guiana, Rodrigues-Birkett. Se a América Latina quisesse uma secretária-geral, teria uma candidata. O portal registra as duas votações secretas, as tabelas que parecem pesquisa eleitoral e a vigilância na Wikipedia, e observa que o processo favorece quem ninguém veta — e que Trump, Xi e Putin têm cada um a sua lista de vetos. A primeira mulher vai chegar; a pergunta é se chega a uma ONU que ainda importa", avalia.
As candidatas e os candidatos
Rebeca Grynspan (Costa Rica), economista, ex-vice-presidente e ex-chefe da Unctad; Carolyn Rodrigues-Birkett (Guiana), ex-chanceler e ex-embaixadora na ONU; Michelle Bachelet (Chile), ex-presidente e ex-Alta Comissária, apoiada por Brasil e México; Rafael Grossi (Argentina), diretor-geral da AIEA; Olara Otunnu (Uganda), ex-chanceler — e nomes novos ainda podem surgir.
O processo: nove votos, nenhum veto
Votações secretas ("straw polls") no Conselho de Segurança, com cédulas de encorajamento, desencorajamento ou sem opinião; nas rodadas finais, cédulas coloridas identificam os vetos dos cinco permanentes; vence quem alcança nove votos favoráveis sem veto, e o nome segue à Assembleia-Geral para referendo — o rito vigente desde 1981.
Duas votações, duas líderes
Grynspan venceu a primeira rodada; Rodrigues-Birkett, a segunda; Otunnu, retardatário, mostra fôlego; tabelas internas não oficiais lembram pesquisas eleitorais, e observadores monitoram até edições súbitas nos perfis dos candidatos na Wikipedia — como a busca por um tópico "Controvérsias" na biografia de Grynspan.
Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, Bachelet é a aposta certa e arriscada do Brasil. "Duas vezes presidente, chefe da ONU Mulheres, Alta Comissária de Direitos Humanos — currículo que nenhum outro candidato tem, e histórico de críticas a China, Israel e Estados Unidos que nenhum outro carrega. Pequim não esqueceu Xinjiang; Washington de Trump não vai apoiar quem criticou a fronteira. O Brasil sabe disso e apoia mesmo assim, porque o nome vale a bandeira. O portal registra e observa que Grossi, negociador da guerra do Irã, é o candidato que o momento produziu — homem, técnico, e o único que Washington, Moscou e Teerã atendem ao telefone", observa.
Bachelet: o currículo e o risco de veto
Ex-presidente do Chile (2006–2010, 2014–2018), ex-diretora da ONU Mulheres e ex-Alta Comissária de Direitos Humanos (2018–2022), com relatório crítico sobre Xinjiang e posições sobre Gaza e imigração que podem custar vetos de China e Estados Unidos — a candidatura brasileira-mexicana de maior peso e maior exposição.
Grossi: o candidato que a guerra do Irã produziu
Diretor-geral da AIEA desde 2019, interlocutor de Washington, Teerã e Moscou sobre o programa nuclear iraniano e a usina de Zaporíjia; técnico respeitado pelas potências, criticado por parte do Sul Global como pouco político — e argentino, num momento em que a região apoia candidatas.
A ONU que a vencedora herdará
Orçamento cortado por Washington, milhares de mandatos acumulados em 80 anos, parte caduca, reforma do Conselho de Segurança paralisada, e a impotência diante de Gaza, Ucrânia, Sudão e Irã; Guterres, avalia a colunista, fez muito pela reforma interna e frustrou pelo que não fez para evitar o extermínio em Gaza.
A América Latina dividida em três
Costa Rica, Guiana e Brasil–México apresentam candidatas distintas; a rotação regional favorece a América Latina e o Caribe, mas a divisão abre espaço a Otunnu e a Grossi; a unidade regional que o Brasil prega no Brics e na Celac não se traduziu num nome único para a secretaria-geral.
Para Thiago Baptista Martins, editor do portal, a escolha diz mais sobre as potências que sobre as candidatas. "Quem decide são cinco vetos: Trump, Xi, Putin, Macron e Starmer. A mulher latino-americana que sair dali será a que nenhum dos cinco quis barrar — o que é uma qualificação, mas não a que o mundo precisa numa ONU que não impediu nenhuma guerra desta década. O portal registra a coluna de Laura Greenhalgh, a injustiça de 80 anos e a esperança de corrigi-la, e lembra que o secretário-geral é o funcionário mais importante do mundo com o menor poder — e que uma mulher vai descobrir isso na primeira semana", analisa.
A coluna de Laura Greenhalgh sobre a sucessão de António Guterres na secretaria-geral das Nações Unidas foi publicada pela Folha em 3 de setembro de 2026: após duas votações secretas no Conselho de Segurança, vencidas por Rebeca Grynspan e Carolyn Rodrigues-Birkett, a disputa inclui ainda Michelle Bachelet, candidata do Brasil e do México, Rafael Grossi e Olara Otunnu, e será decidida quando um nome alcançar nove votos favoráveis sem veto dos membros permanentes.