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Automóveis

Hamilton chega a Monza de terno e chapéu numa Ferrari F40 que ficou 30 anos parada após rodar 69 km

Piloto procurou por meses o exemplar mais autêntico e optou por restauração mecânica completa para "prestar homenagem" à Ferrari em seu GP em casa.

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— Foto: ermell / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Hamilton chega a Monza de terno e chapéu numa Ferrari F40 que ficou 30 anos parada após rodar 69 km — e descobre, na restauração em Maranello, o número 44 estampado no bloco do motor: "Parece muito com destino"

Lewis Hamilton chegou ao paddock de Monza na manhã de quinta-feira vestindo terno, gravata, chapéu e sobretudo, saindo de uma Ferrari F40 que passou meses rastreando. A placa dianteira exibia "44", seu número de corrida desde a estreia na Fórmula 1 — e essa placa revelou-se a menor parte da história: quando os técnicos da Ferrari desmontaram o motor durante a restauração, encontraram o número 44 estampado no bloco, coincidência que o piloto chamou de destino ao descrevê-la a repórteres. "Parece muito com destino", disse. As informações são do Motor1 Brasil.

Segundo a Road & Track, Hamilton chamou a F40 de "um carro dos sonhos" e não buscava qualquer exemplar: queria o mais autêntico que pudesse encontrar, com baixa quilometragem e uma história que valesse a pena contar — e afirma ter conseguido exatamente isso.

69 km e 30 anos parada

A história do carro explica a escolha. O proprietário anterior dirigiu a F40 por 69 quilômetros, de Maranello até sua casa, e nunca mais ligou o motor — deixou o carro estacionado por mais de três décadas antes da compra por Hamilton. É o tipo de exemplar que colecionadores chamam de "cápsula do tempo": original em cada peça, sem desgaste, mas com todos os fluidos, borrachas e vedações degradados pelo tempo parado. Em vez de preservá-la como peça estática, Hamilton optou por restauração mecânica completa. "Tem que ser feito", disse. Os técnicos de Maranello cuidaram do trabalho antes de o carro chegar a Monza.

Para , editor do portal, a decisão de restaurar diz mais que a coincidência do 44. "Um F40 com 69 km é peça de museu que vale mais parada do que rodando — colecionador puro não ligaria o motor. Hamilton mandou desmontar, revisar e andar. É a diferença entre quem coleciona e quem dirige. O número 44 no bloco é história bonita; o que importa é que o carro voltou a fazer o que Enzo Ferrari desenhou para fazer. Chegar a Monza dirigindo um F40 de 1989, em vez de chegar de van com o patrocinador, é o gesto de um piloto que entendeu onde está", avalia.

F40: o último carro de Enzo

A Ferrari construiu a F40 no fim dos anos 1980 como supercarro leve, com V8 2.9 biturbo de 478 cv, carroceria de compósitos e interior sem forração — marcando o 40º aniversário da marca e sendo o último modelo aprovado por Enzo Ferrari antes de sua morte, em 1988. Foi o primeiro carro de produção a superar 320 km/h, e sua brutalidade — sem ABS, sem direção assistida, com turbos que entram de golpe — o tornou o Ferrari mais reverenciado da era moderna. Exemplares originais valem hoje bem acima de US$ 2 milhões; um de 69 km, muito mais.

O motor 44: o que se sabe

Hamilton descreveu o motor como "número 44", mas os relatos disponíveis não confirmam que seja literalmente o 44º motor de F40 construído — a numeração de blocos na Ferrari segue lógica própria, e o carimbo pode referir-se a lote, sequência de fundição ou outra marcação interna. Para o piloto e para os fãs, a distinção é secundária: o número está no bloco, e o carro é dele. A coincidência ressoou exatamente porque a F40 é ícone e o 44 é a assinatura de Hamilton desde 2014.

A chegada como ritual

A restauração permitiu recriar uma imagem específica: emergir de um supercarro em roupas sob medida, ecoando as chegadas que se tornaram parte de sua identidade nos fins de semana de corrida da Ferrari. "Quero chegar com este estilo, com este terno, desta forma, para prestar homenagem a este esporte", disse Hamilton. Em Monza — o GP da Itália, a casa da Ferrari —, a homenagem tem público: tifosi que veem no inglês de 41 anos, campeão sete vezes, o piloto que escolheu terminar a carreira em vermelho.

