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Automóveis

Golpe do pedágio free flow

Levantamento da Kaspersky mostra páginas que pedem a placa e geram cobrança falsa de cerca de R$ 25; app CNH do Brasil passou a centralizar a consulta de passagens reais e é a forma segura de pagar.

Capa do artigo Golpe do pedágio free flow
— Foto: KarlGaff / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Golpe do pedágio free flow: 480 sites falsos cobram passagens por Pix e criminosos criaram 80 páginas em uma única semana

Em um ano, o número de sites falsos que prometem regularizar passagens pelo sistema de pedágio eletrônico free flow chegou a 480, segundo levantamento da empresa de segurança digital Kaspersky reproduzido pelo G1. O ritmo de criação é o dado mais alarmante: em apenas uma semana, foram identificadas 80 novas páginas que simulam a identificação de passagens por pórticos e geram uma cobrança falsa por Pix — com o dinheiro indo direto para contas de laranjas.

O free flow é o sistema de pedágio sem cancelas que cobra a tarifa por meio de pórticos com câmeras e sensores, sem que o motorista precise parar ou reduzir a velocidade. A cobrança é feita posteriormente, por tag, por cadastro na concessionária ou por pagamento avulso — e é justamente essa etapa posterior que os criminosos exploram, criando páginas que imitam o processo legítimo de regularização.

Como o golpe funciona

O estudo da Kaspersky descreve um padrão comum às páginas fraudulentas. Há pouco texto que permita perceber que o site não pertence à concessionária responsável pelo trecho onde o motorista passou. Em destaque, uma caixa de texto pede a placa do veículo. Em seguida, o valor é exibido junto com o código Pix para pagamento — tudo em poucos cliques, sem qualquer verificação real de passagem.

O valor cobrado é deliberadamente baixo. O levantamento identificou casos em que a cobrança era de cerca de R$ 25, quantia que ajuda a reduzir a desconfiança dos motoristas e imita tarifas reais de pedágio. Para comparação, na BR-101, a passagem de carros de passeio pelo trecho entre Paraty e o Rio de Janeiro pode custar R$ 4,80 — de modo que R$ 25 parece o acúmulo de algumas passagens não pagas, exatamente o cenário que o site falso sugere.

"Ao acreditar na legitimidade da cobrança, o usuário paga via Pix, e o dinheiro é transferido para contas de laranjas", diz o estudo. Como o Pix é instantâneo e irrevogável, a recuperação do valor depois do pagamento é difícil, e o prejuízo individual — pequeno — raramente motiva o motorista a registrar ocorrência, o que permite ao golpe escalar em volume sem chamar atenção.

Para , editor do portal, o golpe explora uma lacuna criada pela própria tecnologia. "O free flow é uma boa ideia: ninguém para, ninguém enfrenta fila. Mas ele tirou da equação o momento em que o motorista sabia que estava pagando pedágio. Agora ele passa, não vê nada, e dias depois recebe uma mensagem dizendo que deve. O criminoso só precisa chegar antes da concessionária. R$ 25 por vítima, milhares de vítimas, 80 sites por semana — é um negócio de escala", avalia.

A resposta do governo: consulta centralizada no app CNH do Brasil

Na semana anterior à divulgação do estudo, o Ministério dos Transportes atualizou o aplicativo CNH do Brasil. Com a mudança, os motoristas passaram a consultar na própria plataforma as passagens registradas em pedágios do sistema free flow em rodovias municipais, estaduais e federais, independentemente da concessionária responsável. O aplicativo, que já reunia informações da Carteira Nacional de Habilitação e sobre multas, agora mostra quando o veículo passou pelo pórtico, onde e como pagar a tarifa.

Antes da nova funcionalidade, o motorista precisava acessar os canais de atendimento de cada concessionária para consultar e pagar as tarifas — e, como o free flow está presente em rodovias operadas por empresas diferentes, isso significava lidar com vários sites e sistemas. A falta de um ponto único de consulta dificultava os pagamentos e abria espaço para os golpes: sem saber qual era o site oficial, o motorista clicava no primeiro resultado da busca ou no link recebido por mensagem.