Na leitura de Adriano Jose Reis Martins, editor do portal, Hamilton está construindo um legado fora da pista. "A temporada de Hamilton na Ferrari não tem sido a dos títulos — o carro não é o melhor e ele não é mais o mais rápido. O que ele está fazendo é outra coisa: virar parte da história da marca. Comprar o F40 mais original do mundo, restaurar em Maranello, chegar a Monza dirigindo. Isso não ganha corrida, mas ganha a Itália. Daqui a 20 anos, quando o carro for a leilão, a ficha vai dizer 'ex-Lewis Hamilton, motor 44, Monza 2026'. Ele sabe disso. É o piloto pensando como colecionador — e como marca", observa.

Hamilton e a Ferrari: a segunda temporada

Hamilton chegou à Ferrari em 2025, após 12 anos na Mercedes, no movimento mais comentado da F1 recente. A primeira temporada foi de adaptação difícil — carro abaixo do esperado, disputa interna com Charles Leclerc —, e a segunda, em 2026, com o novo regulamento de motores, tem sido mais competitiva sem ser vitoriosa. O piloto tem usado a plataforma para se associar à história da marca, com visitas a Maranello, carros clássicos e declarações como a de Monza: "Levo isso a sério. É uma experiência fenomenal estar entre esta marca. Não há nada igual."

Restaurar um carro parado 30 anos

Um motor que não gira por três décadas exige muito mais que troca de óleo: vedações ressecam, borrachas de mangueiras e coxins racham, o combustível residual vira verniz nos injetores, e os turbos — dois, na F40 — precisam de revisão de rolamentos e selos. A Ferrari Classiche desmonta, inspeciona cada componente, substitui o que perdeu propriedade por peças originais ou refabricadas com a especificação de fábrica e remonta com documentação. Hamilton disse que o carro "precisou de surpreendentemente pouco" — o que é típico de exemplares guardados em ambiente controlado: pouco desgaste, muito envelhecimento.

O 44: a história do número

Hamilton escolheu o 44 em 2014, quando a F1 passou a permitir números fixos, por ter sido o número de seu kart na infância; venceu seis títulos com ele na Mercedes e o levou à Ferrari. Na Scuderia, o 44 convive com o 16 de Leclerc e com a tradição da marca de não aposentar números — o 27 de Villeneuve é exceção informal. Encontrá-lo no bloco de um F40 de 1989, ano em que o piloto tinha quatro anos, é a coincidência que transformou a compra em narrativa.

Colecionismo Ferrari: o mercado

Ferraris clássicas são a classe de ativo mais valorizada do colecionismo automotivo: 250 GTO ultrapassam US$ 50 milhões, F40 e F50 originais crescem de valor a cada ano, e exemplares com proveniência — dono famoso, quilometragem mínima, restauração de fábrica — comandam prêmios substanciais. A Ferrari mantém o programa Classiche, em Maranello, que certifica e restaura carros históricos; a F40 de Hamilton, restaurada pela própria fábrica, ganha a chancela que mais valoriza.

Monza: o GP em casa

O GP da Itália em Monza é o fim de semana mais carregado do calendário para a Ferrari: o autódromo, a poucos quilômetros de Milão, recebe dezenas de milhares de tifosi que transformam a corrida em evento nacional. Para um piloto da Scuderia, chegar a Monza é rito; chegar num F40 restaurado com o 44 no bloco é rito com roteiro. Hamilton disse que quis "destacar a história da Ferrari em seu grande prêmio em casa" — e a chegada fez exatamente isso.

O que a F40 representa em 2026

Num momento em que a Ferrari lança seu primeiro elétrico e a F1 usa motores híbridos com combustível sintético, a F40 — V8 biturbo, manual, sem eletrônica — é a antítese e a origem. Dirigi-la em 2026 é declaração sobre o que o automóvel foi e o que o esporte deve à mecânica pura. Para Hamilton, ativista de sustentabilidade que dirige carro elétrico no dia a dia, é também paradoxo assumido: o carro dos sonhos é o de 1989.

Para Jaime Fernando Reis Martins, editor do portal, a história é um raro momento de leveza no automobilismo. "Não há polêmica, não há regulamento, não há dinheiro em disputa. É um piloto de 41 anos que achou o carro que sonhava aos 10, mandou consertar e foi trabalhar dirigindo. O 44 no motor é o detalhe que faz a internet suspirar, mas a essência é mais simples: alguém que ama carro. A F1 de 2026 precisa disso — de piloto que chega de F40, não de jatinho. Hamilton, que já ganhou tudo, está ensinando o grid a curtir. É a melhor coisa que ele fez na Ferrari até agora", analisa.

Lewis Hamilton chegou ao GP da Itália, em Monza, na quinta-feira, 4 de setembro de 2026, dirigindo uma Ferrari F40 restaurada pela fábrica em Maranello. O carro havia rodado 69 km desde 1989.

Fontes e referências

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