O estudo da Kaspersky destaca os benefícios de concentrar as informações em um só lugar. Mas alerta que a novidade não encerrou o problema. "Cibercriminosos acompanham os assuntos em destaque no noticiário e nas redes sociais para adaptar rapidamente suas estratégias, e fica o alerta para possíveis novas iscas relacionadas ao tema nos próximos meses", afirmou Fabio Assolini, pesquisador da empresa. Mesmo após a atualização do aplicativo, novos sites falsos continuaram a ser identificados.

Aplicativos falsos: o próximo passo do golpe

O levantamento não identificou um número expressivo de aplicativos que se passam pelo CNH do Brasil, mas apontou o risco de que essa seja a próxima fronteira. Se a consulta oficial migrou para o aplicativo, é previsível que criminosos tentem criar versões falsas do app — distribuídas por links em mensagens ou por lojas não oficiais — para capturar dados de habilitação, placa e, eventualmente, credenciais bancárias.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, a centralização resolve metade do problema. "O app CNH do Brasil é a resposta certa: uma fonte oficial, uma forma de pagar. Mas ele só protege quem sabe que ele existe e sabe que é o único canal legítimo. A outra metade é comunicação — placa nos pórticos, aviso nas concessionárias, campanha nas redes. Enquanto o motorista comum não souber que qualquer cobrança fora do app é golpe, o site falso vai continuar funcionando", observa.

Por que o Pix é a arma do golpe

A escolha do Pix como meio de pagamento não é acidental. Diferentemente do cartão de crédito, em que o consumidor pode contestar a compra e obter estorno, o Pix é liquidado em segundos e não tem mecanismo automático de devolução. O criminoso recebe, transfere o valor para outras contas e desaparece antes que a vítima perceba o erro. As contas de destino — os chamados laranjas — são abertas em nome de terceiros, muitas vezes pessoas que cederam seus dados por pequena quantia ou que tiveram a identidade usada sem saber.

Existe, porém, um recurso pouco conhecido: o Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado pelo Banco Central. Ao ser acionado pela vítima junto ao seu banco com rapidez, ele permite que a instituição solicite o bloqueio dos valores na conta de destino e a devolução, caso o dinheiro ainda esteja lá. A eficácia depende do tempo: quanto antes a comunicação, maior a chance de os recursos não terem sido pulverizados.

Como se proteger

As recomendações que emergem do estudo e da orientação do Ministério dos Transportes são práticas. A primeira: consultar passagens e pagar exclusivamente pelo aplicativo CNH do Brasil, baixado da loja oficial do sistema operacional do celular, ou diretamente pelo site da concessionária responsável pelo trecho — nunca por link recebido em mensagem de texto, WhatsApp ou e-mail.

A segunda: desconfiar de qualquer página que peça apenas a placa e já apresente um valor com Pix. O processo legítimo exige identificação do trecho, da data e do horário da passagem, e o pagamento é feito por meio de canais rastreáveis. A terceira: verificar o endereço do site com atenção — páginas falsas costumam usar domínios genéricos ou com pequenas variações do nome da concessionária.

Por fim, quem já caiu no golpe deve registrar boletim de ocorrência e comunicar o banco imediatamente. Embora o Pix seja irrevogável, o Banco Central mantém o Mecanismo Especial de Devolução, que permite ao banco bloquear e devolver valores em casos de fraude comprovada — desde que a comunicação seja rápida.

O tamanho do problema

O free flow vem sendo adotado em rodovias de todo o país como alternativa às praças de pedágio tradicionais, com vantagens de fluidez e de custo operacional. Sua expansão, porém, multiplica o número de motoristas que precisam pagar tarifas depois da passagem — e, portanto, o número de alvos potenciais. Quatrocentos e oitenta sites falsos em um ano, com 80 criados em uma única semana, indicam uma operação criminosa organizada, com capacidade de produzir páginas em escala industrial.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, o caso é um exemplo de como cada avanço tecnológico exige uma camada de proteção correspondente. "O pedágio sem cancela é mais moderno, mais rápido e mais barato de operar. Mas ele transferiu para o motorista uma responsabilidade que antes era da cancela: saber quando e como pagar. Toda vez que o sistema transfere responsabilidade para o usuário, o golpista aparece para oferecer um atalho falso. A defesa não é voltar à cancela, é garantir que o canal oficial seja tão simples quanto o site do golpista", analisa.

O aplicativo CNH do Brasil está disponível gratuitamente para Android e iOS. A consulta de passagens pelo free flow pode ser feita na seção de veículos do app, após o cadastro da placa.

Fontes e referências

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